Maputo, 30 set 2026 (Lusa) – O escritor moçambicano Nelson Saúte lançou hoje, em Maputo, a obra “Se Me Quiseres Conhecer: Noémia de Sousa, Biografia Literária”, um livro que retrata o percurso literário, cívico e político de uma das figuras mais influentes da literatura moçambicana.
“Noémia de Sousa é a mãe dos poetas moçambicanos”, afirmou o escritor, durante a apresentação da obra, na capital do país.
Durante a apresentação da obra, realizada no ano em que se assinala o centenário do nascimento de Noémia de Sousa, Nelson Saúte defendeu que a poeta foi responsável por introduzir uma nova linguagem poética em Moçambique e por abrir caminho às gerações seguintes de escritores.
Segundo o autor, a escritora, nascida no distrito de Catembe, em 1926, rompeu com os modelos literários predominantes na época ao introduzir novas imagens, metáforas e temas ligados à condição dos africanos sob domínio colonial: “Ela estabelece o cânone da literatura moçambicana”.
Saúte explicou que a obra procura reconstituir não apenas o percurso literário da poeta, mas também a sua participação em movimentos de afirmação cultural e política durante os anos 1940 e 1950.
“Esta biografia literária é a história literária, mas também política, da Noémia de Sousa”, afirmou.
De acordo com o escritor, a autora publicou os seus poemas mais marcantes entre 1948 e 1951, sobretudo nas páginas do Brado Africano, tornando-se uma voz de denúncia das injustiças sociais e do colonialismo.
“Ela é a voz do grito, é a voz da revolta”, disse.
O livro retrata igualmente as ligações de Noémia de Sousa a figuras como José Craveirinha, Ricardo Rangel, Marcelino dos Santos, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, num período que antecedeu o surgimento dos movimentos de libertação africanos.
Segundo Saúte, a perseguição da polícia política portuguesa levou a escritora a deixar Moçambique em 1951, fixando-se posteriormente em Portugal e envolvendo-se em círculos intelectuais africanos ligados às lutas anticoloniais: “Ela é também, por isso, uma das pioneiras do ativismo político”.
O autor defendeu ainda que a publicação da obra representa um exercício de preservação da memória histórica e cultural do país.
“A grande reflexão desta obra é o dever de memória”, declarou, acrescentando que a história de Moçambique não pode ser compreendida sem o contributo de figuras que ajudaram a afirmar uma identidade cultural e nacional muito antes da independência.
Ao abordar o legado literário da poeta, Saúte considerou que a principal inovação de Noémia de Sousa foi a criação de uma linguagem própria para retratar a realidade moçambicana.
“Ela traz novas imagens, uma nova dicção, um novo ritmo”, afirmou, acrescentando que a sua influência pode ser observada em vários dos poetas que lhe sucederam.
Pioneira da poesia no seu país e a primeira mulher negra a publicar em Moçambique, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (1926-2002), mais conhecida como Noémia de Sousa, deixou a sua marca na cultura e no jornalismo em língua portuguesa.
Criada no histórico bairro da Mafalala, em Maputo, foi aí que Noémia de Sousa escreveu os seus poemas que exaltam os valores africanos e de denúncia da opressão, como o célebre poema “Deixa passar o meu povo”.
Perseguida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) pelo seu ativismo e pela ligação aos movimentos de libertação, Noémia de Sousa assinava com o pseudónimo literário Vera Micaia para contornar a censura do Estado Novo. Quando começou a escrever os seus poemas, utilizava também as iniciais N. S., embora por motivos pessoais.
A sua escrita concentrou-se num período muito curto, entre 1948 e 1951, mas a sua obra dispersa acabou por influenciar decisivamente as futuras gerações intelectuais do seu país. A perseguição política forçou-a ao exílio em Portugal, em 1951, e mais tarde a uma fuga “a salto” para Paris, França, em 1964.
Noémia de Sousa morreu em Lisboa, em 2002, aos 75 anos.
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