28 February 2021
“Penso que consegui dar a conhecer, no meio de tudo isto, a paisagem e o ambiente físico e humano da Guiné-Bissau, e fiz questão de arranjar forma de prestar uma sincera homenagem à Língua Portuguesa".

Obra inspirada em “Alice no País das Maravilhas” retrata memórias de portuguesa em Bissau

A obra “Alice no País das Maravilhas” foi a inspiração para uma portuguesa escrever o livro “Rosa no País das Flores da Luta”, uma narrativa ficcionada sobre o período em que viveu na Guiné-Bissau, disse hoje a autora.

“Queria escrever um livro que contasse verdades, que mostrasse a minha visão daquele lugar e tempo, preferivelmente de uma forma que entretivesse os leitores, sem ser piegas, vulgar ou cruel. Verifiquei, então, que teria de tentar uma forma ficcionada”, disse à Lusa a escritora Maria do Céu Mascarenhas.

A autora disse que o período em que residiu na Guiné-Bissau – esteve no país como professora cooperante no Liceu de Bissau entre 1977 e 1978 – foi muito enriquecedor, transformador e passou “a ver o mundo com outros olhos”.

A portuguesa teve a ideia de escrever o livro em 1998, quando ainda morava na Alemanha, num período em que várias pessoas famosas começavam a escrever livros com o intuito de reverter os lucros para instituições de solidariedade social.

O livro será uma forma de ajudar o país que a acolheu de uma forma carinhosa, e também porque ficou impressionada com a extrema pobreza em que vivia a maior parte da população guineense, pelo que os lucros dos direitos de autor reverterão para a pediatria do Hospital de Bissau.

“Foi ao iniciar a escrita do primeiro parágrafo que pensei que ali (Guiné-Bissau) tudo me era estranho e eu mesma me sentira outra pessoa. Foi então que me ocorreu a história da Alice no País das Maravilhas e decidi-me a estruturar o meu livro dessa forma”, referiu a autora, acrescentando que escreveu o livro sempre à noite, em muitos serões na Alemanha, onde foi professora em universidades (Colónia e Saarbrücken) durante 10 anos.

No livro, a escritora é a personagem principal Rosa, uma versão de Alice, da obra de Lewis Carroll, e muitos dos outros personagens foram baseados em amigos da autora, tendo como inspiração a obra do autor britânico.

De acordo com a professora, “a história é contada por um narrador omnisciente que nos diz como Rosa na viagem de regresso a Portugal”, devido a uma indisposição e aos comprimidos que tomara contra o enjoo aéreo, “passa grande parte do tempo a dormir”.

“Os sonhos de Rosa são povoados por recordações da sua vida na Guiné-Bissau, recuperam memórias várias, especialmente da sua infância, que é a minha e decorreu no tempo do Estado Novo”, sublinhou.

“Lembram episódios relacionados com a guerra colonial e a história portuguesa – tudo isto misturado com materiais fantasiados e distorcidos, ao jeito surrealista, como acontece nos estados oníricos, nomeadamente nos meus, pois costumo ter sonhos que parecem realidade, e sonho quase sempre a cores”, declarou.

Segundo a autora, “por vezes, Rosa vem acordada e tem reflexões sobre vários temas, que são verdadeiros convites a que também o leitor sobre eles reflita”.

“Penso que consegui dar a conhecer, no meio de tudo isto, a paisagem e o ambiente físico e humano da Guiné-Bissau, e fiz questão de arranjar forma de prestar uma sincera homenagem à Língua Portuguesa, e de passar uma mensagem de paz e fraternidade entre todos os homens, independentemente dos seus credos ou tons de pele”, disse.

A professora, licenciada em Estudos Anglo-Americanos e Filologia Germânica, sente que as carências que o país enfrenta “impedem que muitas crianças recebam os cuidados necessários para que cresçam fortes e sadias”.

Assim, os lucros dos direitos de autor serão revertidos para o departamento de pediatria do Hospital Simão Mendes, no qual a autora recebeu cuidados de saúde e pôde verificar a carência de todos os tipos de recursos na instituição.

O livro, de 129 páginas e com fotos da autora, é editado pela Chiado Editora.

A obra, já lançada em janeiro, será apresentada em Lisboa, nos dias 18 e 27 de abril, na livraria Bertrand do Chiado e na Booklt Ferreira Borges, respetivamente, e no dia 28 de abril na FNAC do Cascais Shopping.

Maria do Céu Mascarenhas colabora com publicações nacionais e estrangeiras e tem publicados dois pequenos livros de viagens e um livro de versos infanto-juvenil.

 

CSR // MLL – Lusa/fim

Foto: Hospital Simão Mendes, Guiné-Bissau. 15/12/2012. EPA/ANDRE KOSTERS

Também poderá gostar

Sem comentários