No Dia Mundial da Língua Portuguesa, Marco Neves conversa com o jornal Tempo Livre, na Academia das Ciências de Lisboa

No Dia Mundial da Língua Portuguesa, Marco Neves conversa com o jornal Tempo Livre, na Academia das Ciências de Lisboa, onde “defende que a língua portuguesa é globalmente importante, e observa que os sotaques estão a diluir-se um pouco, mas não vão desaparecer”…

Entrevista no jornal aqui

Jornal Tempo Livre – Edição Nº 59 maio-junho


Marco Neves

“O coração da língua está em todos os falantes”

 

Professor na universidade Nova de Lisboa, autor de diversos livros sobre temas linguísticos, e dos programas Português Suave, na Rádio Observador, e Esta Língua Que Nos Une, na RTP, defende que “a língua portuguesa é globalmente importante”, e observa que “os sotaques estão a diluir-se um pouco, mas não vão desaparecer”

A Academia das Ciências de Lisboa, órgão consultivo do Governo português em matéria linguística, foi o palco eleito para uma conversa com o investigador e divulgador da língua portuguesa na rádio, televisão e redes sociais, que considerou “muito boa escolha” ali ser celebrado um dia dedicado à nossa língua.
No Salão Nobre, rodeados por cerca de 25 mil livros impressos entre os séculos XVI e XIX, as informações sensoriais são marcantes. O cheiro dos livros antigos. O silêncio. A atmosfera histórica. O ambiente inspirador. Na companhia do autor de Atlas Histórico da Escrita, entre outros títulos, temos a convicção de que há “livros que podem mudar a vida”.
Dentro da Academia das Ciências, o Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa e a Universidade do Minho criaram uma ferramenta acessível em qualquer parte do mundo, o Dicionário da Língua Portuguesa em linha (dicionario.acad-ciencias.pt). O fascínio das palavras está ao alcance de todos.

O Dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de maio, criado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em 2009, foi proclamado pela Unesco em 2019. Temos mais de 265 milhões de falantes dispersos pelos cinco continentes. No âmbito da comunicação global, como observa a importância da nossa língua?
A nossa língua tem a particularidade de ter um país com o dobro dos falantes, em comparação com os outros países todos unidos. Essa característica é muito própria do português.
A língua portuguesa é globalmente importante. A importância dos números é sempre muito relativa. Vai depender do peso que tem a língua, da relação que os países têm uns com os outros, da importância que eles dão à própria língua.
O desenvolvimento que deve ser salientado é o grande crescimento do português em África. Prevê-se, nas próximas décadas, que o português em África, sobretudo em Angola e Moçambique, cresça significativamente. Diria que daqui a uns 50/60 anos é bem provável que o centro demográfico da língua esteja mesmo em África. Dito isto, o coração da língua está em todos os falantes, em qualquer continente onde estejam.
O português tem a característica de ser uma língua oficial na União Europeia, e também vai ser mais falada em África, isso leva a que o português venha a ser muito importante para a Europa.

José Saramago, em 2003, disse: “Não esqueçamos que as línguas se cercam umas às outras, não esqueçamos que a língua inglesa as cerca a todas e a todos nos cerca” (Ciberdúvidas da Língua Portuguesa). Decorridos mais de 20 anos deste alerta do Nobel da Literatura portuguesa, como estamos a defender a nossa língua?
O inglês é uma língua franca, e as línguas francas fazem parte dos mecanismos que os humanos têm para comunicar. O inglês tem muito prestígio, como sabemos. O prestígio é como uma força da gravidade que leva a que as pessoas usem cada vez mais uma determinada língua. Por isso, não é impossível que o português fique em perigo pela utilização do inglês. Olhando para a situação dos nossos dias, apesar de vermos muitas expressões inglesas, não chegámos ainda a um ponto onde o português esteja a ser substituído, felizmente. Mas não é impossível.
Por outro lado, segundo Nicholas Ostler, um linguista norte-americano, este domínio do inglês tem os dias contados, e não é pela questão do mandarim, como algumas pessoas dizem, é mesmo pelo desenvolvimento tecnológico, que leva a que a tradução automática venha a ser tão eficaz que o inglês deixa de ser tão necessário. Tenho muitas dúvidas que a tradução automática venha a ter uma qualidade tão grande quanto isso. Mas, é uma possibilidade. Também devo dizer que a grande maioria do que está acessível na Internet não está em inglês. É uma vitória que não nos alegra muito, mas não é necessário produzir conteúdos ou escrever em inglês para chegar a muitas pessoas.
Em Portugal tivemos sempre tendência para termos uma língua estrangeira para a qual olhamos. Tivemos o castelhano, na época de Camões; o francês, durante séculos e séculos, que teve uma grande influência nas elites portuguesas; agora temos o inglês, que influencia todas as pessoas. Com todas as cautelas, e perigos à espreita, mantenho muita esperança de que a nossa língua vá continuar a crescer no futuro, mesmo neste mundo digital.

