Quando de Ottawa me pediram para falar neste colóquio sobre o tema da língua portuguesa, fui logo acossado pela consciência de nada ter a dizer sobre a situação no Canadá, pois tudo o que sei, para além do que vou constatando em esporádicas visitas, é o que aprendo nos escritos de outros. Depois pensei que se calhar poderia partilhar algumas das minhas experiências obtidas ao longo dos meus 50 anos de vida nos EUA, na medida em que essas experiências poderiam de certo modo ajudar algum ouvinte a abrir perspetivas adotando ideias de possível aplicação no vosso país.

Por isso esta minha intervenção não terá nada de teórico, nem sequer de programático. Ela limitar-se-á a relatar em resumo experiências minhas diretamente relacionadas com o ensino da língua e estudos portugueses em universidades dos Estados Unidos, na esperança de que elas possam ter alguma utilidade.

Como o meu trabalho tem sido acima de tudo a nível universitário, se bem que não exclusivamente, limitar-me-ei a falar desse campo. No entanto, no tempo de diálogo com os ouvintes que se seguirá, poderei alargar um pouco mais a minha perspetiva.

Leciono há quase cinquenta anos na Brown University onde em 1975 foi criado um Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros, numa altura em que a Brown começava a interessar-se pela criação de centros interdisciplinares que quebrassem a rigidez dos departamentos e permitissem uma dinâmica colaborativa entre várias áreas de saberes. Vinte anos mais tarde, o Centro passou a Departamento, isso significando, da parte da Brown, a institucionalização de um campo correspondente a uma área geográfica imensa – intercontinental – propiciando a oferta de cursos sobre temáticas transversais. 

A criação deste Departamento, que já formou mais de 40 doutorados presentemente a lecionar, na sua grande maioria, em universidades dos EUA, só foi possível porque no Departamento de Inglês da Brown lecionava, desde os anos 60, um luso-americano que aprendera português em casa com os pais, emigrantes portugueses em Rhode Island, frequentara a Brown como aluno, e que, tendo ido passar um ano no Brasil como bolseiro da Fulbright, ali se sentiu em sua casa na língua portuguesa. Regressou à Brown decidido a dar tudo por tudo para criar um núcleo de Estudos Portugueses e Brasileiros, que hoje inclui também as culturas africanas de língua portuguesa.

A grande lição a tirar deste exemplo é simples: uma só pessoa pode fazer a diferença, desde que saiba rodear-se de colaboradores bem escolhidos. Foi isso que George Monteiro fez. Até me foi buscar a mim, que era então (a meados da década de 70)  aluno de pós-graduação em Filosofia, também na Brown.

A segunda lição é: devemos saber aproveitar oportunidades. Nesse caso específico da Brown, aproveitou-se a onda da interdisciplinaridade.

Mas há mais lições: o mundo lusófono não se reduz ao retângulo português. No caso da Brown, por exemplo, houve sempre abertura ao mundo açoriano, devido à forte presença açoriana resultante de uma mais do que secular emigração. Mas os estudantes americanos sentiam-se mais fascinados pelo Brasil por ser um país mais jovem, muito maior, imensamente criativo, sobretudo na música, e por isso muito atraente para lá se passar um semestre académico. A vertente brasileira do Centro iria pois ajudar bastante a aumentar o número de alunos permitindo-lhe ganhar mais peso junto da Administração da Universidade, já que os números contam muito, como todos sabemos. 

Embora a África das ex-colónias portuguesas tivesse sempre figurado na nossa oferta curricular, sobretudo através do estudo de Cabo Verde (também devido à presença da comunidade cabo-verdiana em Rhode Island e Massachusetts), com o crescente interesse atual da juventude universitária pela África, também a literatura africana em língua portuguesa passou a ser integrada no programa curricular, sendo mesmo obrigatória para os nossos doutorandos, que têm de fazer seminários nas três grandes áreas geográficas do mundo lusófono: Portugal, Brasil e África Lusófona.

Ainda outra lição, a terceira a tirar desta nossa experiência: fora do universo lusófono não iremos longe se não colaborarmos e atuarmos em conjunto. Quer dizer: são as outras áreas linguísticas, sobretudo a anglófona, que nos fazem olhar para nós próprios como uma área interligada pela grande rede de conexões que a língua permite. Mesmo que às vezes andemos em quezílias dividindo-nos dentro do universo lusófono, os francófonos e anglófonos tomam-nos como um todo e, por isso, temos de agir em conjunto pois em grupo somos bem mais fortes do que se atuarmos parcelarmente.

Uma vez institucionalizado e a produzir frutos, o nosso Departamento passou a servir de inspiração para outras universidades.

