Há leituras que, considerado o tempo exigido pelo tamanho da obra, apresentam-se ao leitor como verdadeiros “projetos” de execução em longo prazo. Assim me dispus, em 2019, a ler a monumental trilogia O tempo e o vento, de Erico Verissimo, animado pelos 70 anos a que chegava a publicação da primeira parte, O Continente, lançada em 1949. Se não o fiz, agora mergulho nas 2295 páginas deste que é, sem exagero, um dos maiores patrimônios da ficção em língua portuguesa, portentoso o bastante para não apenas consagrar quem o escreveu, mas também para fazer, sozinho, a grandeza de qualquer literatura. Leio os romances na bem cuidada edição da obra completa do autor, 27 volumes com letras e arabescos dourados sobre capa dura de cor vinho, publicada em 1978 pela histórica Editora Globo, de Porto Alegre, casa a que, por muitos anos, Erico pertenceu como escritor, tradutor, conselheiro e funcionário ilustre.

Pelo acúmulo de protagonistas, antagonistas, acontecimentos e datas, romances históricos muitas vezes perdem força ao transformar-se em prosa corriqueira, narração que entedia, à semelhança de compêndios escolares e de verbetes de enciclopédia. Não os que escreveu Erico Verissimo, para quem fatos e nomes da historiografia eram a matéria-prima de uma criação literária que, ao longo de décadas, continua a surpreender pela maestria com que seduz o leitor já nas primeiras linhas.

Magistralmente construídas, as personagens impõem-se pela absoluta coerência no modo de ser, de pensar e de agir, tão naturalmente que não parecem inventadas. Ana Terra, Bibiana, o Capitão Rodrigo – e mesmo figuras secundárias na trama d’O Continente, como Maria Valéria, doutor Carl Winter e padre Atílio Romano – comportam-se de acordo com os tipos humanos a que correspondem, sem as artificialidades e contradições que enfraquecem criaturas mal concebidas. Somem-se, a essa habilidade, outros conhecimentos da técnica romanesca, como a composição dos diálogos e o uso do flashback, e entende-se por que Verissimo é um admirável contador de histórias, tão bom quanto os grandes roteiristas da televisão e do cinema.

Não admiram, pois, as tantas filmagens de O Continente que chegaram às telas: O Sobrado (1956), com roteiro de Walter George Durst e do próprio Erico; Ana Terra (1971), adaptado por Durval Garcia, com argumento e diálogos do romancista; Um certo Capitão Rodrigo (1971), adaptação de Anselmo Duarte, Geraldo Joanides, Geraldo Queiroz e Leopoldo Serran; O tempo e o vento (2013), adaptado por Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas. Em 1967, Teixeira Filho escreveu para a TV Excelsior uma novela baseada na história de Veríssimo; em 1985, foi ao ar pela TV Globo a primorosa minissérie O tempo e o vento, dos roteiristas Doc Comparato e Regina Braga, com a abertura ilustrada pelas “paisagens gaúchas” do grande pintor Glauco Rodrigues e a trilha sonora, belíssima, assinada por ninguém menos do que Tom Jobim.

Antológica, no livro, a apresentação da personagem que leitor nenhum esquece:

Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e obusto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
— Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Difícil lê-la, depois da minissérie, sem imaginar o Capitão Rodrigo como Tarcísio Meira, que o interpreta com talento incomum. Prova de que, se atores são identificados por importantes papéis que desempenham, há os que prodigiosamente logram fazer mais, e dão fisionomia e corpo a personagens que para sempre serão eles.

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Interessante como, em autores com obras extensas como Erico Verissimo, uma ficção sugere, às vezes, a semente de outra que a sucederá. Assim, em O resto é silêncio, de 1943, nota-se o prenúncio de O tempo e o vento, que surgirá seis anos depois. Enquanto assiste a uma orquestra sinfônica em Porto Alegre, o escritor Tônio Santiago, alter ego do romancista, lembra a história do seu povo, as façanhas dos antepassados (entre eles, significativamente, os da família Terra), quando lhe ocorrem até as duas palavras que intitularão a futura trilogia:

Pensava também na luta do homem contra os elementos e as pragas. Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a solidão, os horizontes sem fim e o tempo. A cada passo, o perigo da invasão, o tropel das revoluções e das guerras. E ainda as criaturas tristes e pacientes, esperando, vendo o tempo passar com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros acenar para as distâncias.