No seu recente livro, As Raízes da Língua: A História de 50 Palavras Portuguesas (Guerra & Paz, 2026), diz: “Às vezes, as palavras mantêm o significado por milénios. Outras vezes, dão pequenos (ou grandes saltos) — a nossa luva não só passou da palma da mão para a peça de vestuário, como agora também quer dizer suborno.” A propósito dessa palavra, “durante a sessão legislativa de 1993, o então deputado do PSD Pacheco Pereira escreve um artigo no qual fala de um ministro que colocou uma vírgula num decreto-lei para receber luvas” (Público, 19 de janeiro de 2016). A vírgula fez história na política portuguesa… E também na obra de Saramago.
Sim, lembro-me de ouvir falar dessa história… O mito da vírgula na obra de José Saramago, é um dos mitos que as pessoas repetem muitas vezes: Saramago não usava vírgulas. Na verdade, era um escritor que usava mais vírgulas do que todos os outros.

Tem um sinal de pontuação preferido?
Neste momento, tenho um sinal que quero salvar — o travessão. Diria que é o meu preferido. Obviamente que a vírgula é mais útil e o ponto é utilíssimo. Mas, o travessão tem utilidade. É verdade que só é obrigatório em português quando assinalamos o diálogo (mesmo assim, Saramago não usava, tal como outros escritores não usam), mas tirando esse caso, podemos sempre substituí-lo, por vírgulas, parêntesis, ou mesmo por dois pontos. A sua utilidade é mais subtil que a dos outros sinais.
Eça de Queiroz usava o travessão de forma única. O travessão serve para destacar qualquer coisa, para fazer uma pausa maior do que o ponto. Há muitos motivos para que seja um sinal importante, desde que a pessoa saiba utilizá-lo.
Nos últimos tempos, tem havido uma tendência para achar que quando aparece um travessão é sinal de Inteligência Artificial (IA). Mas, porquê pensar isso do travessão e não da vírgula? A minha explicação é que o travessão era ignorado por tantas pessoas que agora, quando aparece, surpreende… Mas sempre existiu! Basta abrirmos uma página d’Os Maias e vemos lá o travessão. A IA copia-nos. O meu problema é que agora muitas pessoas hesitam em usar o travessão, têm medo que seja identificado como IA.

É um problema que temos de enfrentar com Inteligência Natural.
Exato. Se a Inteligência Natural começar a fugir disso, temos um problema que não sei como é que se resolve. Pensando bem, as pessoas estão muito preocupadas com a Inteligência Artificial, mas as reações, em geral, são de que queremos escrever de maneira que não pareça IA… o que é bom sinal.

Nas primeiras páginas do seu livro interpela-nos a dedicatória: “Em memória de Fernando Venâncio, o grande mestre da história das palavras.” Considerava-o um mentor?
Um exemplo, e mentor também. Não foi meu professor, mas falámos muitas vezes ao longo dos anos. Transmitiu-me muito conhecimento, documentos e informações. Aliás, cheguei a ouvir discursos dele, ditos neste Salão Nobre.

Acerca do Acordo Ortográfico de 1990, disse que era um “produto mal-enjorcado, elaborado em cima do joelho, rejeitado por todas as entidades então consultadas, e tecnicamente inapresentável” (Público, 16 de abril de 2022). Acompanha-o nesta crítica?
Todos esses argumentos estão ditos, não vou repeti-los. Mas há um argumento que ainda é preciso pôr em cima da mesa — o Acordo Ortográfico de 1990 não serve para nada.
Fernando Venâncio não era contra as reformas ortográficas, por princípio, mas aquela, em particular, estava mal feita, ao contrário do que aconteceu em 1911. Nesse ano, a ortografia foi bem reformada (como Fernando Venâncio também dizia), e foi reformada quando apenas uma percentagem mais limitada da população sabia escrever. Nessa época, houve algumas resistências, a mais famosa é de Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”, está num poema contra a reforma ortográfica.
Depois, tivemos toda a explosão da alfabetização. E a população foi alfabetizada com aquela ortografia; no século XX houve alterações nos anos 40, não tão profundas, e nos anos 70 também. Quando temos quase 100% da população alfabetizada, de repente, muda-se a ortografia por uma razão um pouco artificial de aproximação ao Brasil.
Aliás, nem foi iniciativa do Brasil. Na verdade, foi Portugal que andou atrás desta reforma. Não melhorou nada. Foi inútil. Criou problemas. Tem de haver uma reforma limitada que resolva os problemas criados, uma reforma que vai andar para trás nalguns pontos, vai aceitar outros, mas tem de ser bem pensada. Com Angola a ser ouvida, porque não aceitou o acordo, e é muito importante pela sua dimensão, tal como Moçambique e os outros países. A Academia das Ciências de Lisboa tem um papel importante nessa solução.