A University of Massachusetts Dartmouth, na altura Southeastern Massachusetts University, estava instalada no interior da maior concentração de portugueses na Nova Inglaterra – entre Fall River e New Bedford – e tinha a vantagem de ter matriculados centenas, a rondar quase um milhar, de alunos portugueses ou de ascendência portuguesa. Graças a um conjunto de esforços, a administração da universidade foi persuadida a reproduzir o modelo da Brown. Assim, pouco a pouco, após a criação de um outro Centro de Estudos Portugueses, este foi crescendo e alargando a sua oferta curricular graças à contratação de novos professores e, dali a alguns anos, foi também transformado em Departamento. Na justificação da candidatura a essa promoção, o caso da Brown foi de novo usado como exemplo de sucesso e foi explicado à Administração que o modelo seria idêntico.

Nova lição: a existência de um núcleo de Estudos Portugueses de sucesso pode ajudar à criação de outros. Mas irei mais longe: o aparecimento de um novo núcleo não deve ser tomado como foco de competição, mas antes encarado como fortalecimento do nosso campo de estudos.

Hoje, o Center for Portuguese Studies da U Mass Dartmouth tem uma excelente editora dedicada à publicação de livros de temática portuguesa e à tradução de obras literárias lusófonas – a Tagus Press – na qual eu mesmo colaboro a diversos níveis. O Departamento também publica a revista Portuguese Literary & Cultural Studies.

Tenho vários outros exemplos dos quais poderemos extrair ainda mais lições ditadas pela experiência. Por se tratar de informação sensível, contarei casos sem especificar as universidades em que se integram. Garanto, porém, a autenticidade da minha sintética narrativa.

Numa universidade situada numa área metropolitana onde existem muitos portugueses, a nossa língua era ensinada por um professor hispânico que o fazia por boa vontade. Contudo deixava os alunos luso-americanos imensamente insatisfeitos. Quando o Instituto Camões em Lisboa me perguntou onde nos EUA conviria investir oferecendo apoio aos Estudos Portugueses, sugeri essa universidade, avançando que seria importante o Instituto pedir contrapartidas. Então, nos bastidores, combinou-se que seria oferecido um Leitor de Português e a Universidade deveria contratar outro, pois o número de alunos justificava a existência de dois professores. Combinei com um amigo português, professor de Engenharia nessa universidade, que a melhor maneira seria criar uma comissão composta de membros representativos da comunidade portuguesa à qual caberia falar com o Reitor e apresentar a oferta do Instituto Camões. Assim foi feito. O Reitor ficou interessado pois incorporavam a comissão algumas figuras com peso económico (este fator pesa sempre muito), e prometeu que iria auscultar a Administração.  Trouxe então uma contraproposta: porque os alunos estavam muito interessados no Brasil, a contrapartida (o matching) da universidade seria a contratação de um professor de Literatura Brasileira. 

Saltarei etapas do processo, mas a Universidade acabou criando três lugares de Português, sendo apenas um deles pago pelo Instituto Camões. Um dos dois lugares criados pela Universidade foi de Literatura Brasileira.

A primeira ilação daqui é: os apoios de Portugal não devem ser dados a fundo perdido. Devem exigir contrapartidas.

Em segundo lugar: o apoio da comunidade é muito importante. Há que organizar as forças vivas das comunidades e fazer com que elas sejam ouvidas pelos poderes. 

Uma terceira ilação: há que ter bom senso e uma atitude flexível (capacidade de negociação através do compromising, que não é exatamente o nosso “compromisso”).

Quarta:   É preciso pensar com abertura de espírito e não com vistas tacanhas. A inclusão do Brasil é importante para ambos os lados, o português e o brasileiro.

Quinta: as universidades não gostam de sentir que outras universidades interferem na sua autonomia. Procurei sempre agir através da comunidade e das instituições portuguesas, mantendo-me apenas nos bastidores e não revelando o meu papel no processo de modo a não parecer como interferência de uma universidade noutra. 

Passemos a outro caso:

Numa outra universidade, noutro Estado onde há também uma grande comunidade portuguesa, apenas um professor lecionava português e limitava-se ao ensino da língua. Os alunos não tinham possibilidades de fazer cursos mais avançados.

Acontece que nesse Estado um político luso-americano era o Presidente do Comité de Finanças no Estado, a entidade que discutia e decidia sobre os orçamentos das universidades com os respetivos reitores. Contatei essa pessoa e disse-lhe: Você tem um poder enorme nas mãos. Negoceia milhões de dólares com os Reitores e pode muito bem perguntar: – Vejo que têm, nos Departamentos de Línguas, gente a ensinar Espanhol, Italiano, Francês, Russo, Chinês, e tantas outras línguas. Ora tendo este Estado uma comunidade portuguesa tão grande, por que razão não há nesses departamentos professores de Português?

