Feiras e mercados
Será que chamamos «feira» aos dias úteis por causa das feiras? Será que foram os mercados que deram nomes aos dias?
É uma ideia comum, mas a história é bem mais complicada. A palavra «feira» (mercado) está relacionada com a palavra «feira» (dia da semana), mas é uma relação de irmãos – e não de pais e filhos. O melhor é contar a história desde o início.
O latim falado e usado pelos romanos tinha nomes parecidos com aqueles que vieram a ser adoptados por quase todas as línguas latinas. Só como exemplo, segunda-feira era dies lunae, ou seja, dia da Lua. Este dies lunae acabou como lunes em castelhano, lundi em francês – e poderíamos continuar. Já agora, em catalão, é dilluns, com o «di» antes da Lua.
Por que razão não temos uma luns no início da semana? A história está relacionada com a Igreja.
A palavra latina feria queria dizer «dia santo». A origem remota da palavra, em proto-indo-europeu, estava, aliás, relacionada com o divino. A palavra deu-nos «feriado» e «férias».
Pois bem, no latim usado na liturgia da Igreja, a palavra começou a ter um uso especial, registado desde o século iv: feria passou a designar um dia de missa normal, um «dia santo» normal, que não era domingo nem festa especial. Porquê? Podemos especular que todos os dias, no âmbito litúrgico, são santos. Seja qual for a razão, a palavra começou a significar mesmo um dia de missa normal na liturgia.
Ainda hoje, em todo o mundo, a liturgia católica em latim (que ainda existe, embora seja pouco usada) mantém o uso da palavra feria com este sentido. Repito que este uso existe desde, pelo menos, o século iv, muito antes da separação do latim em várias línguas neolatinas.¹⁴
Assim, a missa do segundo dia da semana era a missa da feria secunda, o segundo dia santo da semana. O uso de números inspirou-se, provavelmente, num uso semelhante para designar os dias da semana no hebraico.
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Se a Igreja usava estas designações para a liturgia diária, a população que falava latim e, depois, as línguas que dele descenderam continuou a usar os antigos nomes baseados nos planetas e nos deuses. Ora, no Noroeste da Península Ibérica, na zona onde a nossa língua se desenvolveu, a população começou a usar os nomes litúrgicos para falar dos dias da semana. Porquê?
Um santo vindo de leste
Em todo o Império Romano, todos usam as antigas formas, muito alteradas. Todos? Não, há um recanto de uma península onde o uso quotidiano imitou o uso litúrgico: a faixa mais ocidental da Ibéria.
Como é que isto aconteceu?
A figura que, tradicionalmente, associamos ao uso das feiras em português é São Martinho de Dume, um arcebispo de Braga do século vi, originário da Panónia, onde hoje encontramos a Hungria. Na Sé de Braga, São Martinho pugnou por eliminar usos pagãos, incluindo o nome dos dias da semana. É um facto: na zona ocidental da Península, os nomes dos dias da semana passaram a ser baseados no uso litúrgico.
Primeiro, no latim e, depois, nas línguas que lhe sucederam aqui mais para ocidente, o uso das feiras tornou-se predominante: feria secunda e, depois, «feira segunda» ou «segunda-feira». Nunca houve outro sistema de designações comum em português – e, no entanto, os nomes baseados no latim apareceram aqui e ali na nossa língua. Em galego, as férias também se usaram, mas acabaram por se tornar minoritárias, muito por pressão do castelhano.
A origem dos nomes dos dias na liturgia não levanta dúvidas.¹⁶ Já o papel de São Martinho de Dume é menos certo. Será que foi uma figura assim tão importante para que a população começasse a usar estes termos ou será que era uma tradição mais antiga que o arcebispo incentivou? Não temos a certeza. Sabemos que a origem das designações é o latim litúrgico, não sabemos exactamente por que razão a população do Ocidente da Península Ibérica foi a única a optar por estes termos para as designações quotidianas dos dias.
São Martinho de Dume é a figura referida quando falamos deste caso – e sabemos que tentou, de facto, eliminar costumes pagãos. É uma figura muito anterior a Portugal e muito anterior aos primeiros registos escritos da língua – mas, na oralidade, aquilo que viria a dar no português já estava ali a germinar nesse século vi em que o santo viveu.
Outras explicações
A esta história contrapõem-se, habitualmente, duas outras explicações: que o sistema vem do árabe ou que o nome dos dias está relacionado com os mercados realizados ao longo da semana.
É verdade que há mais línguas que usam números para designar os dias da semana. O hebraico, para começar (é a origem do uso litúrgico), mas também o árabe, o russo, entre muitas outras. No entanto, a conjugação entre os números ordinais e as feiras é um uso exclusivo das línguas desenvolvidas no Ocidente da Península – e a sua origem na liturgia está bem documentada. Os primeiros registos das feiras aparecem no Noroeste, precisamente na área com menos influência árabe.
Quanto aos mercados… A palavra feria, do latim, acabou por também dar origem à palavra «feira» com sentido de «mercado». Essa palavra, com esse sentido, é irmã da palavra «feira» dos dias da semana – mas não é a sua origem.
✗ Os nomes dos dias úteis têm origem nos mercados medievais. – falso
✓ Os nomes dos dias úteis têm origem no latim litúrgico. – verdadeiro
Notas
14. Catholic Encyclopedia. (1909). «Feria». Nova Iorque: Robert Appleton Company. Disponível em http://www.newadvent.org/
15. No latim clássico, não existiam as formas minúsculas das letras. Hoje, é possível usá-las para transcrever latim, mas optei por deixar as expressões na forma que seria mais reconhecível a um romano, por curiosidade.
16. Veja-se: Svobodová, I. (2011). «Abordagem histórica dos nomes dos dias da semana (análise sintáctico-semântica)». Universidade de Masaryk, Brno, República Checa. Disponível em https://is.muni.cz/el/phil/
Imagem de destaque: Wikimedia Commons
Marco Neves
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