Toronto, Ontário, 17 mai 2026 (Lusa) – A falta de professores qualificados e as dificuldades em manter jovens lusodescendentes no ensino comunitário do português estiveram no centro do VIII Simpósio Ensino de Português no Canadá, que reuniu docentes, investigadores e responsáveis educativos em Cambridge, em Ontário.
“Uma das coisas que vemos é que há falta de professores de português no Canadá e, portanto, o que acontece é que muitas vezes há pessoas que não têm a formação de professores, mas que falam português, que acabam por dar as aulas de português”, afirmou à Lusa a presidente da Canadian Association of Teachers of Portuguese (CATPor), Joana Pimentel, professora adjunta da Universidade de Otava.
Segundo a responsável, o simpósio procura precisamente responder a essa realidade, oferecendo ferramentas pedagógicas e formação complementar a docentes que ensinam português em contexto comunitário.
“O simpósio da CATPor tenta oferecer precisamente uma resposta para esse tipo de professores, ou seja, oportunidades de formação para aqueles que se sintam mais confiantes e que vão preparados com mais ferramentas para usarem”, explicou.
A edição deste ano teve como tema principal a oralidade e as dificuldades de muitos alunos lusodescendentes em falar português, apesar de compreenderem a língua em ambiente familiar.
“Muitas vezes os nossos estudantes têm dificuldade em falar português, mesmo que compreendam porque ouvem o português em casa”, afirmou Joana Pimentel.
A dirigente associativa considerou igualmente que a motivação dos alunos continua a ser um desafio para as escolas comunitárias, sobretudo devido à concorrência de outras atividades extracurriculares realizadas aos fins de semana.
“Muitos alunos já têm uma agenda preenchida e depois ainda têm que ir para a escola portuguesa ao sábado e, claro, que é difícil mantê-los”, admitiu, defendendo a necessidade de utilizar recursos mais atuais e próximos da realidade dos jovens.
A coordenadora do Ensino Português no Canadá do Instituto Camões, Maria do Rosário Gaspar, afirmou à Lusa que a formação contínua de docentes continua a ser “essencial” para garantir a qualidade do ensino da língua portuguesa na diáspora.
“O Camões participa, colabora e patrocina exatamente com a vinda de um formador para estes simpósios, portanto a CATPor organiza todos os anos um simpósio e o Camões traz uma formadora que ajuda ou tenta ajudar a minimizar exatamente essa questão da falta de formação dos professores e da falta de professores formados em língua portuguesa”, afirmou.
Segundo Maria do Rosário Gaspar, muitos dos docentes envolvidos no ensino comunitário possuem experiência prática, mas não tiveram acesso a formação específica em pedagogia do português como língua de herança.
A responsável alertou ainda para as dificuldades financeiras enfrentadas pela associação na tentativa de expandir iniciativas semelhantes a outras cidades canadianas com forte presença portuguesa.
“Era bom que houvesse, se calhar, dentro da comunidade portuguesa, pessoas que tenham algum poder económico e que pudessem de alguma forma ajudar a que a associação tivesse hipótese, por exemplo, de fazer um simpósio em Vancouver”, afirmou.
A professora da Universidade do Minho Micaela Ramon, convidada para orientar a oficina de formação deste ano, destacou o papel da diáspora na preservação da língua portuguesa junto das novas gerações nascidas fora de Portugal.
“O português é uma língua global, internacional, pluricêntrica e, claro que, para esta sua disseminação geográfica, as diásporas têm uma participação muito importante”, afirmou Micaela Ramon, defendendo que o ensino do português permite aos jovens manter ligação às origens e integrar uma comunidade linguística presente em vários continentes.
Atualmente, estão inscritos no Canadá 3.890 alunos em programas de ensino de português, distribuídos por dez escolas da direção escolar católica com ensino integrado durante o dia e 16 escolas comunitárias ao fim de semana, localizadas em Toronto, Mississauga, Kitchener, Cambridge, Vancouver, Victoria, Edmonton, Calgary, Montreal e Laval, estando ainda prevista a abertura de uma nova escola comunitária em Chatham.
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