A língua, a literatura, a história e a arte nos espaços de língua portuguesa juntaram, desde segunda-feira, investigadores de Portugal, Brasil, Moçambique, Cabo Verde e França na Fundação Calouste Gulbenkian de Paris.

“Autres marges – La vitalité des espaces de langue portugaise” enquadrou-se no programa do cinquentenário da fundação em Paris e mostrou “uma vitalidade notável da língua portuguesa”, de acordo com o diretor da delegação da Gulbenkian em França, João Caraça.

“Tanto no continente europeu, no continente africano, no americano como no asiático, o que se verificou é que o português é falado de uma maneira viva com características locais muito interessantes, mas que o mesmo português é, em muitos aspetos, um elemento de coesão importantíssimo”, explicou João Caraça.

Sarita Monjane Henriksen, da Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique, disse à Lusa que “a língua portuguesa tem estado a transformar-se” e que “o português não é mais visto como uma língua estrangeira, exógena, mas como uma língua moçambicana”, enriquecida pelas línguas bantu.

No entanto, a investigadora ressalvou que “no Moçambique urbano há um possível risco de extinção das línguas bantu, das línguas moçambicanas, porque não se verifica mais uma transmissão de língua intergeração dos pais para os filhos”.

Sarita Monjane Henriksen defendeu que existe espaço para o desenvolvimento de uma política linguística que promova a língua portuguesa, “mas também o ensino de línguas estrangeiras e a aprendizagem de línguas bantu”, de acordo com o chamado “paradigma da Ecologia da Linguagem”.

Francisco Noa da Universidade Eduardo Mondlane de Maputo considerou, em declarações à Lusa, que “o termo lusofonia não é um termo muito cultivado pelos moçambicanos”.

O investigador participou, esta manhã, numa mesa redonda em que falou sobre as interações culturais e identitárias na literatura moçambicana contemporânea e sobre o “esquecimento” da influência do Oriente na “arquitetura identitária da sociedade moçambicana”.

“A lusofonia é um discurso mais cultivado em Portugal e no Brasil, mas eu julgo que os nossos países estão mais a tentar entender como é que eles se autorrepresentam no seu próprio território com as múltiplas diversidades porque temos o substrato bantu, temos as influências do Oriente e também temos a influência portuguesa”, declarou, sublinhando que as especificidades moçambicanas “estão muito além da lusofonia”.

Os “mitos da lusofonia” na Ásia foram um dos motes para a intervenção, esta manhã, de Paulo Pinto da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, que falou sobre “a presença portuguesa no Sudeste Asiático” nas margens do Império.

“A presença portuguesa na Ásia é algo que se esbateu, não deixou marcas visíveis, não deixou uma Angola, um Moçambique, um Brasil. Como é algo mais remoto em relação às realidades presentes brasileiras e africanas, existe uma espécie de uma construção romântica e nostálgica do Afonso de Albuquerque, do Vasco da Gama que mitificam um pouco o imaginário português de uma espécie de época dourada”, explicou o investigador à Lusa.

Paulo Pinto relembrou que “existe uma série de construções, algumas bastante incorretas sobre a lusofonia”, exemplificando com o caso de Malaca e “a ideia de que o que existe hoje em Malaca é uma comunidade, um bairro de portugueses que sobreviveu 500 anos ou que são descendentes de portugueses”.

No final de dois dias de um colóquio dominado pelo conceito “as margens”, Leão Lopes do Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura de Cabo Verde afirmou à Lusa que, “sob o ponto de vista de políticas públicas, em Cabo Verde e não só, a cultura está sempre à margem”.

O realizador e escritor cabo-verdiano, que apresentou uma comunicação sobre os desafios da “educação artística hoje em Cabo Verde”, lamentou que a cultura seja “vista muito mais como um produto final e nunca como um processo de produção e até de desenvolvimento económico de uma nação”.

 

CAYB // MAG – Lusa/fim


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