A vida de Saramago (1922 – 2010) é um óptimo exemplo cívico. O menino que, em 1998, se tornou o único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa teve uma infância e uma adolescência que o condenavam a ser apenas – e apenas – um serralheiro ou um mecânico de automóveis, e este foi o seu primeiro emprego durante cerca de um ano, donde se despediu ou foi despedido (não se sabe) por desadaptação à função. Com dois anos veio da Azinhaga (Golegã, Ribatejo) para Lisboa, habitando os bairros pobres da capital (Picheleira, Ato do Pina, Mouraria…). O pai, jornaleiro, viera tentar a vida em Lisboa como polícia, a mãe, analfabeta, lavava escadas, a tia materna era criada da família Formigal, com residência no Saldanha.

Por carência de recursos familiares, Saramago viveu em dez “partes de casa” até cerca dos 12 anos, isto é, os pais alugavam uma casa em conjunto com dois outros casais (os dois irmãos Barata). Cada divisão destinava-se a uma família, a que acrescia uma sala para todos. Assim, o menino Saramago, até àquela idade, dormiu no quarto dos pais, num colchão posto no chão quando se deitava. Em certas noites, Saramago acordava com as baratas a passarem-lhe por cima do corpo. Todos os anos, pela Primavera, Saramago ia com a mãe empenhar os cobertores de cama, que os pais, poupando tostão a tostão, resgatavam no Inverno seguinte. 

Verdadeiramente, não teve amigos na infância (apenas um primo, José Dinis, companheiro das férias grandes na Azinhaga em casa dos avós). Após a escola primária, onde se notabilizou como bom aluno, ingressou no Liceu Gil Vicente, mas no segundo ano (com 12 anos), a falta de dinheiro forçou a família a inscrever o filho na Escola Industrial Afonso Domingues (Marvila), no curso de serralharia mecânica (propinas mais baratas, manuais mais baratos, cinco anos apenas contra os 7 do liceu). Saído do curso empregou-se numa oficina de automóveis, depois foi trabalhar como serralheiro (manutenção) para o Hospital de São José, um ano depois conseguiu passar para funcionário dos serviços administrativo. Nas horas livres, que eram apenas à noite, frequentou metódica e disciplinadamente a Biblioteca Municipal Galveias (aberta até às 23 horas). Saía do hospital, passava por casa a jantar e dirigia-se a pé para a biblioteca. Foi esta a sua universidade, como dizia. Mesmo depois de casado, continuava a cumprir este ritual. O seu primeiro livro tivera-o aos doze anos e aos dezoito/dezanove contraiu um empréstimo de 300 escudos para comprar livros.

Com cerca de trinta anos, conheceu um senhor no Café Chiado que, vendo-o sempre a ler, o convidou para trabalhar numa editora, na vertente da produção, no contacto com as tipografias: a Editorial Estúdios Cor. Aqui trabalhou quase duas dezenas de anos, aqui começou a fazer traduções do francês (nas horas livres), aqui, como funcionário, conheceu escritores e professores de nomeada. Aos 25 anos, escreveu um romance, Terra do Pecado, de nulo sucesso. Depois outro, Clarabóia, para o qual nem conseguiu editora. Fracasso total. Só 20 anos depois publicará outro livro, agora de poesia, que teve algum relevo entre os literatos. Vinte anos a editar livros dos outros e nenhum próprio. Saramago passou a frequentar os círculos literários por via do seu trabalho como editor. No início da década de 70, a mudança de proprietário obriga-o a sair da editora. Fica sem trabalho e sem vencimento. Não desiste da escrita, pois outra coisa não sabia fazer. É convidado para escrever crónicas em jornais, e distingue-se. Em 1969, aderiu ao PCP (então na clandestinidade) e em 1975 torna-se director adjunto do maior jornal português, o Diário de Notícias, defendendo com empenho a “revolução socialista”. Com as alterações políticas do 25 de Novembro de 1975 é despedido e fica desempregado, passando a viver apenas de traduções, com escasso dinheiro. Não desiste. Isola-se no Alentejo, entre amigos de uma cooperativa agrícola, e aqui recolhe as informações que o levarão à escrita do seu primeiro romance premiado, Levantado do Chão (1980). Dois anos depois, novo romance, Memorial do Convento, que não só o tornará famoso em todo o mundo como o lançará na obtenção do Prémio Nobel dezasseis anos depois. 

