“Minha pátria é a Língua Portuguesa”. Nada me expressa melhor, como ser humano, como cidadão, como professor, como jornalista, como escritor do que a sentença de Bernardo Soares no Livro do Desassossego. Simplesmente, não me consigo imaginar falante de outra língua que não a da carta escrita por Pero Vaz de Caminha, de quem me chegou o sobrenome honroso. Tamanha a paixão pelo idioma que abandonei a Faculdade de Medicina pelo estudo das Letras, pequeno que sou, diferentemente de Miguel Torga e de Guimarães Rosa, para que me coubessem literatura e ciência. Sentia-me destinado aos romances de Eça, de Machado; aos poemas de Pessoa, de Drummond; aos contos de Rebelo da Silva, de Lima Barreto; aos ensaios de Almada Negreiros, de Euclides da Cunha. Hoje, trocaria com prazer os para mim insuportáveis compêndios de farmacologia pelas histórias de José Eduardo Agualusa, de Mia Couto, de Djaimilia Pereira de Almeida, de Paulina Chiziane, de Germano Almeida, pela poesia de Noémia de Sousa, de Viriato da Cruz, de Eneida Nelly, de Odete Semedo. Consciente de que os brasileiros nos irmanamos a outros povos, aos quais coube falar, por circunstâncias históricas, a língua dos argonautas que fizeram do mar “o chão maior de Portugal”, no dizer magnífico do poeta Gerardo Mello Mourão, filho ilustre do Ceará onde nasci.

Essa, a força e a grandeza da lusofonia, tão brilhantemente defendida e exaltada pelo embaixador Lauro Moreira. Muito mais que utentes da “última flor do Lácio”, no dizer do poeta Bilac, partilhamos um valioso patrimônio histórico, uma bela cultura, uma natural disposição para a convivência respeitosa, para o diálogo harmonioso, para a troca de experiências, de descobertas e de saberes, de que é símbolo esta V Sessão do Fórum Permanente Debates da Lusofonia. Além, é claro, do poder econômico dos países lusófonos como grandes mercados produtores e consumidores de bens e de serviços, com papéis de relevo cada vez maior nas instâncias em que se decidem os rumos da economia mundial.

Tão forte é a sedução da nossa língua e das nossas literaturas que a elas não resistem estrangeiros quando lhes ouvem o canto. A exemplo do professor, tradutor, filólogo e ensaísta húngaro Paulo Rónai. Apaixonado por línguas (francês e latim, sobretudo, que ensinava em escolas na Budapeste dos anos 1940), o jovem intelectual devia a Camões a descoberta do português, mas afeiçoara-se definitivamente pelo idioma ao conhecer a história de Bentinho, Capitu e Escobar:

A primeira obra da literatura brasileira que li foi o Dom Casmurro, de Machado de Assis, em tradução francesa. Despertou-me verdadeira curiosidade este início auspicioso. Foi muito bom começar com uma obra daquela importância. Desperto e motivado, então procurei ler em originais. (…) Senti- me diante de um grande escritor, experimentei a mais profunda impressão. Uma literatura que tinha romancista daquele porte não podia deixar de interessar-me.

Curiosa a primeira reação de ouvidos e de olhos estranhos à nossa língua. No delicioso livro Como aprendi o português, e outras aventuras, conta Paulo Rónai:

De todos os escritores húngaros que eu conhecia, Desidério Kosztolányi era o único que se aventurara a abordar o estudo do português. Certa vez falou-me nesta língua que lhe parecia alegre e doce como um idioma de passarinhos. A mim, sob seu aspecto escrito, dava-me antes a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes? E olhava espantado para palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restava das palavras latinas, cheias e sonoras.

Adiante, observa:

Não somente o vocabulário: fenômenos sintáticos também me provocavam reações sentimentais. A descoberta do infinitivo pessoal foi uma surpresa e me abalou bastante o orgulho patriótico, pois julgava-o riqueza exclusiva do húngaro. Afeiçoei-me logo às formas mesoclíticas dos verbos: falar-te-ei, lembrar-nos-íamos apresentavam-me como que em corte anatômico palavras já irreparavelmente fundidas no francês ou no italiano, e faziam supor dotes de análise e síntese em todos os que as empregavam. Admirei também a sábia economia que se manifestava em expressões compostas de dois advérbios, como demorada e pacientemente, só imagináveis numa língua que teimasse em não se afastar de suas raízes etimológicas.

