Barrancos pretende elevar o Barranquenho a 3ª Língua oficial em Portugal Ler o artigo

Apresentação

Maria Filomena Gonçalves e María Victoria Navas Sánchez-Élez

Os textos que agora vêm a lume são fruto de muitos anos de dedicação de várias pessoas e entidades que, do ponto de vista científico e político, se têm ocupado da língua, a história, a geografia, a literatura, o folclore e a antropologia, de Noudar, Barrancos e as suas gentes.

Conhecemos as primeiras publicações de finais do século XIX, as do século XX, e, também, as mais abundantes e com títulos variados, do século XXI, período de verdadeira explosão de investigações universitárias, nacionais e internacionais, que tratam de várias temáticas. Para se chegar aqui, tanto as administrações académicas como as políticas deram muitos passos. Assim, recordem-se os trabalhos de campo dos investigadores do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, nos anos oitenta, para o Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza, o Encontro Regional de Lisboa da APL dedicado ao Professor Lindley Cintra, assim como a publicação de alguns títulos na mesma década. Nos anos noventa, nota-se um significativo aumento de publicações acerca da língua, da cultura, da antropologia, da história e dos costumes. São bem conhecidos do público em geral alguns aspetos relativos à tradição das corridas de touros à espanhola, pois receberam interesse jornalístico a finais do século passado e inícios deste.

São sem dúvida abundantes os trabalhos sobre Barrancos no século XXI. A própria comunidade inaugurou em 2007, o Museu Municipal de Arqueologia e Etnografia. Um ano antes, a Universidade de Évora criara um Mestrado Estudos Ibéricos, cujo plano de estudos incluía um seminário sobre Falares Fronteiriços. Em 2008, deram-se dois acontecimentos significativos, um de cariz universitário − a realização da I Jornada de Falares Fronteiriços, na Universidade de Évora − e outro, de tipo político e administrativo, a aprovação do Barranquenho, como Património Imaterial pela Municipal Câmara de Barrancos. Nos anos seguintes, continuam as atividades académicas como, em 2010, a publicação de um CDrom, no âmbito do Programa Operacional do Alentejo (2007-2013), contendo a gravação de entrevistas a falantes de Barrancos, que tratam de aspetos relativos à flora e costumes barranquenhos, e, em 2011, a organização do I Seminário Internacional de Investigação Linguística, no quadro do projeto Falares Fronteiriços: o Barranquenho. Na sequência deste, criou- 10 O BARRANQUENHO COMO LÍNGUA DE CONTACTO … -se o projeto Preservação e Valorização do Barranquenho (2011-2015) que, no contexto das iniciativas da Associação Rota do Guadiana, PRODER, pretendia dinamizar vários aspetos da língua e cultura barranquenhas, numa parceria entre a Câmara de Barrancos, o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, a Universidade Complutense de Madrid e a Universidade de Évora. Este projeto acabou por ficar sem efeito.

Os trabalhos sobre a história dos campos de refugiados espanhóis em Barrancos deram azo a toda uma série de contribuições sobre as relações entre Portugal e Espanha, voltando a colocar Barrancos e a sua população no cenário internacional, como mostra a celebração das Jornadas Internacionais Memórias da Guerra de Espanha na Fronteira do Baixo Alentejo, 80 anos depois (1936-2016), organizadas pelas câmaras de Barrancos e de Oliva de la Frontera, em outubro de 2016. No ano seguinte, dá-se um salto qualitativo com a organização, na própria vila de Barrancos, do I Congresso Internacional – O Barranquenho: Ponte entre Línguas e Culturas. Passado, Presente e Futuro. Impulsionado pelas autoras desta introdução e pela Câmara Municipal de Barrancos, este congresso foi apoiado por várias entidades portuguesas estrangeiras, o que, por um lado, veio reforçar a projeção nacional e internacional e, por outro, robusteceu a autoestima da própia comunidade.

As colaborações que aqui reunimos, sob os auspícios do Programa de Preservação e Valorização do Património Cultural Barranquenho (2021- -2024), são fruto do mencionado Congresso e vêm ao encontro do que, a 15 de dezembro de 2016, as proponentes dessa reunião científica solicitaram à Câmara Municipal: reunir “em Barrancos alguns dos maiores especialistas em línguas / variedades mistas e, em especial no Barranquenho, promovendo tão valioso património imaterial, em conformidade com as recomendações da UNESCO [… para assim] desencadear um conjunto de medidas de política linguística”, de maneira a salvaguardá-lo. Nesse sentido, os trabalhos compilados nesta coletânea oferecem diferentes perspetivas sobre o Barranquenho: as fontes bibliográficas, o estudo linguístico de alguns dos seus aspetos e uma proposta de convenção ortográfica. Ao Barranquenho aplicam-se temáticas relativas à implementação e ao desenvolvimento de línguas minoritárias, numa perspetiva de política linguística, e, analisa-se, ainda, como paradigma, o caso do mirandês, do seu conhecimento à sua oficialização.

