São Tomé, 09 jul 2022 (Lusa) – Um retrato “fantasiado” do povo angolar vai transformar-se, em 2024, num espetáculo teatral que está a ser produzido pelo ator angolano Miguel Hurst, como forma de homenagear este grupo populacional de São Tomé e Príncipe.

O projeto vai ser desenvolvido ao longo de três anos, alternando três meses de estadia no arquipélago em cada ano, no decurso dos quais vai sendo escrita a peça “Sereia de Anguéné e o segredo da Lagaia” que retrata a realidade “fantasiada” do povo angolar e que será interpretada por atores locais.

O elenco é composto por sete jovens são-tomenses com idades entre os 18 e os 25 anos, selecionados em comunidades angolares, que não são atores profissionais mas estão a ter formação nas artes performativas.

Miguel Hurst que esteve em São Tomé e Príncipe numa residência artística e foi o diretor artístico da IX Bienal de São Tomé, promovida por João Carlos Silva, disse à Lusa que a peça de teatro inspirada na história da sereia de Anguéné, será apresentada em 2024.

“Vai ser uma fábula em que o personagem principal vai ser uma sereia. Tem muito a ver com o mar e a floresta, que estão muito interligados e com a história do povo angolar, os seus hábitos de pesca e a apanha do peixe voador. A ideia é falar um pouco sobre este povo misterioso de que se desconhece a origem”, explicou.

Os angolares são um grupo populacional do sul de São Tomé e Príncipe, considerado distinto em termos linguísticos e socioculturais com uma população estimada de cerca de 10 mil pessoas.

A origem do povo não está inteiramente estabelecida. Uma das hipóteses aponta para que sejam descendentes dos sobreviventes de um navio de escravos vindo de Angola e que terá naufragado junto da ilha em meados do século XVI, outra teoria diz que eram escravos trazidos pelos portugueses e que terão fugido, enquanto uma terceira defende que seriam autóctones.

 “Este mistério atraiu-me. Não é a primeira vez que cá estou, e desta vez decidi homenagear a cultura angolar”, afirmou Miguel Hurst, que espera assim poder elevar o conhecimento sobre esta cultura noutros países lusófonos.

“Um dos objetivos é dar a conhecer ao mundo a cultura angolar, quem sabe se esta peça viajará depois, quando montamos um projeto de teatro ambicionamos ultrapassar as fronteiras de São Tomé e ir a outros países lusófonos. Há muitos festivais onde espero vir a mostrar esta peça”, disse o encenador e ator, agora também dramaturgo.

A homenagem é também “ao grande escritor santomense, Fernando Macedo, que escreveu o livro de poemas Anguéné, que é o nome angolar para a vila dos angolares”, acrescentou.

A Sereia de Anguéné só irá à cena daqui a dois anos, mas até lá há muito trabalho a fazer com o grupo de jovens formandos, sem experiência anterior no mundo do teatro, e com quem Miguel Hurst tem estado a fazer trabalhos de leitura, interpretação e levantamento de texto.

O ator, de ascendência angolana e guineense, diz que já descobriu “talento” a sério e quer criar núcleos autónomos que perdurem além da peça, formando um grupo de teatro em São João dos Angolares, roça turística que se tornou conhecida por servir de cenário ao programa “Na roça com os tachos” de João Carlos Silva.

“Já nos conhecemos há 25 anos e depois de três projetos feitos cá em São Tomé e Príncipe, surgiu entretanto, esta vontade de colaborarmos e trabalhar juntos e fazer algo por esta comunidade, dando origem a uma escola de formação artística para criar o grupo de teatro de São João dos Angolares”, sublinhou Miguel Hurst.

Roça São João dos Angolares

RCR // VM – Lusa/Fim

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