No jogo da língua de Camões existem palavras que incomodam certos falantes. Iniciou a sua carreira como tradutor, há alguma palavra que tenha o poder de o irritar?
Há uma que tem que ver com o Acordo Ortográfico (AO), com a sua má aplicação. A forma como se utiliza muito a palavra ‘contato’ (sem c), quando nós dizemos ‘contacto’. Além da palavra ‘facto’, que, às vezes, se transforma em ‘fato’, até no Diário da República.
A questão que me irrita não é que as pessoas estejam a mudar a forma de pronunciar, isso já sabemos; mais tarde ou mais cedo, as palavras mudam. Mas a ortografia pode e deve ser estável. A verdade é que o AO nos trouxe confusões mentais. Se não houvesse este acordo, poucos se atrapalhariam com ‘facto’ e ‘contacto’.

Voltando à sua obra, sobre A História de 50 Palavras Portuguesas, explica: “Há ainda as outras raízes da língua ligadas ao árabe, ao persa, a línguas africanas, a línguas da América do Sul, a línguas germânicas, ao grego, ao inglês, ao francês, entre outras.” Dedicar-se a este estudo é o seu segredo para manter viva a paixão pela História viajando através da língua?
Quando era novo queria ser historiador…

Este é o seu segredo?
Sim, posso dizer que sim… [risos] Acabei por estudar línguas, por vários motivos, e não estou nada arrependido. É um fio que podemos puxar para ver as histórias que estão por trás. As histórias e a História interessam-me muito. E a língua tem estas histórias todas por trás.
Este livro que agora escrevi, na verdade, já o queria fazer há muitos anos. Acho que é importante falarmos da história de cada uma das palavras. Não podemos esquecer que as palavras não existem no abstrato. Sabemos que agora estão no dicionário. Estamos aqui rodeados de livros que prendem as palavras e permitem comunicar entre gerações. Mas como é que as recebemos quase todas? De duas maneiras: aprendemos uma palavra porque alguém nos disse a palavra, ou porque a lemos nalgum sítio, e se a lemos, é porque alguém a escreveu.
Há uma história que conto de forma resumida sobre a palavra azul, que vem das minas do Afeganistão. Uma rocha que chamamos lapis lazuli, que teve vários nomes, em persa, árabe… foi esta rocha que nos deu o nome da cor azul.

No capítulo dedicado ao Porto, afirma: “Tudo indica ter origem na designação latina Portus Cale. Esta designação deu nome ao país — e por isso dizemos que o Porto deu o nome a Portugal — e ainda à cidade, que tem um nome que descende da primeira parte do nome latino.” No Dia Mundial da Poesia, 21 de março, teve uma conversa com Rui Reininho, sobre pronúncias do Norte, na Biblioteca Almeida Garrett. O que traz desses momentos passados na cidade que, como diz, gosta “tanto de visitar”?
Tenho ido várias vezes ao Porto. Não tenho nenhuma ligação familiar, mas acho que temos todos uma ligação ao Porto por sermos portugueses. É uma cidade interessante, importante, e o público participa com muita intensidade.
Naquela conversa fiquei a descobrir que Rui Reininho consegue imitar na perfeição todos os sotaques e mais alguns. Não fazia a mínima ideia, e nunca tinha ouvido um português a falar como um galego. Reininho consegue imitar perfeitamente os sotaques galegos, do Brasil, dos Açores… foi uma sessão muito divertida.
Quando olhamos para o título da canção A Pronúncia do Norte, vemos que abarca não sei quantas pronúncias, quase cada bairro da cidade do Porto tem uma, cada região do Norte tem outra. Os sotaques estão a diluir-se um pouco, mas não vão desaparecer; são uma parte essencial da utilização da língua.

