Lisboa, 30 ago 2026 (Lusa) – O primeiro livro prático para aprender o crioulo guineense, nascido das notas de telemóvel de uma trabalhadora humanitária portuguesa, é disponibilizado gratuitamente para democratizar o acesso e promover a integração cultural dentro e fora da Guiné-Bissau.
Em declarações à agência Lusa, a autora Joana Pechirra explicou que o livro “Bu Obi Kriol?!” surgiu de forma “orgânica e espontânea”, pois aprender o crioulo guineense era uma necessidade devido ao projeto de cooperação internacional na Guiné-Bissau em que estava inserida.
“Eu vim trabalhar em projetos de cooperação internacional, portanto, trabalhando com comunidades, pelo menos falar crioulo, porque eu já nem falo depois de línguas étnicas, que muitas vezes também se revelam importantes neste trabalho de proximidade. E portanto, para mim foi uma necessidade”, disse Joana Pechirra.
A trabalhadora humanitária, mais conhecida por Nhina Tchuda, que significa observadora na etnia balanta, contou que foi a partir dos registos feitos no bloco de notas do seu telemóvel que o livro começou a ganhar vida, sublinhando que começou por perceber que as notas eram “um mecanismo para fazer face a uma lacuna”.
“Não havia materiais pedagógicos assim direcionados para a prática, porque os materiais, os poucos materiais que existem, são gramáticas de 200 páginas, que têm a sua validade em determinados contextos”, disse, salientando que as gramáticas não são funcionais para quem está a começar a aprender a língua.
Para responder a esta lacuna, Nhina Tchuda compilou o seu vocabulário pessoal — organizado em colunas de tradução — num livro digital sem custos – “paga o que quiser” -, permitindo que pessoas sem contacto direto com a Guiné-Bissau possam aprender a língua.
Segundo Joana Pechirra, o alcance da iniciativa acabou por ultrapassar as expetativas iniciais.
Além de estrangeiros e guineenses na diáspora, o livro está a ser utilizado por falantes nativos de crioulo para aperfeiçoar o português e aprender inglês.
“Para ser sincera, quando criei a versão de inglês, foi a pensar em estrangeiros que não falam português e quisessem também aprender o crioulo. De repente, comecei a receber mensagens de pessoas a dizer que estavam a usar o livro não para aprender crioulo, mas para melhorar o conhecimento de outras línguas”, referiu.
O projeto atraiu também o interesse de cidadãos de outros países de língua portuguesa, como Angola e Moçambique, bem como de pessoas de outras nacionalidades que casaram com guineenses.
Um dos pilares do projeto é a desmistificação do idioma e o combate a preconceitos linguísticos e sociais.
A ideia de Joana Pechirra “era criar uma alternativa que democratizasse” o acesso e a aprendizagem do crioulo guineense, promovendo a “comunhão dos povos [e a] interculturalidade”.
“O crioulo não é português mal falado. (…) O crioulo tem a sua sintaxe própria e os seus vocábulos”, defendeu, observando que o preconceito “nasce da falta de conhecimento”.
A autora exemplifica o impacto transformador da língua na integração social ao recordar deslocações a bairros da Grande Lisboa com forte presença de comunidades africanas, como o Vale da Amoreira, no Barreiro.
“Percebi que aquilo nunca foi medo, foi preconceito. A aprendizagem do crioulo é um veículo de eliminação desse preconceito”, declarou.
O livro reúne não só vocabulário prático, mas também expressões e frases culturais do dia-a-dia.
No âmbito do trabalho comunitário na Guiné-Bissau, a autora destaca que o domínio do crioulo altera substancialmente a eficácia da cooperação internacional, permitindo formações diretas com a sociedade civil sem perdas de informação na tradução.
“Os guineenses, mesmo os que falam português fluente, é em crioulo que se querem expressar. A aprendizagem do crioulo permite emergir na realidade de verdade e abre portas que o português não abre”, destacou.
Além do impacto profissional, Nhina Tchuda nota que a vivência no país muda radicalmente quando se domina o idioma local.
“A partir do momento em que se fala crioulo, a integração é exponencial”, afirmou, concluindo que “de repente, o preço na feira e nos táxis baixa pelo menos 50%”.