Em São Petersburgo, minha mulher Ana Maria e eu embarcaríamos cedo para Moscou, e lá pelas cinco da manhã fizemos o check-out no hotel Corinthia Nevsky Palace. Quando nos ouviu a conversar, o jovem recepcionista foi só exclamações: “Brasileiros! Eu amo a vossa língua, que estudei na universidade! Tenho de cor um soneto de Luís de Camões!” E começou, com o sotaque lusitano do mestre com quem aprendera: “Mudam os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Surpreendi-me não como se escutasse um brasileiro a dizer versos de Pushkin, mas como se, hoje, algum dos nossos estudantes conhecesse um poema de… Luís de Camões, tão pouco sabem, sejamos sinceros, dos clássicos que trabalhadores russos dizem de memória.

Professor de língua portuguesa e de literatura brasileira, nunca me prestei a apenas ensinar gramática, a dividir autores e obras em estilos de época: apaixona-me transmitir a fascinação pelo fenômeno linguístico, pela criação literária, pelo encanto da prosa, pela magia poética. A partir da desmistificação do português como “língua difícil”, pela só razão de que não há línguas fáceis, como sistemas postos entre os mais ricos e complexos utilizados pelo homem, a matemática incluída. O que, naturalmente, não deve desalentar, desinteressar, mas animar ao estudo, à pesquisa do idioma que tão profundamente nos traduz, como indivíduos e como povos.

Mesmo línguas ágrafas, por engano subestimadas como de estrutura e de funcionamento mais simples, têm recursos sofisticados de que não dispõem “línguas de cultura”, como a nossa. Assim o trumai, com falantes nativos no território indígena do Xingu, em Mato Grosso, estado do Centro-Oeste brasileiro.

Sim, porque espantosamente sobrevivem hoje, no Brasil, nada menos do que 274 línguas indígenas, conforme dados oficiais do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Importa que se reconheçam, se preservem, se respeitem esses patrimônios antropológicos da cultura e da história do Brasil, a par da relevante preeminência do português como língua nacional. Caso, também, de muitos outros idiomas que se falam em países de África, fontes, lá e aqui, de milhares de contribuições que fazem maior, mais belo e mais rico o léxico português.

Em bom artigo para o jornal Folha de S. Paulo, discorre o jornalista Reinaldo José Lopes sobre o “dual”, partícula que, em línguas como o grego clássico e o trumai, designa dois entes que constituem um par, de maneira natural ou por costume. Escreve o articulista: “Em trumai, quando alguém usa a marca do dual – um singelo a – junto a um nome pessoal, a mágica gramatical acontece: ‘Yakaikiru a’ significa a mulher chamada Yakaikiru e seu ‘par natural’, ou seja, o marido”. E vai além, ao comentar a serialização verbal, os “superverbos” em que poucas sílabas narram “uma história em quadrinhos mental”, uma cena completa: “Na língua hup, falada no Alto Rio Negro (fronteira com a Colômbia), um verbo serializado como ‘tiy-his’ap-b’uyd’äh-yë’ – seis sílabas, pelas minhas contas – equivale ao seguinte: ‘Ele empurrou [a porta, subentendido] até que a quebrou, jogou-a de lado e entrou’”.