Na Academia das Ciências, lembramos uma das primeiras mulheres eleitas, em 1912, Carolina Michaëlis, professora, escritora e investigadora, salientando-se a importância do seu estudo sobre a língua portuguesa. E logo vem à memória um poema de Lídia Jorge: “Mulheres como eu, que caminham pelas avenidas/ assombradas pelo sonho, sabei que mais vezes sereis punidas/ do que queridas” (O Livro das Tréguas, Dom Quixote, 2019). Na sociedade portuguesa do século XXI, o que sente em relação aos direitos de igualdade entre mulheres e homens?
Estou a olhar para a designação que damos à nossa língua… dizemos a língua-mãe, a língua materna, porque a transmissão materna é importante. Mas há um desequilíbrio muito grande na visibilidade que não damos às mulheres que foram importantes na nossa língua e cultura.
A pessoa que pela primeira vez escreveu nos documentos a palavra português, para designar a língua, foi o Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte. Os filhos de D. Filipa de Lencastre desenvolveram a sua forma de olhar para o mundo e para a língua através da mãe. Podemos dizer que aquela inglesa também teve importância na nossa língua. Falta-nos a História contada pelo lado das mulheres.
Na verdade, ainda não chegámos ao momento de haver justiça entre homens e mulheres. Melhorámos muito, mas há uma certa estagnação. Apesar de não ser muito velho, acho que já vivi épocas em que não havia esta estagnação em relação aos direitos das mulheres. Espero estar errado, mas é o que sinto. E espero que seja passageiro.
Há cem anos havia não só desequilíbrio de género, como 80% da população não sabia ler nem escrever. Hoje, as pessoas sabem ler e escrever, mas leem pouco e há muitas dificuldades em usar essa ferramenta tão poderosa. Há muito trabalho a fazer.

O Presidente da República, António José Seguro, no discurso de tomada de posse, citou Luís de Camões: “As coisas árduas e lustrosas alcançam-se com trabalho e fadiga.” O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano comemora-se na ilha Terceira e Luxemburgo (Sítio Oficial da Presidência da República Portuguesa). Vivemos tempos conturbados, como realça Manuel Alegre: “Este é um tempo sem tempo e de um só tema/ dai-me um canto sem mísseis no poema/ para que o tempo torne a ter sentido” (Balada do Corsário dos Sete Mares, Dom Quixote, 2026). Como homenagear os nossos poetas?
O convite que faria para as pessoas homenagearem os poetas implica reparar em técnicas que eles usam, e que nós também usamos no dia a dia (metáforas, metonímias, tantas outras…); outra sugestão: reparar nos músicos que estão à nossa volta, nos que escrevem letras de música, porque muitos deles também são poetas. Estamos rodeados de poesia, nos poetas, nos cantores… e, às vezes, nas pessoas comuns.

Numa ocasião, contou que frequentava a papelaria do seu avô materno, em Peniche, cidade onde nasceu e estudou, na qual teve acesso a variados géneros literários. O contacto com os livros abriu-lhe este caminho?
Lembro-me de um pacote da Dom Quixote, com uma série de livros dispersos, onde vinham A Morte de Carlos Gardel, de António Lobo Antunes, e Contos, de Eça de Queiroz, editados por Luís Fagundes Duarte, que veio a ser meu professor em Estudos Queirosianos. É curioso como os livros podem mudar a vida. Aquele exemplar de Contos, de Eça de Queiroz, foi uma espécie de manual do que se pode fazer com a literatura. Inclui contos para todos os feitios. Há um, em particular, A Perfeição, que conta um episódio conhecido de Ulisses preso na ilha de Ogígia. No início, a ilha é perfeita. Eça de Queiroz usa uma série de palavras para descrever essa perfeição.
Depois, ao longo do conto, vamos percebendo que Ulisses está desejoso de fugir para a imperfeição das coisas humanas. No final, (lembro-me de estudar o conto aprofundadamente), Eça usa palavras semelhantes às do início, mas a arte do escritor leva-nos a recebê-las de maneira muito diferente. Percebemos porque é que Ulisses quer fugir da perfeição, e quer ir para a delícia das coisas imperfeitas.

Pelos livros marcantes vamos… o romance de ficção científica Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, retrata um regime totalitário que combate o pensamento crítico: os livros são proibidos e queimados à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Contudo, há uma comunidade que memoriza obras literárias. Imaginando-se um homem-livro, que obra escolheria memorizar?
É difícil escolher só um livro. Lembro-me que também gostei de ler Cosmos, de Carl Sagan, e outras leituras muito diferentes. Mas Contos, de Eça de Queiroz… tem esta vantagem, dá-nos experiências muito diferentes num só livro. Também por ser um autor que levou a língua tão longe… Escolheria Contos.

Teresa Joel

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Marco Neves

Docente na NOVA FCSH e investigador no CETAPS. É tradutor desde 2002 e autor de vários livros sobre a língua portuguesa e a linguagem humana. Escreve regularmente no SAPO 24 sobre temas linguísticos e mantém a página Certas Palavras (www.certaspalavras.pt).
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