A ideia “não é um combate em relação à língua inglesa, mas se aceitarmos a hegemonia do inglês que nos venha a expor de um certo modo a sermos ‘anglicizados’ na nossa estrutura mentais. Estamos a caminhar para um pensamento único” através de “uma parca lista de 1.500 palavras” que compõe o léxico inglês, disse em entrevista à Lusa a docente daquela universidade francesa.

Há dias, a linguista publicou um artigo na página do Instituto Internacional de Língua Portuguesa em que lança um repto aos cidadãos e governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para se tornarem “insurrectos linguísticos, cientes de que, a par de outras línguas, a língua portuguesa se pode afirmar como uma língua científica, técnica, económica, financeira, jurídica, e que tem vocação para ser uma língua de transmissão de conhecimentos e de produção de material de referência, uma língua profissionalizante, uma língua da sociedade da informação, uma língua de criação artística e cultural”.

“Será coerente denunciar as tendências da economia e das finanças na era da mundialização e aceitar, resignadamente, o uso de uma única língua da economia e das finanças? Será coerente denunciar a falta de democracia nas organizações internacionais e nas relações internacionais e, resignadamente, investigar, trabalhar e negociar em uma única Língua, que uns dominarão sempre mais do que outros?”, questionou no artigo.

Falando hoje à Lusa, a docente lembrou que “uma ciência democrática não pode ser monolinguística”, por isso, se os países da CPLP quiserem “construir uma cidadania lusófona também tem que ser graças ao desenvolvimento da compreensão linguística e cultural”.

No texto de opinião, Isabelle Oliveira lembra que também “em ciência é necessário proteger e fomentar as diversidades de pensamento, de concepções, de imaginário cultural e, nesse aspecto, nada as favorece tanto quanto a diversidade linguística”.

Nas declarações à Lusa, sustentou aquela opinião, afirmando: “como temos uma língua em comum podemos, perfeitamente, criar uma rede mundial de investigação, criando também material de referência, porque há uma grande lacuna na vertente técnico-científica”

“Falamos muito em termos de números: o português é a quinta língua mais falada no mundo, a terceira na Europa e a quarta utilizada no mundo virtual. E, na prática, ela não é vista como ativo que acrescenta valor apesar de ser uma língua global. E é possível ela funcionar como importante meio estratégico de afirmação lusófona em termos científicos”, afirmou.

Para Isabelle Oliveira, “o palco da lusofonia pode ter exatamente este mesmo olhar, se houver uma real vontade política para reconquistar a língua portuguesa na sua plenitude”, pois “é possível proteger e fomentar a diversidade cultural e linguística”.

“Eu acho que não é possível expressar toda a nossa riqueza e diversidade do nosso pensamento, as nossas concepções do mundo, mesmo dentro da ciência, se, simplesmente, não dominarmos a língua”.

Isabelle Oliveira considera que”em Portugal nunca houve realmente uma vontade de construção de uma política da língua”, até porque “não houve até hoje um trabalho nesse sentido”.

“Aliás, não se entende como é que ainda hoje não exista um Ministério ou uma Secretaria de Estado dedicada à lusofonia como existe na França. Não é suficiente ter apenas instituições como o Instituto Camões”, afirmou.

Mas, assinalou, “a lusofonia também é um espaço em plena expansão económica e demográfica. Se calhar é necessário fazer ou um esforço, simplesmente, a nível do sistema educativo, tanto na CPLP, quanto na aprendizagem do português como língua estrangeira”.

MMT // EL – Lusa/Fim

Foto: Profª Doutora Isabelle de Oliveira, Universidade da Sorbonne Nouvelle

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