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A par da grandeza literária, O Continente interessa por dar a conhecer parte relevante da história do Brasil: os Sete Povos das Missões, no século XVIII; a Guerra dos Farrapos, a Revolução Federalista, a imigração alemã e a Revolta dos Muckers, acontecimentos que marcaram gerações de sulistas no século XIX, para quem a paz era somente a espera angustiante da próxima luta. Conflitos regionais – protagonizados por Bento Gonçalves, Júlio de Castilhos e Giuseppe Garibaldi – a que se acrescentam episódios que agitaram a nação, como a campanha contra Oribe e Rosas, a Guerra do Paraguai, o fim da escravatura e a tomada do poder por militares e civis republicanos. Está tudo lá, não como historiografia monótona, mas como pano de fundo a enriquecer o palco em que se conta a história dos fundadores e primeiros habitantes da pequena Santa Fé, no então Continente (daí o nome da primeira parte) do Rio Grande de São Pedro, cidade mítica do escritor gaúcho como a Yoknapatawpha de Faulkner, a Macondo de García Márquez e a Duas Pontes de Autran Dourado. Razões pelas quais O tempo e o vento não deve necessariamente constar do currículo escolar sul-rio-grandense, pois nada pior do que sentir-se obrigado a qualquer coisa, mas que não deixe de ser lido pelos que desejem conhecer, melhor e mais profundamente, a história da terra em que nasceram. Além do bônus de fazê-lo com literatura de superior qualidade.

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De O Continente para O Retrato, Erico faz, com maestria, um corte de mais de meio século, e passa de 1893 para 1945. Em baixa altitude, o jovem piloto Eduardo Cambará sobrevoa as ruas centrais de Santa Fé, quando, lá embaixo, vê aproximar-se veloz a imagem do oficial de justiça Cuca Lopes, de cujo ponto de vista mostra-se o rasante do monomotor. Pela natureza cinematográfica, a cena bem poderia ser de um filme, mas se lê na abertura da segunda parte da trilogia.

Fundada por homens profundamente ligados ao campo, Santa Fé já dispõe, no início do século XX, dos estabelecimentos comerciais e dos serviços próprios de uma cidade: hotel, colégio, padaria, confeitaria, cinema, barbearia, funerária, prostíbulo, em ruas onde as pessoas veem trafegar os primeiros automóveis e temem o fim do mundo com a passagem próxima do Cometa de Halley. As referências históricas são de cunho mais urbano: a Campanha Civilista, a Revolta da Chibata, a morte do senador Pinheiro Machado, a Primeira Guerra Mundial, a queda de Getúlio Vargas, comentados e discutidos por Rodrigo Terra Cambará, bisneto do lendário capitão de quem herdou o nome, sétima geração da família cuja saga Verissimo começara a contar em O Continente. Dele, o pintor Don Pepe García, espanhol anarquista, faz o óleo sobre tela que dá título ao romance, pintura com a qual a personagem dialoga à medida que sente perder a juventude e a beleza, como se num Retrato de Dorian Gray às avessas.

Rodrigo é admirável criação do ficcionista, pelo drama, inerente à natureza humana, de achar-se dividido entre o bem e o mal, a razão e a emoção, a consciência e o desejo: casado com Flora, encanta-se à primeira vista com a beleza de outras mulheres, pouco importa se solteiras ou casadas; médico sensível ao sofrimento e à pobreza, é capaz de assediá-las no consultório, como não hesitaria em fazer com Carmem, talvez doente de tuberculose, esposa de um amigo coronel:

Seria tísica, como se murmurava? Rodrigo imaginou-se a encostar o ouvido naquele descarnado peito. Diga trinta e três, minha senhora. Trinta e três. Trinta e três. Não diga mais nada. Diga só se é feliz. Fale a verdade. Um médico é como um sacerdote. Abra a sua alma. Abra o seu corpinho. Que seios, que mãos, que lábios gelados! O senhor me perdoe, Dr. Pasteur, mas há ocasiões em que não acredito em bacilos…

Com Toni Weber, jovem e bela violoncelista austríaca por quem se apaixona, chega a pensar em aborto, ao saber que a engravidara. O fim é trágico, e não haverá leitor imune ao desespero lancinante do protagonista, na magistral expressão do autor:

Sem saber quando nem como, afundou num mundo confuso de febre, dor e ânsia, num escuro torpor que não era bem sono nem chegava a ser vigília – modorra agônica em que continuou a sentir a angústia que lhe oprimia o peito, e o latejar dolorido da cabeça. Seu espírito andou perdido por uma região crepuscular e equívoca povoada de vagos vultos e vozes, sombras e sons que ele procurava identificar numa aflição, mas que lhe fugiam (era de endoidecer!) no momento mesmo em que iam revelar seu mistério, dissolviam-se na grande cerração através da qual ele se esforçava por ver claro, orientar-se, pois sentia que só vendo claro e descobrindo onde estava podia salvar-se, evitar a loucura (…).

