Roças são-tomenses, do inferno de onde não se saía até ao (quase) reconhecimento mundial

São Tomé, 18 jul 2026 (Lusa) – O professor universitário e líder da comunidade de Monte Café, em São Tomé e Príncipe, recua aos tempos de escravidão para lembrar o que se dizia sobre as roças: “um inferno onde se entra e não se sai”.

Filipe Samba, docente de Bio-Ética, nascido e a residir em Monte Café, não resiste a citar os antepassados, como que espreitando alguma garantia de futuro e de reparação: “a ferida da dor não se cura, o sofrimento não se cura com palavras, mas com ações concretas”.

A cultura esclavagista, pela mão de portugueses, que construiu a memória e o património arquitetónico ligado a seis roças (quatro em São Tomé e duas no Príncipe) alimentou negócios de café e de cacau e tradições de angolanos e moçambicanos, entre outros africanos, arrastados para São Tomé e Príncipe, com os cabo-verdianos a chegarem já numa condição de contratados, explica Samba.

A partir deste domingo e até 29 de julho reúne-se na Coreia do Sul o Comité do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Em Busan decidir-se-á se as roças são-tomenses são inscritas na lista de Património Mundial da UNESCO. E São Tomé e Príncipe concorre na categoria Sítios Culturais, com “As roças de São Tomé e Príncipe: Sistema colonial agrícola e migração forçada”.

“Para nós é importante esta inscrição com o património da UNESCO porque isso vem reforçar a nossa dedicação, o nosso empenho para a preservação deste memorial histórico. E assim já ficamos nós a acreditar que as gerações futuras poderão ter a perspetiva de rever essa história”, começa por argumentar, em declarações à Lusa, o líder da comunidade de Monte Café.

“Vai criar mais emprego, vai mobilizar, vai haver mais sinergias no âmbito da empregabilidade para a nossa população. Nós estamos quase meio abandonados, mas essa infraestrutura é que fala por nós, essa infraestrutura (…) dignifica a nossa imagem e a nossa identidade”, sublinha.

Depois de passagens pela então União Soviética, onde se formou, o regresso a Monte Café, onde cerca de cinco mil pessoas residem, tem sido marcado pelo trabalho comunitário, agora com um horizonte de esperança que vai até ao final deste mês: “É um momento de grande relevância para a nossa comunidade, porque, com esse estímulo, a UNESCO reconhece esta memória, não só do ponto de vista memorial, também do ponto de vista económico”.

Até à data, o Comité do Património Mundial inscreveu 1.248 sítios em 170 países na lista do Património Mundial.

Segundo a UNESCO, a classificação como Património Mundial permite reconhecer e proteger sítios de valor universal excecional, sejam eles naturais, culturais ou mistos, e “compromete os Estados membros a preservar estes locais emblemáticos”.

JMC // MLL – Lusa /Fim

Jovens habitantes da roça Monte Café posam para a fotografia. É uma das seis roças incluídas na candidatura à UNESCO, Monte Café, em São Tomé, São Tomé e Príncipe, 15 de julho de 2026. NUNO VEIGA/LUSA
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