Lisboa, 30 mai 2026 (Lusa) – O linguista e professor universitário Marco Neves afasta uma mudança do nome da língua portuguesa e considera que a proposta de designação “língua geral”, do escritor José Eduardo Agualusa, não passa de “uma provocação literária”.
Em entrevista à Lusa, o professor e tradutor, que esteve com o escritor angolano no Festival Remexe Rio, no passado fim de semana, esclarece que o tema é debatido atualmente no Brasil, mas que não existem ecos dessa reflexão para além do país.
“Académica e politicamente não há nenhum debate sobre o nome da língua em geral. Eu digo aqui, em geral, sem ligação ao termo que José Eduardo Agualusa propôs, o nome da língua é pacífico com uma exceção e aí é que está de facto o debate que existe atualmente no Brasil”, defende.
No festival realizado no Rio de Janeiro, José Eduardo Agualusa afirmou que a expressão “língua portuguesa” já não traduz a realidade plural e descolonizada do idioma, que deveria passar a ser denominado “Língua Geral”, expressão de “um território de encontros e de afetos”.
Na altura, em entrevista ao Globo, elaborou: “Esta língua que todos os dias reinventamos, nós, angolanos, brasileiros, portugueses etc., foi-se construindo e sofisticando, ao longo dos séculos, através do namoro com muitos outros idiomas: o árabe, o kimbundo, o guarani, o kikongo, o umbundo, o macua e tantos outros”.
Para Marco Neves, “a maior preocupação não é tanto a questão do nome, mas sim a questão da unidade da língua” e lembra que “há uma discussão no Brasil neste momento mais viva do que era habitual sobre se o português no Brasil deve passar a ser chamado brasileiro”.
Marco Neves fala de “uma espécie de grito de Ipiranga linguístico”, mas longe de representar qualquer “tendência ou movimento” com expressão suficiente para uma mudança efetiva do nome.
“Julgo que não vai acontecer, que a língua vai continuar a ter o nome português em todos os países onde é falada e que vai continuar a ter esta unidade simbólica do nome, muito por causa de África”, antevê.
Angola é o exemplo mais cabal neste contexto, onde “o português está a crescer a uma grande velocidade”, como língua cada vez mais falada e assumida como a “língua materna” de muitos angolanos, esclarece.
“Neste momento já é provavelmente a língua materna de mais de metade dos angolanos e isto vai levar a que não haja interesse, digo eu. Os brasileiros terão claramente as suas opiniões, mas não parece que haja interesse no futuro em que o Brasil declare a língua brasileira e vai continuar a ter a língua portuguesa, que está na Constituição”, afirma.
Sobre a proposta deixada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa (que estará hoje e domingo na Feira do Livro em Lisboa), diz tratar-se de uma” provocação” mais literária do que académica ou linguística.
“Parece-me que aquilo foi, digamos, uma provocação, que muitos escritores fazem para levar à discussão, porque aquilo que percebi, ao debater com José Eduardo Agualusa, é que ele está preocupado com esta questão da unidade, portanto ele não quer que a língua se separe em várias línguas e eu nesse aspeto concordo, eu também não quero. Tenho a certeza que não vai mudar, portanto, é mesmo só uma questão mais literária do que propriamente real, académica, linguística”, acrescenta.
Por outro lado, o professor universitário entende que o crescimento das redes sociais e a imigração brasileira em Portugal fazem surgir novas tensões, mas também um maior interesse sobre a língua que partilhamos.
“Há muitas décadas, há muito tempo que não havia no Brasil tanta atenção aos outros países que falam português como há agora, muito pelas redes sociais, contactos mais horizontais entre falantes de português nos vários países”, destaca.
Socorrendo-se da própria experiência como professor e divulgador da língua portuguesa, Marco Neves constata mudanças de comportamento: “recebo muitas mensagens de brasileiros a fazer perguntas sobre o português e isto não me parece que fosse muito habitual há algumas décadas”.
“Estamos numa altura em que nós estamos de facto a começar a comunicar uns com os outros e isto leva a algumas tensões, algumas discussões que não existiam, porque não falávamos uns com os outros simplesmente, e por isso é que depois a impressão que nós temos é que estamos todos muito zangados uns com os outros quando, na verdade, o que acontece é que estamos a conversar mais uns com os outros”.
Para Marco Neves, é preciso lembrar que o português tem dois padrões, “ou seja, o português padrão do Brasil não é exatamente igual ao português padrão de Portugal (…). Isto leva a algumas questões, algumas diferenças, que é preciso assumir e conhecer, mas não deveria ser nada dramático”.
“Temos de saber viver com esta língua que, na verdade, tem algumas diferenças de um lado e do outro, mas eu digo muitas vezes, escrever bem em português do Brasil e escrever bem em português de Portugal é escrever bem”, remata.
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