Centenário de Noémia de Sousa em destaque na Feira do Livro de Maputo (C/ÁUDIO)

O artista moçambicano Bruno Mateus, conhecido como Shot.B, posa junto ao mural dedicado à Noémia de Sousa no bairro da Mafalala, em Maputo, Moçambique, 31 de agosto de 2026. Cem anos após ter nascido, nem o mural com o rosto aviva a memória dos residentes da Mafalala, em Maputo, onde a poeta e jornalista Noémia de Sousa cresceu, entre pedidos de iniciativas para manter vivo o legado. LINA CEBOLA/LUSA.


Maputo, 21 out 2026 (Lusa) – Noémia de Sousa é a figura central da Feira do Livro de Maputo, que começa esta quinta-feira, assinalando o centenário da escritora moçambicana e promovendo a sua obra junto de novos leitores, num evento que conta 15 expositores.

Organizada pelo Conselho Municipal da Cidade de Maputo, a feira tem como lema “Se Me Quiseres Conhecer, Vem Sonhar com o Livro”, inspirado na poesia de Noémia de Sousa, no ano em que se assinala o centenário do nascimento da escritora, considerada uma das principais referências da literatura moçambicana.

A edição de 2026 decorre até sábado, no Jardim Tunduro, centro de Maputo, e homenageia também o poeta e escritor Luís Carlos Patraquim.

Em entrevista à Lusa, o curador do evento, José dos Remédios, afirmou que a escolha de Noémia de Sousa pretende reconhecer a contribuição da escritora para a literatura moçambicana e aproximar a sua obra das novas gerações.

“Noémia de Sousa é uma das primeiras grandes vozes da literatura moçambicana e africana”, afirmou o curador, destacando a influência da autora, que foi também jornalista da agência Lusa, na construção de uma identidade literária nacional e a atualidade dos temas abordados nos seus poemas, apesar de a maior parte da sua produção se concentrar entre 1948 e 1951.

A programação inclui exposições de livros, mesas-redondas sobre a atualidade da obra da escritora, um concurso de ensaio centrado na coletânea “Sangue Negro” e um concurso de música que desafia os participantes a transformar poemas da autora em canções. Estão igualmente previstos momentos de declamação e interpretação musical de poesia.

Segundo José dos Remédios, a feira pretende dar maior visibilidade à obra da escritora, sobretudo entre os jovens, através de atividades que estimulem a leitura e novas interpretações dos seus textos.

“A Feira do Livro deste ano é, em primeiro lugar, uma plataforma para justamente fazer o que esta pergunta de alguma forma propõe”, disse, referindo-se à promoção e divulgação da obra de Noémia de Sousa.

A coletânea “Sangue Negro”, publicada em 2001, estará em exposição e poderá ser adquirida durante o evento, embora existam poucos exemplares disponíveis em Moçambique.

A feira contará também com uma biografia literária da escritora, recentemente publicada por Nelson Saúte.

Nascida a 20 de setembro de 1926, na Catembe, atual cidade de Maputo, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, conhecida como Noémia de Sousa, é considerada uma das pioneiras da poesia moçambicana. A sua escrita abordou temas como a liberdade, a identidade e a resistência ao colonialismo, tornando-se uma referência para várias gerações de escritores e do jornalismo, tendo exercido também na agência Lusa.

Apesar de ter produzido a maior parte da sua obra entre 1948 e 1951, os seus textos circularam inicialmente em jornais e revistas e foram reunidos na coletânea “Sangue Negro”, publicada em 2001. A escritora morreu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.

A organização da feira do livro confirmou, até ao momento, 15 expositores e outros tantos espaços para exposição de livros, incluindo obras da autora.

Portugal e Ucrânia estão entre os países com participação confirmada.

Uma autora ligada ao programa de residência literária Lisboa-Maputo orientará uma oficina de produção de textos para crianças.

“Esperamos conseguir atrair novos públicos, esperamos atrair novo público leitor fundamentalmente”, afirmou José dos Remédios, acrescentando que a feira pretende promover o contacto entre leitores e autores e estimular o diálogo entre a literatura e outras áreas do conhecimento.

O curador defendeu ainda que a literatura deve contribuir para o desenvolvimento cultural e intelectual dos munícipes, criando oportunidades de contacto com escritores e de participação em atividades artísticas.

“A literatura não existe isolada numa sociedade”, afirmou, salientando a importância do diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.

EYMZ // ANP – Lusa/Fim

Noémia de Sousa/100 anos: Escritor moçambicano destaca papel pioneiro da poeta

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