A delegação permanente de Angola na Unesco celebrou hoje em Paris os 350 anos da morte da rainha Ginga Mbandi Ngola (1581-1663), que lutou contra a ocupação dos portugueses do território africano confinado pelo seu reino.

A rainha representa a resistência à ocupação do território africano pelos portugueses, sendo considerada a primeira diplomata angolana. Aprendeu a falar português, negociou um tratado com a corte portuguesa e converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado, adotando o nome português de Dona Ana de Sousa.

“Já naquele tempo ela teve essa capacidade, a inteligência de poder, no momento próprio, flexibilizar, porque era guerreira, mas também flexibilizou muito para poder obter o resultado que era manter a integridade territorial dos territórios governados e fazer valer a dignidade do povo da região”, explicou à Lusa o embaixador da delegação permanente de Angola junto da Unesco, Diekumpuna Sita N’Sadisi José.

Foto extraida de Cenpah

O secretário de Estado da Cultura angolano, Cornélio Caley, considera a rainha a figura de uma “resistência de 40 anos” à ocupação portuguesa.

“Aquela que formou o seu exército a partir dos desfavorecidos, criou um lendário na memória dos descendentes e dos escravos do outro lado do Atlântico [Brasil] tornou-se numa figura de índole universal, tornou-se numa figura que se projetou para lá do seu tempo. E é por isso que a evocamos como a precursora da fraternidade, da solidariedade e do humanismo”, acrescentou o secretário de Estado angolano.

O embaixador angolano disse que “o trabalho na Unesco de pesquisa histórica já alcançou cerca de 20 figuras africanas, que estão a ser objeto de tratamento e a seu tempo esse trabalho vai alargar e o essencial é que possamos alcançar informações sobre o que essas figuras deram como contribuição à história da África, à história da Humanidade”.

N’Sadisi José referiu que o estudo da rainha angolana foi facilitado pelo facto de esta ter deixado documentos escritos que ajudaram a comprovar as fontes ouvidas na região.

“Estamos a falar do século XVII. Felizmente ela escreveu, era culta e nós podemos ainda encontrar vestígios, relíquias e símbolos que ela deixou. Em África, geralmente, o que domina é a oralidade, de modo que é um trabalho não muito fácil para recolher os factos que ocorreram naquela altura. São testemunhos de gerações”.

“Muitas universidades pelo mundo estudam a figura da Rainha Ginga e naturalmente esse trabalho não é o fim”, concluiu.

Cornélio Caley sublinhou que a rainha Ginga Mbandi Ngola é a base da “angolanidade”, da “identidade nacional” angolana e da “entrada de Angola, dos africanos, na universalidade”.

Durante a cerimónia foi lançada uma plataforma pedagógica na internet sobre a rainha angolana. A ferramenta eletrónica sobre Ginga e outras personagens africanas que contribuíram para a História servirá como material didático a ser utilizado por todos.

A plataforma da Unesco “Mulheres na História Africana” tem como objetivo destacar o legado de mulheres africanas na história do continente.

Além da rainha Ginga, a plataforma destaca, entre outras mulheres, Luiza Mahin, nascida no início do século XIX, lutadora pela liberdade afro-brasileira, e a cantora cabo-verdiana Cesária Évora (1941-2011).

TYG // HB – Lusa/fim

Foto extraida de Esquina do Tempo

 

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