Lisboa, 29 maio 2026 (Lusa) – Convidado da primeira edição da Semana do Brasil em Portugal, o escritor angolano José Eduardo Agualusa traz para Lisboa o rasto das suas palavras recentes ao defender que a língua portuguesa deveria ser substituída por “língua geral”.
Na próxima segunda-feira, dia 01 de junho, o escritor participa no encontro literário “Dois Atlânticos”, na Embaixada do Brasil em Lisboa, ao lado do académico e membro da Academia Brasileira de Letras José Roberto de Castro Neves.
Para Silvia Fingerut, coordenadora de projetos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), parceira da organização do evento, a sugestão deixada sábado pelo escritor, no Rio de Janeiro, encontra eco em muitas vozes, e “merece a dedicação dos especialistas”, mas “dificilmente irá vingar”.
“Eu acho que é um debate, sim, que merece a dedicação dos especialistas. Eu tive a oportunidade de trabalhar no Museu da Língua Portuguesa [em São Paulo] e lá a gente vê que existem inúmeras línguas portuguesas. Cada um de nós tem a sua língua, tem as suas expressões. Então, chamá-la de língua geral, novamente, me parece interessante debater, mas acho que dificilmente isso deverá vingar, já que cada um terá a sua língua portuguesa falada, expressando a nossa identidade”, afirmou à Lusa.
Numa passagem pelo Rio de Janeiro (cidade brasileira onde morou há mais de duas décadas), onde participou, sábado passado, no festival “Remexe Rio”, José Eduardo Agualusa propôs uma mudança radical na forma como se designa o nosso idioma. Para o autor, a expressão “língua portuguesa” já não traduz a realidade plural e descolonizada do idioma, que deveria passar a ser denominado “Língua Geral”.
Na altura, em entrevista ao Globo, elaborou: “Esta língua que todos os dias reinventamos, nós, angolanos, brasileiros, portugueses etc., foi-se construindo e sofisticando, ao longo dos séculos, através do namoro com muitos outros idiomas: o árabe, o kimbundo, o guarani, o kikongo, o umbundo, o macua e tantos outros”.
“Esta é verdadeiramente a nossa ‘Língua Geral’. Aliás, talvez seja uma boa altura para pensar numa designação que reflita o que a língua é hoje, não mais uma língua portuguesa, não mais um idioma colonial, de opressão, de exploração, de domínio, mas um território de encontros e de afetos, uma ‘Língua Geral'”, disse então.
Silvia Fingerut recorda que a designação “língua geral” tem um contexto histórico no Brasil, onde o escritor proferiu estas declarações.
“A língua geral é uma expressão que vem do século XVII lá no Brasil, quando se definiu língua geral para se comunicar com os indígenas das inúmeras etnias lá no Brasil, e se tratou de chamar língua geral. Eu acredito que é um debate muito interessante, mas eu entendo que a língua é um elemento, talvez um dos mais fortes de identidade. Então, eu quero crer que não é um debate que vai se resolver em uma ou duas ocasiões, mas que isso deverá durar”, declarou.
Questionada sobre a possibilidade de vir a afirmar um dia que o seu idioma é a “língua geral”, em vez da língua portuguesa, Sílvia Ferguti respondeu sem hesitações: “Não, não, não. Nessa altura da vida, eu continuo falando português. Português com sotaque brasileiro, mas sempre português”.
A programação cultural da Semana do Brasil inclui, para além do encontro literário “Dois Atlânticos” (dia 01), dedicado ao diálogo entre Brasil, Portugal e os países de língua oficial portuguesa, a iniciativa “Rotas Visuais – Entre o Brasil e Portugal”, que assinala o lançamento de duas obras dedicadas às artes visuais e à produção cultural contemporânea: uma exposição do artista e designer Hugo França – esculturas mobiliárias – e o lançamento do livro “Os caminhos da mulher na arte brasileira”, da curadora e advogada Marta Fadel.
Em ano de eleições presidenciais no Brasil, Sílvia Fingeruti sublinha que o papel da cultura, “que sempre soube resistir”, é decisivo na construção da identidade de todos os países.
“Continuo torcendo para que quem for o próximo Presidente do Brasil não restringe como foi na época do presidente Bolsonaro. Houve um atraso em todas as políticas públicas ligadas à cultura, mas também houve muita resistência dos artistas e envolvidos na produção cultural. E eu espero que não haja novo retrocesso”, afirmou.
Contudo, a cultura “sempre acha um jeito de resistir”, sublinhou, lembrando que “não seria arte, não seria cultura se não [soubesse] resistir a essas questões políticas, esses retrocessos de políticas públicas”.
Sobre o momento atual das relações entre Portugal e o Brasil, a gestora cultural saúda a longa “irmandade entre os povos”, apesar das recentes mudanças nas leis de imigração que deixam alguma apreensão.
“Eu espero que haja uma flexibilização dessa legislação, para que os brasileiros continuem vindo aqui não só para viver, mas como para passear. Porque, se os brasileiros que cá vivem não puderem trabalhar, os que vêm como turismo também não vão se sentir bem-vindos. Então, eu acho que isso deve ser flexibilizado, espero que seja”, concluiu.
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