Vencedora, em 2021, do mais importante prêmio para a Literatura em Língua Portuguesa, o Camões, a moçambicana Paulina Chiziane também foi escolhida ‘personalidade do ano’ da Lusofonia pelos jornalistas da Agência Lusa de notícias. Nascida em Manjacaze, na província de Gaza, em 1955, numa família em que se falavam as línguas ronga e chope, seu primeiro contato com o idioma do colonizador se deu quando passou a estudar numa escola dirigida por uma missão religiosa católica. Posteriormente, chegaria a cursar ‘Linguística’ na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, sem, no entanto, colar grau. Sensível ao drama de seu povo, a escritora foi militante da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), engajando-se ativamente no movimento pela independência de seu país, afinal proclamada em 1975. Depois, ainda atuou na Cruz Vermelha. Perguntada sobre o papel da política em sua vida, Paulina diz considerar importante o trabalho dos que se dedicam à vida pública, mas afirmou preferir a Literatura: “Prezo enormemente a minha liberdade. Sou muito desobediente. Não sou de seguir partidos”.

Havendo estreado na vida literária com a publicação de contos na imprensa, Paulina foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique: “Balada de amor ao vento”, lançado em 1990. “Ventos do apocalipse” é de 1995. “O sétimo juramento” é de 1999. O sucesso veio, no entanto, com “Niketche – uma história de poligamia”, de 2002, em que a autora conta a saga de Rami, que descobre que Tony, o marido com quem é casada há vinte anos, mantém outras mulheres e filhos em diferentes partes do território moçambicano.. Apresentada pela Companhia das Letras como uma obra que ‘mistura bom humor, consciência social e lirismo para traçar um vigoroso painel da condição feminina e da sociedade de seu país’, foi traduzida para vários países, sendo a responsável por tornar Paulina conhecida internacionalmente.

Em “As andorinhas”, editado, no Brasil, pela Nandyala, de Belo Horizonte, dirigida pela competente professora Iris Amâncio, Paulina reúne três contos: “Quem manda aqui?”, “Maundlane, o Criador” e “Mutola”. A epígrafe da obra remete ao seu título: “Se queres conhecer a liberdade/Segue o rasto das andorinhas”. A prosa poética presente em todas as histórias encanta imediatamente os leitores: “É velha a marcha desta vida. Nova é a meta e o mote, o culto do eu dissolveu o tino. Os guerreiros marcham e buscam a paz na lonjura dos caminhos. A estrada das andorinhas convida os guerreiros a acelerar a marcha, o chão é o domínio dos homens. Lá em cima as aves divertem-se à custa da prisão humana: roupa, cargas à cabeça, armas, perseguindo um lugar de sossego”. Ainda sobre elas, escreve: “Andorinhas! Quem nunca as viu? Cantam e dançam, por cima de todas as coisas. Querem ouvi-las? Tem de levantar os olhos para o céu, o Zulwine, lavar os olhos no azul que tranquiliza a alma e escutá-las. Elas inspiram-nos a descobrir a grandeza da alma na imensidão do mundo. Quem lhes conhece a idade? Quando nasceram? Elas dançam em roda as cantigas da eternidade desde o princípio do mundo. De onde vêm elas? Daqui. Dali. De todo o lado. De lugar nenhum. São o olho de Deus no controle do mundo”.

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Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares nasceu em Minas Gerais, Brasil, em 1971. É jornalista, mestre em Direito Internacional e Doutor em Literatura. Tem o Diploma de Estudos Avançados em Direito Internacional e Relações Internacionais pela Universidade Autônoma de Madri. Está no segundo mandato como presidente da Academia Mineira de Letras. É membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto dos Advogados Brasileiros e do Pen Clube do Brasil.

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