Foi um sol novo a nascer no mar quando, nos anos 60, aqui nos Açores ouvi pela primeira vez, num disco de 45/rpm, a canção “Menino do bairro negro”, cantada por Zeca Afonso.
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar.
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar.
Foi tal o impacto que ainda hoje a cantamos em grupo sempre que a rapaziada, agora já quase toda octogenária, se reencontra.
Aquela melodiosa e vibrante, límpida e doce, enérgica, diáfana e hipnotizante voz, feita de apenas som solto e contagiante, provinha de um fundo imenso e misterioso que nos transportava para um transcendente fora deste mundo, o Novo Mundo que então ingenuamente sonhávamos. Em O meu menino é de oiro, que também ainda hoje cantamos em grupo, em fraquíssimo arremedo, a Canção de embalar, e tantas outras, quase todas reouvidas sempre como se pela primeira vez, Zeca Afonso chegara-nos a estas ilhas em melodia salvífica a catapultar-nos para um universo inebriante.
Nunca ouvi nem conheci pessoalmente Zeca Afonso. Para mim, ele foi sempre uma figura mítica suspensa naquela voz de oiro. Ele era o menino d’oiro. Havia (e há!) uma luz na sua voz que ilumina(va) o fundo do mar e da noite.
Depois, já em Lisboa, era a expectativa da saída de cada novo álbum na época do Natal: Taz outro amigo também, em 70; Cantigas de Maio em 71. Eu vou ser como a Toupeira surgiu quando eu já estava nos EUA e fiz logo tudo para adquirir o LP, como aconteceu nos anos seguintes com Venham Mais Cinco e os subsequentes discos.
Hoje, ninguém que não viveu naqueles ingénuos mas oníricos anos 60 e primeira metade de 70, consegue entender a força que a poesia e a música então exerciam sobre os jovens. Respirava-se versos e bebia-se baladas e canções enquanto se sonhava com o fim do obscurantismo e o início da idade da Luz, da Paz, da Igualdade e da Fraternidade. Os poemas de Zeca Afonso, transmitidos na sua sublime voz, galvanizaram uma geração. Felizmente ele ficou para sempre não apenas na nossa memória, mas enquanto parte da nossa mundividência e do nosso quotidiano, como antídot resistente à atual distopia. Ouvir-lhe a voz num dia açoriano de chuva e nevoeiro ainda faz o sol nascer no mar.
Foto de destaque: José Afonso – Monumento em Grandola1 (Wikipedia Commons)
Onésimo Teotónio Almeida
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