28 February 2021
Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer. Tirada em 27 de setembro de 2011 por Flávio Veloso

Poesia de Carlos Drummond de Andrade inédita em Portugal será publicada este mês

Lisboa, 06 fev (Lusa) – Mais de 50 poemas escritos por Carlos Drummond de Andrade durante a Segunda Guerra Mundial, que falam da guerra, dos afetos, do seu passado familiar e de tempos sombrios são publicados este mês pela primeira vez em Portugal.

Inédito em Portugal, o livro “A rosa do povo” reúne 55 poemas escritos entre 1943-1945, no decurso da Segunda Guerra Mundial, que espelham o “olhar do poeta brasileiro mais importante de sempre sobre um momento de transformação profunda”, constituindo a sua obra mais extensa, segundo a editora Companhia das Letras.

O livro vai estar nas livrarias a partir de 15 de fevereiro.

Trata-se de uma das primeiras obras de Drummond de Andrade, que é também o seu trabalho de maior expressão de lirismo social e modernista, um livro que estabeleceu a figura do poeta mineiro no panorama da melhor poesia de língua portuguesa no século XX, acrescenta a chancela brasileira.

Este conjunto de poemas aborda temas como a profunda mudança de mentalidade e o corte com o passado, a confusão gerada por estas mudanças, a urbanização supersónica da então capital brasileira e o sofrimento causado pela Segunda Guerra Mundial, nomeadamente na Europa, sendo, por isso, um trabalho que reflete um tempo sombrio.

Publicado originalmente em 1945, “A rosa do povo” é o livro politicamente mais explícito de Carlos Drummond de Andrade e deita um “poderoso olhar” sobre a Segunda Guerra, a cisão ideológica, a vida nas cidades, o amor e a morte.

O poeta observa tudo isto a partir da então capital brasileira, o Rio de Janeiro, cidade cosmopolita que ocupava uma posição privilegiada nos poemas, levando muitos críticos a comparar a visão de cidade expressa pelo autor à do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), o primeiro grande cantor da experiência urbana.

É, pois, escrevendo a partir desse Rio de Janeiro que se urbanizava freneticamente, de costas viradas para o passado, que Carlos Drummond de Andrade presta tributo a uma Europa destroçada pela guerra e aos milhões de civis que nela morreram, ao mesmo tempo que reflete sobre a sua condição humana, afligida por medos e afetos, atormentada por permanências e mudanças.

“A rosa do povo” é, do ponto de vista formal, uma das obras mais expressivas do movimento modernista brasileiro, em que o poeta brasileiro experimenta o verso alongado, ao estilo do poeta norte-americano Walt Whitman, ironiza o passado literário brasileiro e exercita as mais diversas formas e dicções, nos 55 poemas reunidos no volume, revela a editora.

“A rosa do povo” é também “um legado sobre a beleza múltipla da vida, onde passado e presente, guerra e paz, cidade e campo, amor e morte são testemunhas da infinita riqueza de tudo quanto existe”, lê-se na contracapa do livro.

As angústias do poeta e a sua transposição para a poesia poderiam ser traduzidas por um trecho do poema “Noite na repartição”, em que uma pomba diz: “Não grites, não suspires, não te mates: escreve”.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902 em Itabira, no Estado de Minas Gerais, e morreu aos 84 anos no Rio de Janeiro.

Apontado com um do mais importantes poetas da língua portuguesa do século XX, estreou-se na literatura em 1930 com a publicação de “Alguma poesia”.

AL // TDI – Lusa/Fim
Foto: Mapas da Cidade

 

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