Maputo, 21 set 2026 (Lusa) – Na “Girafa Solar” de Katembe Nsime, Maputo, concebida pela Fundação Carlos Morgado, Justino encontra lazer, companheiros e um ponto para carregar o telemóvel, num projeto que já abrange 44 mil beneficiários em Moçambique, onde a eletricidade não chega.
“Não tínhamos um sítio para carregar telefones e tínhamos que caminhar por uma média de talvez uns 10 quilómetros para poder carregar”, conta à Lusa Justino Cuna, 39 anos, após a instalação de uma Girafa Solar na localidade de Katembe Nsime, distrito de Matutuíne, província de Maputo.
Alimentada por painéis solares montados sobre uma estrutura elevada de madeira, conhecida como “Girafa Solar”, concebida pela Fundação Carlos Morgado, esta permite carregar até 10 telemóveis em simultâneo, fornece iluminação e alimenta um rádio fixado junto à infraestrutura para entreter os residentes.
Em comunidades sem acesso à rede elétrica, tornou-se também um espaço de convívio e encontro. Foi naquele local que Justino encontrou uma nova forma de aproximação aos restantes moradores: “A girafa também serviu como um elo de ligação entre nós”.
A estrutura foi instalada em novembro de 2025 junto da comunidade dos chamados “heróis de Matutuíne”, formada por mais de 500 pessoas de cerca de 100 famílias que perderam as suas casas devido às cheias registadas desde 2023. Entre tendas improvisadas e habitações erguidas pelos próprios residentes, a “Girafa Solar” transformou-se num ponto de encontro onde se partilham preocupações e se discutem desafios como a falta de água e energia.
“Acreditamos que a Girafa [Solar] transformou as nossas vidas”, reforça Justino, que agora consegue manter contacto regular com familiares e amigos.
Desde 2020, a iniciativa permitiu a instalação de 22 “Girafas Solares” em comunidades das regiões norte, centro e sul de Moçambique, acumulando cerca de 44 mil beneficiários em zonas sem acesso à eletricidade. Todos os meses, a bateria de 11 mil telemóveis é recarregada nestas infraestruturas, beneficiando quem ainda vê longe a chegada da rede de eletricidade.
Entre eles está Nora Matsinhe, de 39 anos, que vive na aldeia há quase dois anos e encontrou nesta infraestrutura uma forma mais simples de comunicar com familiares distantes, ao mesmo tempo que convive diariamente com outros moradores.
“Conseguimos carregar o telefone para podermos comunicar com pessoas que estão longe e nos ajuda muito porque de verdade para carregar o telefone antigamente era muito difícil”, afirma.
Nora reconhece, contudo, que a procura pelo serviço já ultrapassa a capacidade existente.
“Era preferível mesmo aumentar mais uma girafa [solar], porque na totalidade somos muita gente a carregar”, apela.
Com a chegada da eletricidade produzida pelos painéis solares, a rotina da aldeia também mudou. O que antes terminava ao cair da noite, prolonga-se agora durante várias horas, graças à iluminação disponível e aos momentos de convívio à volta da estrutura.
“Antigamente era um pouco difícil mesmo, porque até 18:00 você tem que entrar dentro da casa e tentar dormir, não tinha como, mas agora temos vantagem. Ficamos aqui, carregamos [os telemóveis], conversamos, […] tocamos rádio e dançamos”, acrescenta.
Ao cair da noite, após carregar as baterias, a “Girafa Solar” transforma-se num pequeno centro comunitário, reunindo crianças nos baloiços e adultos à volta também de uma televisão alimentada pelo sistema solar para acompanhar jogos de futebol.
A ideia nasceu em 2015, inicialmente concebida como um simples alpendre com painéis solares. A tipologia da estrutura foi sendo melhorada com base nas sugestões dos primeiros beneficiários, até ganhar a atual forma elevada, suportada por estacas de eucalipto, assemelhando-se a uma girafa, como aquelas que se passeiam ali perto.
“Quando nós voltamos a desenhar o projeto, nós usamos uns paus de eucalipto maiores e de repente nós olhamos o desenho de lado e vimos que, afinal, já não é um alpendre, é uma girafa, parece uma girafa”, recorda Ruben Morgado, diretor-executivo do projeto, de 48 anos.
Cada uma destas infraestruturas apoia pequenos negócios, facilita o acesso a serviços financeiros móveis e reforça a segurança local através da iluminação noturna.
Agora, o objetivo da Fundação Carlos Morgado é continuar a expandir o projeto para outras zonas do país.
“Uma das metas que nós temos é mudar o dicionário da língua portuguesa para pôr o verbo girafar. Nós queremos girafar Moçambique”, diz Ruben.
Cada unidade custa cerca de 600 mil meticais (7.976 euros), tem uma vida útil estimada em cinco anos e pode ser instalada em apenas dois dias. O responsável procura novas parcerias para alargar a iniciativa a outras comunidades sem acesso à eletricidade.
Como Bernardo Pedro, de 66 anos, que diz ter recuperado horas do dia que antes gastava em deslocações para carregar o telemóvel a sete quilómetros da sua aldeia. Também ele pede a instalação de mais uma unidade para responder à crescente procura.
“Agora a comunidade aqui é um pouco maior, então, não está a ser fácil”, comenta Bernardo, pai de oito filhos.
O morador defende ainda que a energia solar possa servir para iluminar a aldeia e alimentar um furo de água, cuja falta de energia continua a impedir o funcionamento.
“Só falta energia. Agora, se alguém de boa-fé colocar lá o solar, pode ser muito útil”, pede Bernardo.
Criada em 2010 em homenagem ao patrono e antigo ministro da Indústria e Comércio de Moçambique (2000-2005), Carlos Alberto Sampaio Morgado, a fundação trabalha com diferentes parceiros para conceber e implementar projetos de inovação, inspiração e investimento, visando promover o desenvolvimento sustentável do país.
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