Dito a frio, Saramago só conseguiu obter verdadeiro “sucesso profissional” em 1982, ou seja, aos 60 anos. E só com esta idade conseguiu ter algum rendimento disponível, que não o obrigasse a contar os tostões todos os meses. Antes, vivera de expedientes (a tradução) e vira-se por duas na rua, desempregado e sem dinheiro.

Que lição tirar? De menino pobre de Lisboa, condenado a enfileirar, no máximo, na pequena burguesia urbana, tornou-se um escritor com reconhecimento mundial. Teve sorte? Sim, teve-a, não fossem os conhecimentos adquiridos na Estúdios Cor talvez nunca passasse de um escritor mediano, como tantos que circulam entre jornais e editoras. Porém, Saramago soube render a pontinha de sorte com um impressionante nível cultural adquirido (que o diferencia logo dos restantes escritores) e uma fortíssima disciplina de trabalho: mesmo no auge do êxito do Nobel, com excepção do tempo passado em viagens, continuava a escrever duas páginas por dia. Aos 64 anos, depois de ter vivido com duas mulheres, conheceu finalmente o verdadeiro amor na figura de Pilar del Rio, que o acompanhou até à morte. Aos 71 anos comprou a sua primeira casa, a “Casa”, na ilha de Lanzarote, onde vivia desde 1993.

Que lição tirar? Desistir do que somos, do que sentimos como sendo a essência da nossa vida, o destino a que pensamos estar fadados (no caso de Saramago, a escrita ficcional)? – NUNCA!

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Miguel Real

Miguel Real, investigador do CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Europeias e Lusófonas da Universidade de Lisboa, publicou os romances Memórias de Branca Dias (2003), A Voz da Terra (2005), O Último Negreiro (2006), O Último Minuto na Vida de S. (2007), O Sal da Terra (2008), A Ministra (2009), As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia (2010), A Guerra dos Mascates (2011), O Feitiço da Índia (2012), A Cidade do Fim (2014), O Último Europeu (2015), O Deputado da Nação (em co-autoria com Manuel da Silva Ramos – 2016), Cadáveres às Costas (2018), e (em co-autoria com Filomena Oliveira) as peças de teatro Uma Família Portuguesa e Europa, Europa! (2016), e os ensaios Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em “Memorial do Convento” de José Saramago (1998), O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (2005), O Último Eça (2006), Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa (2007), Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (2008) e Padre António Vieira e a Cultura Portuguesa (2008), A Morte de Portugal (2007), Matias Aires. As Máscaras da Vaidade (2008), José Enes. Filosofia, Açores e Poesia (2009), Introdução à Cultura Portuguesa (2011), O Pensamento Português Contemporâneo. 1890 – 2010 (2011), Nova Teoria do Mal (2012), Romance Português Contemporâneo. 1950 – 2010 (2012), Nova Teoria da Felicidade (2013), Comentário a "Mensagem" de F. Pessoa (2013), Nova Teoria do Sebastianismo (2014), O Futuro da Religião (2014), Manifesto em Defesa de uma Morte Livre (2015), Portugal – Um País Parado no Meio do Caminho. 2000 – 2015 (2015), O Teatro na Cultura Portuguesa do Século XX (2016), Nova Teoria do Pecado (2017), Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (2017) e Fátima e a Cultura Portuguesa (2018). Recebeu o Prémio Revelação Ficção da As. Port. de Escritores; Prémio revelação de Ensaio da As. Port. de Escritores; Prémio Fernando Namora de Literatura; Prémio Ficção Ler/Círculo de Leitores; Prémio Ficção da Sociedade Portuguesa de Autores, Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Portuguesa de Críticos Literários e, em conjunto com Filomena Oliveira, o Grande Prémio de Teatro do Teatro Aberto e SPA.

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