María Victoria Navas Sánchez-Élez compila uma série de títulos, quase seiscentos, nos quais aparece a terminologia Noudar, Barrancos ou barranquenho, relativos à língua e literatura barranquenhas, línguas em contacto, política linguística, dialetologia espanhola e portuguesa, história, geografia, geologia, arqueologia, antropologia, sociologia, economia, costumes e turismo, assim como incursões em redes sociais e meios de APRESENTAÇÃO 11 comunicação. Toda esta informação tem como objetivo servir de fundamento à demonstração da consistência de Barrancos, da sua língua e da sua cultura, de modo a conseguir, primeiro, a sua aprovação como Património Imaterial de Portugal, e, depois, pela UNESCO.

Patrícia Amaral, Clancy Clements e Jordan Garrett, no seu trabalho, adotam a perspetiva da “linguística de contacto”. Com base em estudos realizados anteriormente e apoiados na atual literatura da área de “línguas mistas”, os autores apontam critérios linguísticos (por exemplo, ser língua nativa assente no bilinguismo da comunidade, sem ser língua franca; o léxico ter origem numa língua e a morfossintaxe noutra) que permitem sustentar a hipótese de o Barranquenho ser uma língua, e não um dialeto dependente do português ou do espanhol, conforme propõem alguns autores que definiram ou categorizaram esta realidade linguística. Com base num corpus constituído por entrevistas sociolinguísticas feitas a 20 falantes de Barrancos, os autores procuram comprovar essa hipótese, analisando aspetos da morfossintaxe do Barranquenho (colocação dos pronomes átonos ou clíticos e a estrutura argumental) e aspetos da semântica (o Pretérito Perfeito Composto), cujo comportamento revela processos de reestruturação. Os autores concluem que, exceptuando a criação num curto período de tempo, o Barranquenho apresenta propriedades distintivas de uma língua mista, sendo, por isso, um caso de estudo interessante para a linguística teórica.

Victor Manuel Diogo Correia, com base num inquérito realizado em 2014 na comunidade, a respeito das vantagens e inconvenientes de uma ortografia para a língua barranquenha, e também em anotações registadas durante duas estadias em Barrancos e em investigações anteriores, faz uma Proposta de Convenção Ortográfica para o Barranquenho (PCOB). No seu trabalho, o autor percorre as diferentes tentativas de escrita que têm existido na comunidade ao longo dos últimos anos – cartazes, publicações periódicas, textos literários –, quantifica os resultados dos inquéritos realizados e, finalmente, apresenta uma proposta de codificação escrita da língua barranquenha, entendendo que a representação gráfica é crucial para a estabilidade e o desenvolvimento não só da língua mas também, por extensão, da comunidade.

Beatriz Quijada Coronel apresenta uma investigação da literatura oral e tradicional. Com base num corpus com oito composições ouvidas de nove mulheres de Barrancos, a autora analisa as canções de embalar (“nanas”) localizadas na vila barranquenha, agrupando-as em dois temas: a fonte e a boba. No material recolhido à data da sua investigação, e apesar das suas limitações, a autora descobriu que algumas das canções de embalar têm melodias, que a mesma composição pode aparecer, na boca da mesma informante, quer em português, quer em espanhol (com algumas interfe- 12 O BARRANQUENHO COMO LÍNGUA DE CONTACTO … rências de uma língua na outra), que uma das entrevistadas cantava aos filhos a variante em espanhol mas aos netos já lhes canta na variante portuguesa. Por último, e talvez o aspeto mais destacado deste trabalho, a autora revela que a boba, personagem misteriosa, que causa medo e terror às crianças, ao qual recorre a mãe para que estas durmam, é um ente que, até agora, só se localizou na literatura popular de Barrancos.

Fernando Brissos, na primeira parte do seu texto, centra-se num projeto para o estudo da dialetologia em Portugal – o Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza (ALEPG) –, inestimável tarefa que los investigadores do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa levaram a cabo desde 1970 até à sua finalização. O autor menciona, igualmente, que no referido Centro se encontram reunidos materiais relativos a gravações e textos dialetológicos – entre eles os do Barranquenho –, nos quais se incluem as participações em atlas internacionais, como o Atlas Linguarum Europae (ALE). Na segunda parte do seu trabalho, Fernando Brissos, com base no estudo quantitativo de alguns dos materiais recolhidos nos dois atlas mencionados (101 conceitos semânticos localizados em Barrancos), questiona se o Barranquenho é uma língua e se, no caso de ser um dialeto, pertence ao sistema espanhol ou ao português. Na conclusão, o autor afirma que, tendo em conta os dados lexicais utilizados, uma pequena parcela da realidade, não encontrou uma resposta que leve a afirmar que o Barranquenho é um sistema destacado no âmbito do panorama linguístico do português, sugerindo, por isso, a inventariação de todos os dados recolhidos sobre o Barranquenho que se encontram no Centro de Linguística, referido anteriormente, e contar com a própria perceção dos falantes, únicos detentores da língua.

