O ponto de partida deste relatório radica na preocupação relativa aos efeitos sobre a diversidade linguística de certas condicionantes estruturais da ciência contemporânea no espaço ibero-americano.

A questão da relação entre as línguas e a ciência afeta todo o ciclo científico, desde a produção à publicação e por fim à divulgação e aplicação do conhecimento científico, ou seja, as necessidades comunicativas da ciência não se limitam à divulgação dos resultados, mas também à formação ou à disseminação.

O ponto de partida deste relatório radica na preocupação relativa aos efeitos sobre a diversidade linguística de certas condicionantes estruturais da ciência contemporânea no espaço ibero-americano.

Este relatório é o resultado de um trabalho realizado conjuntamente pela Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) e pelo Real Instituto Elcano ao longo do ano 2021, com base num processo de consulta com atores relevantes neste domínio, na esfera ibero-americana, e realizado no âmbito do projeto Ciência Plurilingue da OEI.

DOCUMENTOS

Qual é o futuro do espanhol e do português como línguas da ciência? Embora mais de 850 milhões de pessoas em quatro continentes falem português ou espanhol – 11% da população mundial – apenas 1% da produção científica indexada globalmente é publicada nestas duas línguas. Além disso, 97% dos cientistas portugueses, 88% dos cientistas mexicanos e brasileiros, 87% dos cientistas espanhóis e 80% dos cientistas colombianos, argentinos ou peruanos publicam em inglês.

Quando, há algum tempo, investigadores da Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) e do Instituto Real Elcano começaram a conceber este relatório sobre a diversidade linguística na ciência, a questão que estávamos a tentar responder ia para além da mera estatística. Todos nós intuímos que a hegemonia do inglês como língua veículo de ciência é esmagadora: 95% do trabalho científico do mundo é escrito em inglês.

Mas também todos sabemos que é precisamente esta externalidade da rede do inglês derivada do estatuto do inglês como língua franca do conhecimento que favorece os avanços do conhecimento baseado no método científico.

É por isso que este relatório não propõe erguer barreiras que protejam as nossas línguas e balcanizem geograficamente as disciplinas científicas, mas, pelo contrário, políticas ativas para remover os obstáculos que impedem todos os membros da sociedade de aceder ao conhecimento.

Lamento protecionista à parte, este Relatório levanta questões com subtis dimensões culturais, económicas, políticas e morais capazes de condicionar os futuros possíveis das nossas sociedades.

Os economistas sabem que nada é grátis. Certamente não o é a produção científica. Gerar conhecimento é dispendioso, requer formação de capital humano, criação de laboratórios, mecanismos de recolha de dados, criação de infraestruturas de cooperação e divulgação e, acima de tudo, requer tempo. Muito tempo. Se acrescentarmos a tudo isto o facto de que o conhecimento tem muitas das características dos bens públicos, podemos compreender melhor porque é que os Governos da maioria dos países do mundo disponibilizam recursos para financiar a investigação científica e o desenvolvimento.

No entanto, o dinheiro dos impostos de todos os cidadãos destina-se a pagar o trabalho dos cientistas que, para continuarem a progredir nos seus campos, devem publicar nas melhores revistas, a maioria das quais são propriedade de um pequeno número de grupos editoriais. Publicar nestas revistas não é apenas uma questão de colaboração científica global, mas de estatuto e de incentivos. O potencial risco é que também possa ser um mecanismo de segregação e homogeneização de possíveis visões do mundo. Em suma, pode ter a consequência não intencional de empobrecer a diversidade científica e cultural.

Há também uma dimensão política e social que não se pode perder de vista: os grupos editoriais das revistas mais conceituadas para permitir o acesso aos seus trabalhos cobram elevadas – por vezes exorbitantes – somas aos sistemas nacionais. Em certa medida, para os contribuintes, os frutos dos seus impostos estão por detrás da Paywall.

A proposta do Relatório é avançar para um sistema aberto de acesso ao conhecimento apoiado por políticas de promoção da diversidade linguística. Tornar todo o conhecimento produzido pelas instituições públicas disponível nas suas próprias línguas é um desafio formidável e uma dificuldade económica evidente numa região onde o investimento na ciência ainda é insuficiente. Mas o esforço é essencial. Se há 150 anos atrás cometemos um erro como sociedade com “deixa-os inventar!”, agora não devemos persistir no erro com “deixa-os publicar! Deixa-os ler! O conhecimento deve ser de todos e para todos.

José Juan Ruiz

Presidente do Real Instituto Elcano

Este trabalho resulta do Acordo de Colaboração entre a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI) e o Real Instituto Elcano. Pode descarregar o pdf aqui.

Fonte: Associação Portuguesa de Professores de Espanhol Língua Estrangeira

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