Lisboa, 30 jul 2026 (Lusa) – O autor do livro “Se a Terra pudesse falar – Memórias de um Tempo”, Luís Costa, confessa-se desiludido com a situação atual de Timor-Leste e defende que os “políticos devem sair do pedestal” e “fazer mais pelo povo”.
As declarações do professor timorense, de 80 anos, à agência Lusa surgem a propósito da obra em que relata a vida da população timorense entre 1975 e 1983 e que é lançada esta sexta-feira em Lisboa na sede da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
O autor explicou à Lusa que o livro resulta apenas da experiência vivida durante os anos em que permaneceu na região Centro-Leste de Timor-Leste e, posteriormente, em Díli, recusando relatar acontecimentos de outras zonas que não testemunhou diretamente.
“É para a memória, para o futuro e, sobretudo, para as pessoas conhecerem a realidade que eu vivi e aquelas pessoas com quem convivi”, afirmou.
Segundo Luís Costa, um dos objetivos da obra é revelar aspetos pouco conhecidos do quotidiano da população civil durante a ocupação da Indonésia, incluindo situações de privação e de violência.
O autor sustenta que muitas famílias eram obrigadas a assegurar alimento aos combatentes, mesmo quando isso significava deixar os próprios filhos sem comer. “As pessoas não conhecem isso, que as famílias muitas vezes passaram fome, ou deixaram os filhos passarem fome porque têm de arranjar qualquer coisa para dar aos guerrilheiros”, disse.
O professor acrescentou que neste período a população temia “represálias” ou ” perseguições”, porque a Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (FRETILIN) e outros grupos consideravam que quem não colaborasse era “traidor”, enfatizou.” O livro procura repor essa verdade”,afirmou.
Luís Costa relata igualmente a detenção de que foi alvo pela FRETILIN, por suspeitas de cumplicidade com outro dirigente da organização, situação que diz ter sido ultrapassada depois de passar a colaborar com responsáveis da resistência.
Destaca, em particular, o papel de Nicolau Lobato (ex-Presidente entre 77 e 78 e membro da FRETILIN) e de Vicente Reis (membro da FRETILIN morto em 79 numa emboscada nas montanhas), que considera terem procurado proteger a população e evitar perseguições injustificadas durante aquele período. “Todo aquele que falha ou erra tem a possibilidade de se reabilitar (…), nunca castigar em vão”, afirmou.
Questionado sobre figuras históricas da independência timorense, como Xanana Gusmão ou José Ramos-Horta, e sobre o seu contributo na construção dum país independente, Luís Costa recusou classificá-las como “heróis” sem reservas.
“Heróis, entre aspas, para mim, porque eles não estão a cumprir aquilo que deviam cumprir, fazer bem à população”, afirmou. O autor considerou que os atuais responsáveis políticos devem “fazer mais pelo povo” e “sair um pouco do seu pedestal”.
Ao estabelecer uma ponte entre o passado e o presente, Luís Costa lamentou que, mais de duas décadas após a independência, a situação da população continue distante das promessas feitas pelos dirigentes.
“Os políticos têm tudo e mais alguma coisa, têm privilégios (…), mas o povo continua na miséria. Os políticos, os grandes, estão doentes, vão tratar-se em Singapura, na Malásia ou na Indonésia; o povo vai para o hospital e não tem medicamentos, não tem as ferramentas necessárias para serem atendidos”, afirmou.
O autor defendeu que os responsáveis políticos devem colocar o bem-estar dos cidadãos acima dos interesses do poder.
“Porque é que eles não fazem mais para que o povo se sinta realizado?”, questiona, afirmando em seguida que a prática demonstra que “governam para ter poder”.
A obra aborda também o trabalho desenvolvido pelo professor e investigador na tradução do Missal Romano para tétum, iniciativa aprovada pelo Vaticano em 1980, numa altura em que a administração indonésia pretendia impor o uso da língua indonésia na liturgia católica.
Luís Costa afirma que esse trabalho contribuiu para que fosse perseguido pelas autoridades indonésias, levando-o a abandonar Timor em 1983.
Em Portugal desde essa data, Luís Costa tem sido uma figura fundamental na preservação da língua tétum e na formação de jovens timorenses, tanto em Timor como em Portugal, para onde se mudou em 1983.
Para o professor, investigador e autor, preservar a memória é essencial para compreender a história do país e transmitir esse conhecimento às gerações futuras. “Sem memória, nós estamos inúteis. Não temos nada para viver e transmitir às gerações futuras”, concluiu.
