Díli, 19 jun 2022 (Lusa) – O ex-presidente timorense Xanana Gusmão disse hoje que vai à Conferência dos Oceanos, em Lisboa, solicitar apoio para a criação na ilha de Ataúro de um centro internacional de preservação da vida marinha e da biodiversidade.

“A mensagem para Lisboa é a de que estamos a tentar ver se conseguimos avançar com um plano de estabelecimento de um centro de preservação da vida marinha e da biodiversidade em Ataúro”, disse Xanana Gusmão, em declarações à Lusa.

“A ilha de Ataúro está cercada por uma riqueza em termos de biodiversidade, 70% da biodiversidade do mundo está ali e bem conservada. Ali e ao longo de toda a costa norte até Jaco”, frisou.

Xanana Gusmão partiu hoje de Díli para a Europa – tem paragens previstas em Bruxelas, Londres e Lisboa -, para representar Timor-Leste na Conferência dos Oceanos, iniciativa das Nações Unidas, com o apoio dos governos de Portugal e do Quénia, que decorre no final deste mês na capital portuguesa.

“Se querem realmente ter uma política de preservação do mar, por favor atuem de forma concreta. Vamos à ação concreta, planos bem formulados e não apenas articulados da legislação, para nos virem ensinar, ou só consultores técnicos”, disse.

Xanana Gusmão vincou mensagens recentes, incluindo as que deixou na “Dili Blue Talk”, coorganizada pela Embaixada de Portugal e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e onde foi o principal orador.

Um apelo a “investimentos inteligentes” e adaptados à realidade local para reforçar o desenvolvimento da economia azul em Estados insulares como Timor-Leste, o que exige, disse, “um compromisso sério, sobretudo das nações mais ricas, com mais recursos financeiros e capacidades técnicas e científicas, mas também as que mais têm vindo a castigar” os oceanos.

“O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres disse: ‘tragam planos e não discursos’. Eu acrescento: tragam programas práticos e exequíveis e não apenas articulados de legislação internacional”, afirmou.

Em termos regionais, Xanana Gusmão vincou a necessidade de reforçar a cooperação com as vizinhas indonésia e Austrália, para responder de forma integrada contra a pesca ilegal e, em particular para “trabalharem para evitar a morte de golfinhos e baleias”.

“Não olhamos para esta questão apenas como oportunidades para o setor do turismo, olhamos mais para a questão da preservação da vida marinha e biodiversidade”, disse.

Xanana Gusmão referiu-se às responsabilidades internacionais em adotar medidas concretas, tendo em conta em particular situações em países frágeis e em desenvolvimento.

“Estamos a ver a guerra da Ucrânia, olhamos para aquele desastre e ficamos a chorar. Mas choramos por dentro ainda com mais lágrimas quando olhamos para trás, para este povo a que ninguém ligou”, disse, recordando a história de ocupação do país.

“E depois, dentro do G7+, vemos países em conflitos, ignorados, com armas de países do Ocidente”, afirmou.

Timor-Leste, relembrou, é um dos 38 pequenos Estados-ilha em desenvolvimento, é uma nação resiliente, mas quando as alterações climáticas ameaçam o país é preciso “encontrar estratégias urgentes para proteger o oceano e a sua biodiversidade, apostando em alianças genuínas”.

“Este elo que nos une, de maritimidade e desafios comuns, tem de ser ouvido na comunidade internacional”, afirmou.

“É incompreensível que não haja uma resposta internacional mais vigorosa e unânime para mitigar as alterações climáticas que comprometem não só a agenda global de desenvolvimento, mas a segurança de milhões de pessoas”, sublinhou.

Xanana Gusmão disse que Timor-Leste tem a vantagem de ser “um quadro em branco, ou neste caso um quadro azul”, podendo “implementar uma economia azul que contribua para o desenvolvimento das comunidades atuais e futuras, a partir do zero”.

“Podemos impulsionar o crescimento económico, a criação de emprego e a segurança alimentar, através de uma atividade económica equilibrada que dê a capacidade aos ecossistemas oceânicos para se regenerarem, protegendo e conservando os mares e o oceano”, disse Xanana Gusmão, que é também responsável da equipa de negociações do Conselho para a Delimitação das Fronteiras.

ASP // JH – Lusa/Fim

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