Saiu um estudo esta semana que revela que mais de 60% dos portugueses não leu um único livro em 2020. Eu diria que, se não leram em 2020, é porque simplesmente não lêem, seja qual for o ano, o que vai em linha com outro dado apresentado: apenas 34,8% dos portugueses compram livros e, em média, um mero livro por ano. Uma das maiores desculpas para não ler é a falta de tempo. Porque há filhos, porque há trânsito, porque há demasiada coisa para fazer em casa quando se passa o dia todo fora. Ora este estudo veio mostrar o que eu já desconfiava: se com tantos meses de confinamento e empresas paradas, teletrabalho e ausência de vida social as pessoas não aproveitaram para pegar num livro, é porque simplesmente não gostam de ler. O que é muito triste.

A questão tem sido apresentada num tom culpabilizante para os portugueses que não lêem, insinuando a sua ignorância. Povo medíocre que só gosta de ver telenovelas e reality shows. Porém, a meu ver, dever-se-ia começar antes por discutir o profundo desinteresse dos sucessivos governos pela leitura, pela literatura e pelos livros e depois o que se pode fazer para pôr as pessoas a lerem mais.

Os hábitos de leitura criam-se, acima de tudo, na escola onde os programas continuam a obrigar as crianças a lerem livros que fazem adormecer um hiperactivo. Não pondo em causa a qualidade literária dos autores selecionados, sobretudo os clássicos, na minha opinião não é com «A Fada Oriana» ou o «Príncipe Nabo» que se cativa miúdos de dez anos. Miúdos que vêem o Star Wars, desenhos animados psicadélicos como o Titio Avô, séries com adolescentes youtubers e super-heróis. Miúdos que chegam a casa e têm consolas, TikTok e dezenas de canais de televisão. Como é que se vão interessar por contos de fadas escritos num tempo em que o cúmulo da diversão era lançar um pião? Eu vejo pelo meu filho, um leitor ávido e apaixonado, mas que começou a odiar as aulas de português por ter de trabalhar livros como os mencionados. Não estou muito preocupada com ele, porque tenho possibilidade de lhe dar os livros que lhe interessam e que o fazem agarrar-se às páginas até eu o obrigar a apagar a luz, mas e os meninos que não têm livros em casa? Desinteressam-se da leitura aos dez anos. Provavelmente para sempre.

A coisa não melhora nos anos seguintes. Não seria melhor cativar as crianças e adolescentes para a leitura com obras contemporâneas de qualidade literária em vez dos clássicos só por serem clássicos? O objetivo é que as pessoas leiam ou que se tornem depósitos das várias correntes da literatura desde as cantigas d’amigo? É que mesmo dentro dos autores clássicos, há obras mais interessantes para públicos jovens do que as que lhes são impostas. Porque não ler «O Crime do Padre Amaro» em vez de «Os Maias»? Porque não o «Ensaio sobre a Cegueira» em vez do «Memorial do Convento»? Porque não abrir os currículos a novos autores portugueses contemporâneos primeiro e guiá-los até aos clássicos depois? Porque não estender a escolha a clássicos estrangeiros como «Frankenstein», «O Deus das Moscas», «A quinta dos Animais»? Há obras entusiasmantes nas leituras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura, mas as de leitura obrigatória mantêm-se as mesmas desde que eu andei na escola, há mais de vinte anos. Já diz o ditado: “não se apanham moscas com vinagre” e é triste ver que os programas não acompanharam as mudanças drásticas que a sociedade sofreu neste início de século XXI.

Além de se alienar os jovens da leitura desde tenra idade em nome da erudição, há outra grande causa para os baixos índices de leitura nacionais (dos mais baixos da Europa). O preço dos livros. Quando há cinco anos fui a Dublin, vim fascinada pelos hábitos de leitura dos irlandeses. Começou logo no avião, onde a maioria das pessoas tinha um livro na mão, mesmo os mais jovens. Um livro de verdade em vez de um tablet ou smartphone. Nas ruas da cidade são inúmeras as livrarias independentes, alegres, vivas, onde os preços dos livros são realmente apetecíveis. Em média um livro na Irlanda custa 12 euros. Por cá custa 19. O ordenado mínimo deles é de €1656. Ou seja, para o que se ganha em Portugal, um livro deveria custar à volta de 6 euros. Metade do que custa na Irlanda. Um terço do que custa actualmente. Para aí chegar, seria preciso um sério investimento no sector do livro, apoio às livrarias e aos editores, modernização das bibliotecas, respeito pelos escritores que, na sua grande maioria, se dedica à escrita por paixão e casmurrice, e apenas nos tempos livres, já que os direitos de autor não chegam para viver da escrita e o que se escreve para meios de comunicação social ou para palestras raramente é pago. Quando o orçamento para a cultura é de apenas 0,39% (sim, zero ponto trinta e nove!) e desse, metade vai logo para os meios de comunicação social estatais, quanto sobra para os livros?

É um problema que não é de hoje, nem de ontem. É de sempre. E enquanto não se levar a cultura a sério, com medidas e orçamentos sérios que impulsionem o sector, com a clara noção de que se trata de um bem essencial, nada mudará. E o país, que já é dos mais pobres, passará a miserável. Um lugar povoado por gerações sem espírito crítico, sem espírito cívico, sem identidade.

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