A Rodrigo Terra Cambará transmitira-se não só o nome do bisavô, mas a índole arrebatada, o temperamento impulsivo, a sofreguidão com que se impunha viver a vida voluptuosamente, vertiginosamente, até as últimas consequências, sem limites nem fronteiras.

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N’O arquipélago – romance de 1011 páginas, o mais volumoso da trilogia –, Erico chega, em 200 anos de história, à oitava geração da família Terra Cambará, com um dos filhos de Rodrigo, Floriano, que já se apresentara no último capítulo de O Retrato. Mais que apenas personagem, facilmente se pode reconhecer como alter ego do romancista: escritor, dera aulas em universidade dos Estados Unidos e, de volta ao Brasil, enfrenta relação conflituosa com o pai – três pontos em comum com o ficcionista que o criara. Segundo Floriano, cada homem é uma ilha, sim, diferentemente do famoso verso de John Donne, sem pontes que nos unam no gigantesco arquipélago a que pertencemos, metáfora que dá título à terceira parte da trilogia. Tenciona a personagem escrever um caudaloso romance que terá por matéria-prima a formação do gaúcho, os homens e mulheres da família, a história do seu povo – obra que não seria outra senão O tempo e o vento. Sem maniqueísmos ideológicos nem paixões partidárias, Floriano dá voz às ideias do autor, ao defender um “socialismo humanista” com o máximo de socialização e de liberdade individual:

Nesse regime, a terra e o capital seriam comuns, mas o governo, democrático. Numa palavra: esse sistema deveria não só conseguir uma democracia social como também preservar a democracia política, sem o que terá destruído exatamente aquilo que todos queremos salvar: a liberdade, a identidade e a dignidade do homem.

Nota-se, também, a postura cética de Veríssimo em falas de Roque Bandeira, “profissional do sarcasmo”, segundo o amigo Floriano:

O homem hipocritamente se atribui sentimentos e qualidades que na realidade não possui. Em matéria de espírito, vive muito além de suas posses reais. É, vamos dizer, um carreirista safado no plano moral. Saca contra o Banco da Decência e dos Sentimentos Nobres S. A., onde absolutamente não
tem fundos, mesmo porque esse banco no final de contas é também uma fraude. Mas a verdade é que os cheques se descontam, têm valor, andam de mão em mão… e vocês sabem por quê? Porque todos somos falsários, estamos desonestamente no jogo. E assim a comédia continua.

O espirituoso Bandeira que, ao cair da tarde em Santa Fé, comenta com o amigo:

É uma sorte o pôr do sol não depender do governo e de nenhuma autarquia, porque, se dependesse, o trabalho cairia nas garras de funcionários incompetentes e desonestos, haveria negociata na compra do material, acabariam usando tintas ordinárias… e nós não teríamos espetáculos como estes.

No grupo de que fazem parte, diverge-se, calorosa mas civilizadamente, sobre religião e política, capitalismo e comunismo, ditadura e democracia. O pano de fundo é o que de mais importante agitou o Brasil na primeira metade do século XX: Coluna Prestes, Revolução de 30, Revolução Constitucionalista de 1932, levante comunista de 35, golpe do Estado Novo, deposição de Vargas em 1945… Ao longo desse tempo, Rodrigo Terra Cambará torna-se deputado estadual, elege-se intendente do município e se muda, em 1930, para o Rio de Janeiro. Na corte, consolida a amizade com Getúlio, que lhe dá nada menos do que um cartório e condições para enriquecer no ramo imobiliário. Deposto o amigo presidente, volta para Santa Fé, onde, enfermo e decadente, acabará por desmentir o que tantas vezes dissera com orgulho, que um Terra Cambará não morre na cama.

Além dele, somente uma outra figura permeia toda a trilogia: Maria Valéria, a Dinda, grande criação de Verissimo, mulher de poucas palavras, seca e zelosa a um só tempo, sombra a deslizar furtiva pelas dependências do sobrado, testemunha impressentida dos dramas, dos segredos, dos amores que ali se passaram.

O Arquipélago se conclui com o personagem Floriano sentado à máquina. Fica por alguns instantes a olhar para o papel, como que hipnotizado, e começa a escrever: “Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.” Exatamente as palavras com que se inicia O Continente. Fecha-se, assim, a monumental trilogia O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Completa-se a história, consuma-se a obra. Como um círculo perfeito.

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Edmílson Caminha

Professor, jornalista e escritor brasileiro, Edmílson Caminha é membro da Academia Brasiliense de Letras, do Pen Clube do Brasil, da Associação Brasileira de Imprensa e do conselho consultivo do Observatório da Língua Portuguesa. Publicou, entre outras obras, Lutar com palavras; Drummond, a lição do poeta; O professor, Beethoven e o ladrão e A solidão no Programa do Jô.

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