Brasília, 13 jun 2022 (Lusa) – O presidente da Comissão Especial Curadora do Senado para o Bicentenário da Independência do Brasil considera que o país é “síntese do império colonial português” e que se tornou “a mais portuguesa de todas as nações”.

“O império colonial português se abriu pelo mundo, vocês tomaram conta do Atlântico, tornaram-se a grande nação marítima dos séculos XV, XVI e XVII, as poesias de Camões retratam as epopeias que vocês fizeram”, começa por explicar, em entrevista à Lusa, em Brasília, o senador Randolfe Rodrigues.

Ainda assim, sublinhou, foi o Brasil que se tornou “a mais portuguesa de todas as nações” e “a síntese do império colonial português”, considerou o responsável pelas celebrações da independência do Brasil.

Na opinião de Randolfe Rodrigues, “a Lusofonia, foi no Brasil que se processou, não foi em Macau, não foi em Timor-Leste, não foi em Moçambique, não foi em Angola, não foi na Guiné-Bissau, não foi em Cabo Verde, foi aqui, em que a mistura da obra do império colonial português se processou e se concretizou”.

Para além dos muitos descendentes de portugueses e de europeus, o Brasil foi o país do mundo que recebeu mais escravos das colónias africanas. Os cálculos mais conservadores apontam para mais de quatro milhões entre o século XVI e meados do século XIX.

“Foi essa mistura que forjou o povo brasileiro”, afirmou.

Entre as várias comemorações que estão programadas, haverá uma na sessão solene no dia 08 de setembro de 2022, no Congresso brasileiro, para assinalar os dois séculos da independência do Brasil, no qual, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva já confirmaram presença.

Mas os convidados não se ficam por aí: o Senado brasileiro fez questão de convidar todos os países de língua oficial portuguesa.

“Porque nesses representantes tem um pouco da brasilidade”, sublinhou o senador, acrescentando que “quando tiveram aqui os representantes de Angola, Governo de Moçambique, Governo da Guiné-Bissau, há muito de Brasil aí”.

Quanto ao convite às autoridades portuguesas, não apenas para participarem na sessão solene, mas também para estarem presentes e contribuírem para as comemorações ao longo do ano, esse facto deve-se, considerou, devido à singularidade do processo de independência do Brasil.

“Temos um processo de independência muito singular. Acho que entre todas as nações que se emanciparam da sua metrópole talvez só o Brasil consiga fazer a aproximação desses laços que tem com Portugal”, convidando “a antiga metrópole para participar nas celebrações da independência”, explicou Randolfe Rodrigues.

No período que antecedeu ao famoso grito, no dia 07 de setembro de 1822, “Independência ou morte!” às margens do Rio Ipiranga, houve vários projetos de independência diferentes que podiam ter mudado a história e os laços com Portugal.

Mas, a tese vencedora foi um “modelo de rutura em que mantivesse os laços monárquicos de Portugal a partir da continuação de uma monarquia hereditária a partir do príncipe herdeiro regente da coroa portuguesa”, lembrou o senador.

“Apesar de termos feito uma rutura, uma separação com Portugal, mantivemos vários laços com os portugueses”, reforçou Randolfe Rodrigues.

O senador não tem dúvidas de que a unidade territorial brasileira, o quarto maior território do planeta, ao contrário do que aconteceu com as colónias espanholas na América do Sul, só foi possível devido à vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro durante as invasões napoleónicas, devido ao singular processo de independência e à “força da espada portuguesa”.

“O facto da inteligência, da esperteza, de D. João VI (o príncipe regente) de ter transitado a sede do reino para cá e ter constituído aqui um reino unido foi fundamental”, disse, referindo-se à esquadra portuguesa com o príncipe regente que aportou em Salvador, em 22 de janeiro de 1808, para mais tarde instituir a cidade do Rio de Janeiro como capital do império português.

“A gente deve agradecer muito ao expansionismo napoleónico”, disse, entre sorrisos, o senador brasileiro.

Em sentido inverso, o lado espanhol na América do Sul acabou por se desagregar porque a Espanha é ocupada pelas tropas napoleónicas, considerou Randolfe Rodrigues.

“Disputa sobre o reino espanhol deixa um legado aqui de desagregação do império espanhol (…) e o resultado disso é a separação”, afirmou, acrescentando que “se isso tivesse acontecido nós não teríamos um Brasil, teríamos vários ‘Brasis'”

“Até à chegada do D. João VI aqui em 1808 nós não tínhamos unidade entre o império colonial português” e as localidades brasileiras, frisou.

MIM // PJA – Lusa/Fim

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