Saudação

Fazer uma moção para a segunda conferência da organização das mulheres de Cabo Verde (OMCV) a decorrer nesta capital Praia seria tarefa fácil. Bastar-nos-ia adaptar as palavras recentemente proferidas pelo Presidente da República Aristides Pereira e desejar que a OM seja também um instrumento activo na formação de mulheres “inconformistas, confiantes no futuro e preocupadas permanentemente com a busca de solução para os problemas da sociedade. Mulheres que negam a rotina, a superficialidade, a mediocridade e a mentalidade servil”.

Dizer isto é o mesmo que afirmar que a OMCV deverá ousar contribuir para a formação de mulheres conscientes dos seus direitos e deveres, do seu papel na sociedade, competentes, responsáveis e dispostas a lutarem para sua realização pessoal e profissional, que vivam a vida nas suas alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Mulheres que tenham um sentido gregário da existência e se preocupem com o que se passa ao seu lado, na sua comunidade, no seu país.  Para poderem dizer sim, com conhecimento e objectividade, e dizer não quando for de dizer não. Para poder sugerir, dar opinião, fazer e participar. Na certeza de que a terra é de todos e ela só será aquilo que todos fizermos dela. E que ninguém deve renunciar, alienar ou desistir da sua voz neste projecto nacional de construção do país, pois só com a contribuição de todos o país será viável !

Esse é um dos papéis a ser assumido pela OMCV: depois de agitar a sociedade cabo-verdiana com as ideias da emancipação da mulher, a organização deve ajudar a criar condições para que essa mesma mulher possa, conscientemente, participar e se torne cada vez mais apta e capaz. Na verdade, é isso que auguramos a segunda conferência da OMCV. 

Mulheres cabo-verdianas a caminho do mercado na Cidade da Praia, a 17 de Fevereiro de 2007. OMAR CAMILO / LUSA

Permito-me, contudo, em jeito de saudação a todas as mulheres de Cabo Verde, traduzir livremente as palavras de Eldrige Cleaver no livro “Un noir à l’ombre” dedicadas “a mulher africana no dia do reencontro”, sem dúvida das mais belas que já ouvimos dedicadas à mulher:

“Rainha Mãe. Mulher d’Africa 

Irmã da minha alma

Esposa da minha paixão

Meu eterno amor”

“Eu te saúdo com a minha voz, a voz do homem negro. E ainda que te saúde agora, a minha saudação não é nova, mas tão antiga como o sol, a lua e as estrelas. E a minha saudação não testemunho de recomeço, significa tão somente o meu regresso. Para além do abismo desvendado da nossa dignidade, encontramo-nos hoje em face um do outro. O passado minha irmã é um espelho omnisciente. Nós observamo-lo para nele encontrar cada um o seu reflexo e o reflexo do outro. O que nós fomos, o que somos hoje, os caminhos que seguimos e os que estamos a fim de seguir”.

Esta é a saudação que também quero fazer, acho que para todos nós homens e mulheres: juntos vamos olhar o passado, apreciar o caminho percorrido e recobrar forças para prosseguir na senda da dignidade conquistada…    

Revista Mujer, março de 1985.

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Vera Duarte

Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina nasceu em Mindelo, S. Vicente, Cabo Verde. É Juíza Desembargadora, poeta e escritora, formada em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Membro das Academias Cabo-verdiana de Letras, de Ciências de Lisboa, Gloriense de Letras. Foi Ministra de Educação Ensino Superior, Presidente Comissão Nacional Direitos Humanos e Cidadania, Conselheira do Presidente da República e Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça. Integrou organizações como Centro Norte-Sul Conselho d`Europa, Comissão Internacional Juristas, Comissão Africana Direitos do Homem e Povos, Associação Mulheres Juristas e Federação Internacional de Mulheres de Carreira Jurídica. Recebeu várias condecorações É poeta e autora de vários romances.
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