Díli, 21 nov (Lusa) – Ilda da Conceição, filho a tiracolo e nas mãos uma G3 portuguesa, é uma das mais baixas da fila de 10 mulheres e um homem que, olhos no chão, marcham algures próximo de Viqueque, no leste de Timor-Leste.

Na altura em que a fotografia de cores esbatidas foi registada – hoje ilustra o período do cessar-fogo de 1983, na cronologia da exposição permanente do Arquivo e Museu da Resistência Timorense (AMRT), em Díli – Ilda da Conceição não era conhecida por esse nome.

Mulher de Reinaldo Freitas Belo, o comandante Kilik Uai Gai, a guerrilheira tinha outro nome, Lalo Imin, uma sigla que ainda hoje explica com firmeza: Independência ou Morte, Integração Nunca.

Entregou dois maridos à guerra – o primeiro desapareceu e o segundo foi baleado três vezes e morreu – mas 30 anos depois mantém o olhar e as convicções firmes, mesmo quando olha para si, mais jovem, “com 24 ou 25 anos”, na fila de guerrilheiras.

“O meu marido desapareceu, não sei se foi morto, em 1984. Um dia, perto de Cablaki, ele recebeu uma carta que dizia que tinha que ir para a ponta leste para uma reunião. Deixou-me com os filhos em Fatuberlio. Nunca mais o vi nem tive informações dele”, recorda.

“O tempo mais difícil foi quando estive no mato sozinha, com os meus filhos, depois do meu marido desaparecer. Não tinha apoio nem nada. Era uma situação muito difícil. Fui capturada em 1986, vim para a vila e estive presa quase três anos em Baucau”, recordou em conversa com a Lusa, à sombra da fotografia no AMRT.

“Quando saí da prisão foi também muito difícil porque não tinha mesmo nada para viver. Tive que ficar com os meus pais porque o meu segundo marido apanhou três balas e acabou por morrer também”, explica.

Com a filha e o filho “em idade de andar na escola”, Lalo Imin fazia o possível e o impossível, trabalhando em tudo um pouco para sustentar sozinha a família e conseguir ter as crianças a estudar.

Apanhou e vendeu pedras da ribeira, “cozia a noite toda”, dedicava-se a “fazer todo o tipo de trabalhos, de homens e de mulheres”.

A entrevista à Lusa foi organizada com o apoio da equipa do AMRT – hoje talvez o principal repositório de memória da luta timorense contra a ocupação indonésia e pela sua independência.

Três décadas depois dessa foto das guerrilheiras, a vida de Ilda da Conceição mudou. E os seus sacrifícios não foram esquecidos, permitindo-lhe dar mais apoio aos seus quatro filhos, dois de cada um dos maridos que perdeu para a guerra.

Lalo Imin foi administradora de Viqueque “durante um ano e pouco” depois da independência, vice-ministra da Administração Estatal até 2007 e, desde aí deputada da Fretilin no Parlamento Nacional.

Quando “começou a revolução” tinha 18 anos, “estava a frequentar o quinto ano do curso comercial” mas tornou-se logo “ativista que queria contribuir”. Estava de férias com a família na montanha quando houve a guerra civil e por ali ficou.

A sua história, como de tantas outras timorenses que lutaram pela independência, “não é esquecida”, com o papel das mulheres a ser reconhecido com as quotas nas várias estruturas do Estado.

“Eu acho que foi muito útil a nossa participação na revolução. Antes, em 1975 quando a Fretilin começou a existir, criou também a organização da mulher (OPTM). Dali é que começou como ensinar para depois as mulheres emanciparem-se”, disse.

“Antes as mulheres não tinham voz. Foi ali que começou, que as mulheres começaram a ter aquela coragem de se apresentar em público e a contribuir até nas decisões políticas”, explica.

Durante a entrevista o telefone de Ilda da Conceição toca duas vezes. A um mundo de distância daquela fotografia, acima da sua cabeça, onde Lalo Imin caminha, filho a tiracolo, com a cara encostada ao lado esquerdo do peito, a olhar na mesma direção para onde aponta a G3.

ASP // EL – Lusa/Fim

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