O livro “Se a Terra pudesse falar – Memórias de um Tempo”, é apresentado no auditório da UCCLA esta sexta-feira pelo professor universitário Lúcio Sousa, com a presença do autor, para quem ” a história não se escreve só com factos, mas também com sentimentos, lugares e pessoas”.
Sinopse:
(O tempo timorense)
Escrevo com intenção de perpetuar a glória de um povo que soube organizar-se para resistir, sob todas as formas, à agressão indonésia e manter, nas montanhas, uma guerrilha que, de armas na mão, procurou manter viva a chama do direito à autodeterminação.
Escrevo com intenção de refletir sobre os atos realizados, a fim de não sacrificar mais este martirizado povo e com vontade de contribuir para a felicidade do povo de Timor-Leste.
Escrevo com intenção de ajudar a comunidade timorense, na diáspora, a desenvolver e manter viva a sua identidade cultural e histórica. Escrevo para divulgar a situação em Timor, e a sua cultura, alertando a opinião pública para o drama do povo e para os crimes de genocídio físico e cultural que a Indonésia está a perpetrar no território de Timor. Escrevo para afirmar que o sofrimento e a morte nunca hão de destruir a vontade do povo que quer consolidar a sua identidade. Escrevo para afirmar que nenhum sistema, político e social, poderá fazer desaparecer Timor, como Nação.
Rendo homenagem à Fretilin que, durante os anos mais difíceis da sua luta, soube politizar o povo para que não se deixasse subjugar e soubesse organizar os gloriosos guerrilheiros para resistir à agressão indonésia.
Reconheço os erros dos membros da Fretilin. Reconheço os abusos praticados por alguns responsáveis, menos conscientes, e por elementos das Falintil que, no ambiente de euforia, esquecerem-se das suas responsabilidades. Mas a eficácia das ações realizadas pela Fretilin ultrapassou, de longe, os reveses de momento.
Em poucos meses de existência como partido que lutou por um ideal e como partido que governou o território, a Fretilin soube incutir o espírito crítico na mente de todos; a Fretilin e só a Fretilin é que criou condições para a vitória final – a libertação.
Presto louvor à Igreja Católica de Timor-Leste que mantém a sua vontade de lutar pela liberdade de um povo e não se cansa nem se intimida, apesar das ameaças, em proclamar que Timor é para os timorenses.
Este manuscrito tem muitas falhas referentes a nomes de pessoas com quem trabalhei, convivi e sofri nas montanhas, referentes a lugares por onde passei e por onde passámos. Pois, os primeiros apontamentos foram queimados em Kasohan em 1979, o segundo foi desfeito por mim em Díli antes de sair para Jakarta, e este é o resultado duma terceira tentativa que pode ser traída pela memória. A todos com quem convivi e partilhei alegrias e tristezas peço compreensão, mas fica para sempre a amizade e carinho de quem muito vos estima e de vocês guarda recordações inesquecíveis.
Biografia:
Luís Costa nasceu a 13 de dezembro de 1945, em Fatu-Berliu, Timor. Iniciou os estudos no Colégio de Soibada e prosseguiu o ensino secundário em Dare. Mais tarde, frequentou cursos de Filosofia e Humanidades em Macau e Évora, concluindo Teologia em Leiria.
Em novembro de 1974 regressou a Timor, onde trabalhou na missão de Ossú. Com a invasão de 1975, refugiou-se nas montanhas, permanecendo ali até abril de 1979. Após o regresso a Díli, ensinou no Externato de São José e, em 1980, traduziu para tétum o Missal Romano, incluindo orações e leituras.
Em novembro de 1983 mudou-se para Portugal, onde participou ativamente na divulgação da resistência timorense. Frequentou cursos de fonética e morfologia, e dedicou-se à pesquisa e ensino da língua e cultura de Timor-Leste.
Professor, investigador e autor, Luís Costa tem sido uma figura fundamental na preservação da língua tétum e na formação de jovens timorenses, tanto em Timor como em Portugal. Como atividades paralelas, Luís Costa ajuda na preparação de professores e cooperantes para melhor compreender a história, cultura e sociedade de Timor-Leste, e dá apoio a estudantes timorenses na elaboração de monografias e pesquisas universitárias.
Bibliografia: Dicionário Tétum-Português (2000); Guia de Conversação Português-Tétum (2001); Língua Tétum: Contributos para uma Gramática (2015); Ué-Lenas: Lenda (2016); e, em preparação, Dicionário Português-Tétum e Timor Lorosa’e (monografia).
Fonte: UCCLA


