Livro sobre são-tomense Conceição Lima quer abrir caminho a novos estudos sobre a sua poesia

Inocência Mata, Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa na área de Literaturas, Artes e Culturas, 06 de maio de 2025. ANDRÉ KOSTERS/LUSALisboa-

Organizada pela investigadora Inocência Mata, a coletânea será lançada no dia 30 de outubro, no auditório da UCCLA, em Lisboa, e apresentada pelo editor Filinto Elísio e pela poeta angolana Ana Paula Tavares.


28 out 2026 (Lusa) – O editor Filinto Elísio espera que a coletânea sobre a obra de Conceição Lima, a lançar na quinta-feira em Lisboa, abra caminho a novos estudos sobre a obra da poeta são-tomense.

“Estamos a abrir talvez uma jornada de estudos” sobre a escrita e a vida de Conceição Lima, disse à Lusa Filinto Elísio, da editora Rosa de Porcelana e um dos apresentadores de “Quando o Micondó da Casa Florir no País – Escritos sobre Conceição Lima”.

O projeto pensado ainda em vida da poeta e jornalista, que faleceu em maio deste ano, chegou a contar com o entusiasmo da autora, mas a sua morte, que considera “uma perda estrondosa” para a produção literária e poética e para o pensamento dos autores africanos contemporâneos, acabou por acrescentar a dimensão duma homenagem a esta coletânea.

O título recupera o universo de “A Dolorosa Raiz do Micondó”, um dos livros de Conceição Lima (2006), cuja figura central é o embondeiro, e que serviu de inspiração à nova formulação proposta pela professora e amiga Inocência Mata.

Para Filinto Elísio, essa escolha remete para a dimensão estética da obra, mas também para a sua capacidade de imaginar o futuro de São Tomé e Príncipe. O livro de Conceição Lima, afirmou, apresenta uma “poética prospetiva” sobre o desejo de um novo país.

A singularidade da escrita é, para o editor, uma das principais marcas da poeta, cuja obra descreve como profundamente visual e plástica.

“Era uma profusão de cores, de movimentos”, afirmou Filinto Elísio, evocando a dimensão estética da poesia de Conceição Lima, que considerou uma “grande esteta”, alguém que “escreve como quem pinta”.

“A presença das plantas, dos animais, das pessoas e dos lugares do arquipélago permite reconhecer imediatamente a sua ligação a São Tomé e Príncipe, sem limitar a leitura da sua obra a um contexto nacional”, afirmou.

“Ela é uma escritora de profunda africanidade”, sublinhou, destacando a ancestralidade presente nas imagens e metáforas da autora, mas também a sua dimensão cosmopolita e a abertura ao diálogo com o mundo.

“Sente-se nas imagens que procura, nas metáforas que busca, uma ancestralidade africana profunda, mas ao mesmo tempo também uma pessoa extremamente cosmopolita, que afirma a sua santumencidade e a sua africanidade, mas sempre com uma janela aberta para dialogar com o mundo”,observou.

Essa complexidade manifesta-se igualmente na forma como a poeta cruza referências espaciais, temporais, históricas e existenciais, articulando vivências pessoais e memórias ancestrais.

Entre os poemas que considera mais representativos da autora, Filinto Elísio destacou “Afro-insularidade”, pela forma como conjuga a representação da sociedade colonial com a esperança de libertação.

A intervenção de Conceição Lima ultrapassava, contudo, o espaço literário, sublinhou, descrevendo-a como uma intelectual, jornalista e cidadã de forte participação cívica, crítica do poder e dos resultados da soberania são-tomense.

“Ela não é uma cidadã passiva, que aceita”, afirmou, considerando que a autora ocupava plenamente o espaço de cidadania, tanto através da poesia como da intervenção pública.

Filinto Elísio acredita que a coletânea permitirá aprofundar a leitura de uma obra que continua a suscitar interpretações diversas.

O editor adiantou que poderá ser o ponto de partida para outros projetos de investigação sobre a vida e a obra de Conceição Lima, defendendo a necessidade de um trabalho continuado de leitura e divulgação.

O objetivo é contribuir para um conhecimento mais amplo de São Tomé e Príncipe, de África e das estéticas produzidas no Sul, mas também para o reconhecimento de Conceição Lima entre “as grandes autoras contemporâneas de língua portuguesa”.

“Há todo um trabalho de projeção, de fazer ressoar algo que tem um potencial vibrante como o trabalho dela”, concluiu.

“Conceição sonhou muito esta edição, que foi instigada pela professora Inocência Mata”, partilhou o editor, lembrando a vontade expressa pela autora de “ouver” em forma de livro as várias leituras sobre o seu trabalho.

“Quando o Micondó da Casa Florir no País – Escritos sobre Conceição Lima” abre essa janela, reunindo 18 ensaios críticos entre textos criativos, depoimentos, crónicas e poemas escritos por autores de diferentes geografias.

Organizada pela investigadora Inocência Mata, a coletânea será lançada no dia 30 de outubro, no auditório da UCCLA, em Lisboa, e apresentada pelo editor Filinto Elísio e pela poeta angolana Ana Paula Tavares.

TEYM // VM – Lusa/Fim

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Conceição Lima

Conceição Lima nasceu em Santana, na ilha de São Tomé, São Tomé e Príncipe, a 8 de Dezembro de 1961. Jornalista, poetisa e cronista. Foi durante longos anos jornalista e produtora dos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres. É licenciada em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King's College of London e possui o grau de Mestre em Estudos Africanos, com especialização em Governos e Políticas na África subsaariana, pela School of Oriental and African Studies, SOAS, Londres. Pela Editorial Caminho, de Lisboa, publicou O Útero da Casa (2004), A Dolorosa Raiz do Micondó (1ª edição 2006, 2ª edição 2008) e O País de Akendenguê (2011). Em 2015, em edição de autor, publicou Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico. Está traduzida para o alemão, árabe, checo, espanhol, francês, galego, inglês, italiano, servo-croata e turco.
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