Caros amigos,
- O Pedro Batalha está a preparar um Roteiro de Antero e Natália Correia. Encontrou-se comigo há meses e tivemos uma longa conversa. Escreveu-me a dar sinais do andamento do projeto (está a chegar ao fim e deve ficar pronto em dezembro), mas tinha uma dúvida para mim. Escreve ele:
Fiquei, entretanto, com uma inquietação na sequência da nossa conversa: sendo Antero agnóstico, como interpretar o facto de, no final da vida, ter escrito um soneto tão belo como «Na Mão de Deus»? Gostaria muito de conhecer a sua interpretação.
Respondi-lhe assim:
A questão que me levanta é pertinente. Antero era agnóstico, como diz, mas nunca deixou de se inquietar sobre o transcendente. Rios de tinta têm corrido sobre essa sua angústia existencial e essa insatisfação com o mundo material. Existe mesmo um clássico sobre o tema escrito por um dos filósofos portugueses do século XX que mais respeito – Joaquim de Carvalho, catedrático da U de Coimbra. Intitula-se A Evolução Espiritual de Antero. O livro é de 1929, todavia há edições posteriores, inclusive uma da Imprensa Nacional de 1983. Talvez fosse bom para si dar-lhe uma olhada.
A minha leitura não é diferente da de Joaquim de Carvalho. Antero nunca teve respostas definitivas para o sentido da vida, no entanto nunca deixou de as procurar. Foi um espírito inquieto, angustiado, insatisfeito até ao fim. Esse soneto “Na mão de Deus” tem dado azo a infindas especulações. Também com frequência é referido o facto de ele ter-se suicidado sentado num banco que tinha por cima uma âncora, símbolo de esperança.
Não há certezas sobre nada, mas isso só aviva o mistério sobre o que estaria na sua mente quando se suicidou. E, para muitos intérpretes, o seu suicídio não foi motivado pela sua angústia metafísica, mas pelas insuportáveis maleitas físicas que atormentavam o seu quotidiano .
Acha que ajudei?
Pode insistir à vontade.
E agora sou eu a perguntar aos fãs de Antero: alguém tem algo a adicionar a esta resposta? Qualquer achega ainda chegará a tempo.
- Nas Correntes d’Escritas, todos os anos cruzo-me com algum/a escritor/a jovem dos países africanos lusófonos. São convidados porque lançaram um promissor livro de poesia, conto, ou romance. Tenho encontrado gente muito talentosa, o que é animador.
Há dias, recebi um e-mail de um pedindo-me que lhe lesse o novo livro de contos antes de o submeter a uma editora e, se gostasse, escrevesse um endosso para a contracapa.
Respondi-lhe:
Dei uma rápida olhada e venho sugerir-lhe que, antes de enviar para uma editora, faça uma pequena alteração.
Pode dar uma má impressão inicial começar um livro com um conto que abre com a frase: Os céus trovejavam a olhos vistos.
Os relâmpagos é que se vêem. Os trovões ouvem-se.
Uma frase assim pode fazer um editor perder o interesse.
A resposta do escritor (por sinal muito bom):
Às vezes, estamos tão próximos do texto que certas coisas nos escapam.
E eu que o diga! Às vezes sai cada uma que é de bradar aos céus.
Onésimo Teotónio Almeida
últimos artigos de Onésimo Teotónio Almeida (ver todos)
- Nota bárbara: Antero e Na mão de Deus - 15 de Outubro, 2026
- Antologia do Humor Açoriano - 16 de Setembro, 2026
- Sessão com quatro autores da diáspora publicados na coleção “Comunidades Portuguesas” da Imprensa Nacional - 25 de Fevereiro, 2026
- Maria Alzira Seixo – um breve “In Memoriam” - 21 de Janeiro, 2026

