Por Catarina Rodrigues
Planear não nos assiste, mas «safar» é connosco. «Quando a porca torce o rabo», acontecimento recorrente na nossa História, este génio criativo luso entra em ebulição. Inventamos tudo.
«Dar de frosques», «pisgar-se», «pôr-se na alheta». Temos muitas e variadas maneiras de dizer que nos vamos «pirar» daqui. A verdade é que, quando a coisa aperta, fugimos com muita classe e em grande estilo. É uma especialidade tática muito portuguesa.
Antes de mais, creio ser minha obrigação dar-vos um pouco de contexto sobre este mui nobre povo, apelidado de lusitano por um dos seus poetas maiores, aquele sem um olho. Temos 883 anos. Somos um dos países mais antigos do mundo. Amáveis e trágicos. Somos de natureza generosa. Tiramos a camisa do corpo e tiramos a comida da nossa boca, desde que não nos chateiem muito. Apreciamos estar no nosso cantinho e somos avessos à mudança. Uma atividade em que somos exímios é a queixa, especialmente se estivermos num café, com uma bica ou cimbalino — de acordo com a localização — à nossa frente. Também serve se for um fino ou uma imperial. É a habitação, a gasolina e o duelo filosófico Ronaldo contra Jesus. Dizem que somos trabalhadores e nos adaptamo a tudo. Estamos habituados ao sacrifício e a poupar cada tostão. Gostamos de ajudar e de que elogiem os nossos pastéis de nata. Lá fora, todos gostam de nós. Nós é que amamos pouco os que estão cá dentro.
Deixo para último uma das características que mais aprecio na nossa portugalidade. Planear não nos assiste, mas «safar» é connosco. «Quando a porca torce o rabo», acontecimento recorrente na nossa História, este génio criativo luso entra em ebulição. Inventamos tudo. É o desenrascanço português, já mundialmente reconhecido. Uma das muitas formas encontradas para o desenrasque é o clássico truque do «ala que se faz tarde». Diria até que termos tantas expressões idiomáticas é revelador de como tornamos o pisganço numa arte.
Ora, analisemos os seguintes acontecimentos históricos:
Em 1807, a corte de D. João VI fugiu para o Brasil, com o proverbial «rabinho entre as pernas», mas mantendo a dignidade, até porque se tratava da realeza. Este truque é um clássico. Tivemos pelo na venta e recusámo-nos a obedecer a Napoleão quando exigiu que fechássemos os portos aos ingleses e declarássemos guerra à Grã-Bretanha. Onde já se viu deixarmos os nossos mais antigos aliados na mão? Tuga que é tuga jamais abandona um amigo.
Só que Napoleão não achou muita piada a este gesto ousado (dizem as más-línguas que não era flor que se cheirasse, o que, atendendo a ser francês, é bem capaz de ser verdade). Com as tropas do françiu quase à porta, a família real, os nobres, os funcionários que «sim senhora», umas quantas joias e muita papelada embarcaram rumo ao Rio de Janeiro. Não era assim muita gente, «só» cerca de 15 000 pessoas. Para quê chatearmo-nos quando pudemos mudar a capital do Império para outro continente? Foi assim que a família real deu à sola para o Brasil.
Já em 1578, El Rei Dom Sebastião tinha saído de fininho, deixando-nos entregues aos Filipes. Chamavam-lhe o «Desejado». A verdade é que prometia muito. O seu nascimento vinha carregado de expectativas, porque a malta estava desejosa de que viesse um herdeiro que assegurasse a continuidade da dinastia. Sem pressão. Parece que o miúdo tinha umas ideias megalómanas e queria alcançar a glória militar e dar cabo de uns quantos mulçumanos no Norte de África.
Podíamos esperar muito? Vamos lá ver: o que é que um puto de 14 anos sabe da vida ou de como governar um país? Cá para mim, queria brincar ao Call of Duty versão carne e osso ou, para ser mais precisa, carne para canhão.
A Batalha de Alcácer-Quibir dá-se em 1578. Quem lá esteve diz que não foi bonito de se ver os tugas a levar forte e feio. Eu não sou de meter a boca no trombone, mas a verdade é que o menino Sebastião se pôs na alheta e quem ficou por cá é que teve de lidar com os problemas. É como diz o outro, «quem fica cá que as aguente». E, meu dito meu feito, após diversas crises de sucessão, lá tivemos de levar com os espanhóis por sessenta anos, que é como quem diz «estávamos entregues aos bichos», salvo seja. Como três foi a conta que Deus fez, não tivemos de levar com um, mas com o triunvirato filipino.
Desde então, Portugal sofre de uma rara doença crónica, incurável por sinal, o Sebastianismo. Reza a lenda que ainda há quem espere que o infante regresse numa manhã de nevoeiro e salve esta pátria desgovernada (estamos contigo, Sebastião). Mas aqui que ninguém nos ouve, ou lê, é provável que, se o rei eterno visse o Portugal de agora, voltasse a fugir a sete pés.
Regressemos a Napoleão, curiosamente mais um espécime masculino de pequena estatura com ideias estratosféricas. Em 1810, dá-se a retirada francesa nas Linhas de Torres Vedras. «Se não os podes vencer, deixa-os morrer à fome», terão dito os tugas de serviço, que inverteram o jogo e deram uma masterclass histórica na arte de dar corda aos sapatos.
Perante a invasão de Massena, os grandes descendentes de Viriato abandonaram aldeias inteiras e retiraram-se atrás das linhas defensivas, deixando os militares franceses sem baguetes debaixo dos braços e com os cavalinhos à chuva. Isto é o que se chama bater em retirada com dignidade institucional. Allez!
Muitos são os exemplos patrióticos de compatriotas que se escafederam corajosamente, pelo que me espanta que usemos expressões como «sair à francesa» ou «sair à inglesa» para quem se quer escapar de um texto que não sabe como terminar. A verdade é que a mobilidade táctica portuguesa é património mundial. Proponho assim um abaixo-assinado pela mudança de expressões idiomáticas que não assinalam a grandeza nacional da fuga, remetendo-as para outras nacionalidades.
Afinal, tuga que é tuga sai à portuguesa e, de preferência, em jato privado.