Em pouco tempo estava criado mais um núcleo de Estudos Portugueses, agora nessa universidade.

Lição a tirar deste caso? Pode parecer um uso discutível da política, todavia a realidade é mesmo esta. Quem tem peso político tem grande influência nas decisões sobre orçamentos. Cada grupo procura assegurar os seus interesses e não há nada de desonesto quando se apela a que casos de injustiça sejam resolvidos com uma mais equitativa partilha do bolo. Não está certo que nas universidades se ensinem tantas línguas e se ignore uma das mais faladas no mundo, sobretudo quando nos estados onde funcionam há uma comunidade portuguesa significativa.

Contarei apenas mais um caso.

Aconteceu numa universidade onde uma professora de Português obtivera grande sucesso atraindo muitos alunos para as suas aulas. A Universidade não fica propriamente numa área onde há portugueses, mas trata-se de uma universidade estadual de prestígio que tem muitos alunos portugueses e luso-americanos no seu corpo discente. Os alunos e professores do Departamento tentaram por todos os meios ao seu dispor convencer o decano a institucionalizar o Português, mas sempre sem êxito.

O lugar dessa professora no Departamento de Línguas estava sujeito a contratação anual e a qualquer altura poderia ser eliminado. A professora estava insatisfeita com a situação e disposta a procurar uma posição noutra universidade caso não lhe fosse oferecido um lugar que lhe permitisse promoção na carreira (em inglês, uma tenure-track position).

Nesse estado, existe um senador luso-americano. Decidi contactá-lo para lhe expor a situação. Ele telefonou ao Reitor e, em poucos dias, foi criada a posição necessária.

O ensinamento a retirar deste caso é semelhante ao do anterior: nas universidades do Estado as figuras políticas têm muito poder de intervenção. As comunidades têm de fazer pressão junto dos políticos, fazendo-os sentir que o seu voto por eles dá legitimidade a que se lhes peça ou exija que lutem pelas nossas justas causas.  Mas a melhor maneira de conseguir isso não é necessariamente com protestos públicos, marchas de rua ou artigos nos jornais. Será pura e simplesmente fazendo uso dos canais do poder, recorrendo a documentação bem preparada, com boa fundamentação empírica e teórica, tudo em linguagem sucinta e direta. Por vezes, para a mensagem chegar aos poderes é preciso saber tocar os botões certos, as pessoas-chave.

Resumindo este arrazoado, eu ajuntaria uma lição final: não iremos a lado nenhum apenas com discursos verbosos nem com programas abstratos. Há que agir como num tabuleiro de xadrez. Examinar bem a posição das peças, ter ideias claras sobre os objetivos a atingir e mover as peças com inteligência, ponderação e cálculo, para que pouco a pouco os movimentos diversos se conjuguem de modo a permitirem pequenos avanços. E cada avanço é normalmente curto. Mas se fizerem parte de uma estratégia de visão alargada, aos poucos os pequenos avanços acabarão por trazer resultados amplos.

Claro que, por ter tido que resumir as minhas experiências em 15 minutos, não pude entrar em importantes pormenores para se entender devidamente cada caso. Isso, porém, não é tão importante como as lições que pretendi extrair das circunstâncias sucintamente descritas.

Hoje a situação dos Estudos Portugueses e Brasileiros nos Estados Unidos está bem longe daquela que conheci na década de 70. Felizmente também, a imagem de Portugal mudou imenso, o que, por outro lado, torna bem mais forte a nossa posição. Contudo, algo mudou igualmente no globo nestas últimas décadas e sobretudo nos últimos anos: no mundo anglófono cada vez mais se espalha a ideia de que o resto do planeta vai acabar falando inglês e, por isso torna-se desnecessário a um anglófono aprender outras línguas, pois todos os outros é que devem aprender inglês.

É preciso continuar a lutar para que essa antropofagia linguística anglo-americana não nos devore a todos. Há que ser resistente. Mas a nossa resistência não pode reduzir-se a discursos no 10 de junho, e agora no 5 de maio. Há que agir no quotidiano pensando e planeando a sangue frio e a longo prazo os objetivos que queremos alcançar, e estabelecendo as sucessivas etapas sobre as quais temos que nos concentrar. A poesia é bela e a língua portuguesa está cheia de criações de grandes poetas, no entanto depois das declamações celebratórias da língua há que passar aos dias prosaicos duma ação estrategicamente organizada e persistente.

Providence, 5 de maio de 2022

Onésimo T. Almeida

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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providemce, Rhode Island (EUA). Nessa mesma universidade é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, e O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão, na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown, Pessoa Plural e e-Journal of Portuguese History bem como a uma série de livros sobre temática lusófona na Sussex Academic Press, no Reino Unido. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.
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