Pessoa e Islão

Pessoa e Islão – Agradeço do coração ao grande historiador e querido amigo Professor João Gouveia Monteiro (Universidade de Coimbra) pelo artigo que dedicou no Diário de Coimbra ao livro Fernando Pessoa, «O Sábio Árabe», que editei pela Shantarin e foi apresentado no FÓLIO por ambos, juntamente com a escritora Maria João Cantinho

Fabrizio Boscaglia

Fabrizio Boscaglia

(Agradecendo ao João Gouveia Monteiro pela partilha:)
O livro organizado por Fabrizio Boscaglia realça a pegada islâmica na península ibérica. Num dos textos selecionados, o escritor fictício António Mora (filósofo neopagão, um dos ‘heterónimos’ de Pessoa) escreve: «Não há profundo movimento português que não seja um movimento árabe, porque a alma árabe é o fundo da alma portuguesa».
Esta tese enquadra-se na ideia de que os povos ibéricos, mais do que «latinos» são «romano-árabes». Para Pessoa (ou Mora), «o árabe observava, mas à observação acrescentava a imaginação». Além disso, foi em grande parte graças à cultura islâmica que o Ocidente redescobriu a cultura helénica, a começar por Aristóteles.
A ideia transparece numa outra peça editada no livro: o «Conto Filosófico», escrito em inglês quando Pessoa tinha 18 anos. Um sábio árabe fictício chamado Al-Cossar procura educar um jovem desafiante: «Fala-me de Deus e do Mundo, da alma, da matéria e do espírito, desvenda-me aquilo que a tua mente elaborou do pensamento profundo do Estagirita [Aristóteles], que tu conheceste bem».
Esta abordagem evoca a dimensão integradora da cultura islâmica na Hispânia. Algo que a experiência do Campo Arqueológico de Mértola (vénia a Cláudio Torres!) tem comprovado. Pessoa sabia que a multiculturalidade tolerante enriquece e, tal como Antero (outro «poeta pensador»), apercebeu-se dos efeitos nocivos da expulsão de judeus e mouros da península.
O diálogo de Pessoa com o Islão deteta-se ainda na paixão por dois autores do século XI: o persa Omar Khayyam, poeta, filósofo e cientista, provavelmente sufi (místico), autor das «Rubaiyat» (que Pessoa replicou ao escrever c. 180 quadras que dialogam com Ricardo Reis e com o «Livro do Desassossego»); e o rei de Silves, al-Mu´tamid, poeta notável (traduzido por Adalberto Alves, que assina o Prólogo) e a quem Pessoa, com o seu amigo Ferreira Gomes, consagrou dois artigos.
Deixem-me dedicar esta crónica à memória do Professor António Borges Coelho (1928-2025), resistente antifascista e grande historiador, autor da seminal obra «Portugal na Espanha Árabe» (4 vols., 1972-1975), além de poeta e homem de vastíssima cultura e múltiplos afetos. Como ele teria gostado de saborear este livro de Fabrizio Boscaglia!
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