Verdadeiros portentos linguísticos, a nos lembrar que não há idiomas fáceis, nem pobres, nem feios: são todos complexos, ricos, belos, admiráveis instrumentos da comunicação entre seres que genética e socialmente se destinam a viver em comunidades. Cumpre-nos zelar para que das línguas se faça bom uso, sujeitas que são, sempre foram, ao controle político, a interesses ideológicos, a projetos de poder. Não por coincidência, o primeiro ato dos conquistadores de outrora era a expropriação dos idiomas nativos, como se aos conquistados se arrancassem as mãos, esmagassem as pernas. Desconfiemos, assim, de todos os governos, de todos os governantes que manipulem a língua, que corrompam a linguagem, que desvirtuem a semântica. A primeira vítima da guerra não é a verdade, como se costuma dizer. São as palavras que a expressam, pervertidas por códigos em que guerra vira “operação militar especial”, violência equivale a “defesa da lei e da ordem”, tortura é “técnica de interrogatório”, ditador se traveste de “homem forte”, censura se ameniza em “regulamentação da imprensa”, declaração absurda corresponde a “frase fora do contexto”, liberdade de expressão significa “festival de calúnias” e mentira se converte em “pós- verdade”.

A influência política a que se submetem as línguas – o português, naturalmente, entre elas – nos traz à lembrança o bicentenário da Independência do Brasil, em 7 de setembro deste ano de 2022. Marco fundador da soberania do Estado brasileiro, a proclamação de Dom Pedro I (IV, para os portugueses) nos deve levar mais à reflexão do que à comemoração, pelo sentimento de que o tornar-se livre do jugo da metrópole não é um fim em si mesmo, mas apenas o início de um longo, lento e, muitas vezes, custoso processo. Aos homens e mulheres, não aos transitórios detentores do poder, cabe construir o desenvolvimento econômico e a justiça social a que todos temos direito. Não creio em determinismo histórico: a nenhuma nação – entre elas o Brasil, evidentemente – se reserva, por vocação e destino, um futuro de bonança e de prosperidade. A cada povo, a cada geração cumpre conquistá-lo duramente, arduamente, na luta cotidiana de que se faz a história de um país.

Assim, a verdadeira independência do Brasil ainda se está por fazer. Acontecerá, realmente, quando nos virmos livres da doença, do analfabetismo, do subdesenvolvimento, da pobreza, da corrupção, da miséria que desde sempre nos desmerecem como estado, nos envergonham como povo e nos aviltam como cidadãos. Sem que nos esqueçamos de que nada é para sempre, a obra nunca se deverá ter por concluída: basta eleger um insano – e exemplos não nos faltam hoje, à direita e à esquerda, em vários cantos do mundo – para que se ponham abaixo conquistas, às vezes, de séculos. Lembremo-nos de que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, como escreveram Marx e Engels no manifesto que os consagrou.

São pensamentos e ideias que elaboramos em português, e com isso voltamos ao começo da fala sobre a lusofonia que nos une, irmana e engrandece. Permitam-me que conclua com versos da “Ode à Língua Portuguesa”, do luminoso poeta brasileiro José Albano, nascido, como eu, na cidade de Fortaleza, em 1882, e falecido em Montauban, na França, em 1923, aos 41 anos de idade:

Língua minha, se agora a voz levanto

Pedindo à Musa que me inspire e ajude,

Somente soe em teu louvor o canto,

Inda que a lira seja fraca e rude;

E tudo quanto sinto na alma, e digo,

Já que na alma não cabe,

Contigo viva e acabe – só contigo.

Língua minha dulcíssima e canora,

Em que mel com aroma se mistura,

Agora leda, lastimosa agora,

Mas não isenta nunca de brandura;

Língua em que o afeto santo influi e ensina

E derrama e prepara

A música mais rara – e mais divina.

Sempre e sempre te eu veja meiga e pura,

Naquela singeleza primitiva,

Naquela verdadeira formosura

Que farei que no verso meu reviva.

E se apenas um pouco se revela

Desse encanto jucundo,

Há-de mostrar ao mundo – quanto és bela.

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Edmílson Caminha

Professor, jornalista e escritor brasileiro, Edmílson Caminha é membro da Academia Brasiliense de Letras, do Pen Clube do Brasil, da Associação Brasileira de Imprensa e do conselho consultivo do Observatório da Língua Portuguesa. Publicou, entre outras obras, Lutar com palavras; Drummond, a lição do poeta; O professor, Beethoven e o ladrão e A solidão no Programa do Jô.

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