José Antonio González Salgado descreve as linhas de trabalho e os resultados de FRONTESPO-3P, projeto I+D+i, financiado pelo Ministerio de Ciencia, Innovación y Universidades de España, que desde 2015 (antes com outra denominação), estuda a Frontera hispano-portuguesa: personas, pueblos y palabras. O autor traça um quadro exaustivo das áreas de investigação e ação do projeto: recolha de um corpus audiovisual, de uma bibliografia em permanente atualização e de acesso livre (com mais de três mil referências), de um corpus lexical da fronteira hispano-portuguesa (a cargo do autor), e a organização e realização de cursos de documentação linguística dirigidos às comunidades em foco e levados a cabo no seio destas. A seguir, mostra os resultados conseguidos pela equipa internacional, atualmente com 17 membros, salienta as publicações – mais de trinta, algumas de difusão internacional – e a participação em comgressos desse nível. Para finalizar, J. A. González Salgado realça que os materiais editados estão disponíveis em várias plataformas digitais e destaca a importância deste projeto, dirigido por Xosé Afonso Álvarez Pérez, visto APRESENTAÇÃO 13 ser, até à data, no plano linguístico, o mais significativo para o estudo do que se conhece como raya.

Filipe Themudo Barata, defende que preservar uma língua significa preservar a cultura e a diversidade em todos as suas manifestações, materiais e imaterais. Fundado em dados facultados pela UNESCO e outras organizações internacionais, mas também na sua experiência de teórico das questões relativas ao património imaterial, o autor aponta o valor patrimonial das línguas, veículos de cultura que, apesar disso, não estão contempladas de maneira explícita nas listas de património classificado pela UNESCO. O autor aduz projeções demográficas e outros elementos que terão efeito sobre as línguas ameaçadas no mundo e permitem contextualizar o Barranquenho num cenário global pouco favorável à sua sobrevivência. É neste cenário de “relações globais de dominação cultural” que, conclui Themudo Barata, faz sentido preservar uma língua como o Barranquenho.

Manuel Célio Conceição apresenta um trabalho que se integra na parceria estratégica europeia LISTIAC – Linguistically sensitive teaching in all classrooms, financiada pelo programa Erasmus+, e lhe serve de marco para enquadrar o caso do Barranquenho. Tal como indica o título, as reflexões do autor centram-se na relação, estreita, complexa e multímoda, entre as diversidades e as identidades inerentes à(s) língua(s). A essa relação subjazem, como explica o autor ao longo de várias secções do trabalho, os binómios “língua e comunidade”, “língua e indivíduo”, “língua(s) e identidade(s)”, basilares na abordagem de qualquer língua materna e, mais ainda, no caso das línguas de contacto, cuja circunscrição não se satisfaz com as conceptualizações inerentes ao monolinguismo. Célio Conceição propõe que às línguas de contacto, em concreto ao Barranquenho, se estendam as perspetivas compreensivas e analíticas dos estudos do multilinguismo e dos seus contextos específicos. Por último, conclui o autor que, no caso da comunidade de Barrancos, importa criar mecanismos para que os barranquenhos, na sua diversidade, continuem a afirmar a sua identidade.

Maria Filomena Gonçalves explana, no seu trabalho, alguns dos problemas teóricos, conceptuais e metodológicos com os quais se confronta a definição de uma política e planificação linguísticas para o Barranquenho, língua minoritária e ameaçada. A partir de considerações sobre as línguas como património e também sobre antigas e atuais perspetivas em torno dos conceitos de língua e dialeto, a autora examina as contradições e as dificuldades inerentes à definição e aplicação no terreno de uma política linguística que envolve, por um lado, tomadas de decisão política e, por outro, atividades de intervenção linguística (grafização, estandardização, codificação) e de documentação que permitam contrariar alguns dos fatores de risco e, ao mesmo tempo, preservar a memória do Barranquenho e da cultura local.

Alberto Gómez Bautista traça o histórico da recuperação da língua mirandesa, processo que se iniciou com Leite de Vasconcelos em 1882. O autor descreve as diversas tentativas ortográficas, umas em moldes fonológicos – próximas do português mas reproduzindo a pronúncia do mirandês –, outras, privilegiando a oralidade mais do que a etimologia. Gómez Bautista destaca a importância de um grupo de intelectuais portugueses que, no século XIX, se esforçaram por escrever em mirandês com o objetivo de que esta língua não desaparecesse, como, entre outros, Bernardo Fernandes Monteiro e Manuel Joaquim Sardinha. O investigador destaca, no mesmo século, outro trabalho fundamental, o do foneticista Gonçalves Viana, que foi o primero a traçar umas orientações ortográficas para a língua mirandesa, base da convenção ortográfica aprovada em 1999. Por último, o autor sublinha como, a partir da aprovação da referida convenção, o mirandês se tornou o veículo de um elevado número de textos – criativos e traduções –, e adquiriu uma funcionalidade e um espaço que até àquele momento estavam reservados ao português. Ler mais

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