Macau, China, 16 set 2026 (Lusa) – Mais de dez universidades no interior da China suspenderam estudos de língua portuguesa nos últimos três anos, após um pico de cerca de 60 instituições com oferta curricular, indicou hoje à Lusa o Instituto Português do Oriente (IPOR).
“Existem 39 universidades da China com cursos de português, a que somamos mais cinco de Macau, ou seja, 44 no total”, referiu a direção do IPOR.
O pico da oferta formativa, continuou o IPOR, “foi no ano letivo 2022/2023, com cerca de 55 a 60 universidades a proporcionarem estudos em português”. “Não conseguimos ter dados exatos”, reforçou o instituto, que tem como missão preservar e difundir a língua e a cultura portuguesas no Oriente.
A Universidade de Sun Yat-sen, em Guangzhou, capital da província de Guangdong, vizinha de Macau, foi um dos estabelecimentos visados, notou à Lusa o académico da Universidade Politécnica de Macau (UPM) Manuel Duarte João Pires, que lecionou anteriormente naquela instituição do interior da China.
“Tinha um programa de ‘minor’, que era um programa de 2+2, ou seja, de dupla certificação, e agora não tem”, refletiu o académico, também autor do estudo “Vinte anos de ensino de Português na China: exponencial, saturado e o futuro”, publicado em agosto.
Na investigação, Pires traça o percurso do ensino da língua portuguesa na China, com o primeiro curso de licenciatura a ser estabelecido no Instituto de Radiodifusão de Pequim (hoje Universidade de Comunicação da China), “focado em formar profissionais para atender à demanda de relações diplomáticas com países de língua portuguesa, especialmente aqueles de África que então lutavam pela independência”.
Depois de uma suspensão e “envio de muitos professores e alunos para trabalhos rurais” durante a Revolução Cultural (1966-1976), houve “um renascimento do ensino de línguas estrangeiras”.
Nas últimas duas décadas, o ensino da língua portuguesa passou de uma presença residual para uma expansão acelerada.
Até 2005, aponta o autor, apenas três universidades ofereciam licenciaturas em português, mas a “globalização e modernização da China” e a intensificação das relações económicas com países de língua portuguesa, sobretudo Brasil e Angola, transformou o idioma numa ferramenta de empregabilidade.
Dezenas de instituições abriram cursos, num crescimento descrito como exponencial: de acordo com fontes consultadas pelo autor, no ano letivo 2012/2013 eram 19 universidades; em 2017 chegavam a 37 e em 2022 contabilizavam-se 56, com mais de seis mil alunos e mais de 300 professores.
Nos últimos anos, porém, esse crescimento entrou em fase de estagnação, com a suspensão de cursos e universidades a redimensionarem a oferta.
“Depois veio a pandemia, agora a questão da inteligência artificial [IA], também os cursos de STEM [sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática], muito procurados pelas famílias, pelo meio académico”, indica Pires.
A articulação com a sociedade civil, particularmente com empresas e instituições que operam no espaço de língua portuguesa, é essencial para a revitalização do português na China, defende. “Vejo isso muito parado, não sei se por questões políticas, mas a sociedade civil entrar na universidade é algo muito difícil”, refere à Lusa.
Estágios profissionais integrados nos planos de estudo, projetos desenvolvidos em colaboração com empresas e a participação regular de profissionais ativos nas universidades podem ajudar a reduzir o fosso entre a formação académica e as exigências do mundo profissional, propõe-se na investigação.
O autor sugere ainda a “diversificação dos enfoques de ensino a favor de abordagens especializadas adaptadas às necessidades específicas de diferentes setores profissionais”.
No contexto chinês, completa, esta adaptação pode assumir “formas concretas como a criação de programas interdisciplinares onde o português fosse ensinado como ferramenta de trabalho”, em áreas como engenharia civil, para projetos em Angola ou Moçambique, saúde pública, para cooperação com o Brasil, ou comércio eletrónico, para plataformas digitais como a Ali Express nos mercados de língua portuguesa.
Uma maior colaboração com as tecnologias digitais e a valorização cultural e humanística do português – não deve ser visto apenas como ferramenta profissional, “mas uma janela para compreender as sociedades e culturas” lusófonas – são outras sugestões.
À Lusa, o investigador salienta que este processo de estagnação, face ao crescimento da IA, não é exclusivo do português, mas alcança o ensino de línguas em geral.
“Desde o início que se associa à língua ao seu poder económico. Ou seja, isso é indissociável”, ressalva, sublinhando que “a médio prazo” o lugar do português vai depender sempre das relações económicas e políticas com os países da esfera da lusofonia.
“Já chegou também a um patamar de 56 universidades, não haverá muito mais para crescer a nível de ensino superior”, complementa, notando que “o crescimento exponencial não é sempre infinito” e este talvez seja um “processo natural”.
Pires admite que a situação é diferente em Macau, onde o português
é uma das línguas oficiais”: “É mais difícil as coisas mudarem como muda no interior da China, onde há uma perspetiva mais pragmática, mais económica em relação aos cursos”.
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