Praia, 14 fev 2022 (Lusa) – O antigo Presidente cabo-verdiano Pedro Pires defendeu à Lusa que a comunidade internacional não deve abster-se de questionar a Guiné-Bissau sobre a segurança no país, após a recente tentativa de golpe de Estado, atuando preventivamente.

“Deve entrar em marcha já, imediatamente, a democracia preventiva. O exercício da democracia preventiva é o mínimo que se pode fazer (…). Façamos funcionar a democracia preventiva a fim de sanar a situação, a fim de normalizar a situação”, afirmou Pedro Pires, Presidente de Cabo Verde de 2001 a 2001, reconhecendo que “há falta de informação sobre o que aconteceu” na recente tentativa de golpe de Estado em Bissau.

“Eu acho que a União Africana não deve ignorar essa situação. Da mesma forma que eu acho que Cabo Verde não deve ignorar essa situação. Da mesma forma acho que Angola não deve ignorar essa situação ou Moçambique, só para falar daqueles que estivemos juntos na luta de libertação. Não se deve ignorar não, é algo que deve preocupar-nos”, acrescentou Pedro Pires.

Os chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) já decidiram enviar uma força de apoio à estabilização para a Guiné-Bissau e reafirmam a condenação da tentativa de golpe de Estado e o apoio ao Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló.

No dia 01 de fevereiro, homens armados atacaram o Palácio do Governo da Guiné-Bissau, onde decorria um Conselho de Ministros, com a presença do Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, e do primeiro-ministro, Nuno Nabiam, e de que resultaram oito mortos.

O Presidente guineense considerou tratar-se de uma tentativa de golpe de Estado que poderá também estar ligada a “gente relacionada com o tráfico de droga”.

O porta-voz do Governo adiantou no sábado, em conferência de imprensa, que o ataque foi feito por militares, paramilitares e que estarão envolvidos elementos dos rebeldes de Casamansa, bem como várias personalidades, que não especificou.

O Estado-Maior General das Forças Armadas guineense iniciou, entretanto, uma operação para recolha de mais indícios sobre o ataque, que foi condenado pela comunidade internacional.

Para o antigo chefe de Estado de Cabo Verde, que partilhou a luta de libertação com a Guiné-Bissau, liderada por Amílcar Cabral, através do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), os países próximos devem contactar as autoridades guineenses “e dizer no mínimo ‘estamos preocupados’”: “Podiam dizer-nos afinal o que é que existe?”

“Da mesma forma que a União Africana deve fazer a mesma coisa, da mesma forma que o presidente da CEDEAO deve fazer a mesma coisa. Eu sei que as relações com a CEDEAO não são tão líquidas, mas ninguém deve abstrair-se, abster-se ou ignorar o que se passa, porque há aquilo que se costuma chamar a diplomacia preventiva. Ora, a diplomacia preventiva diz-nos que devemos prevenir que coisas piores aconteçam”, afirmou.

Pedro Pires alertou que pode haver “armas de guerra nas mãos de pessoas desconhecidas”, considerando que “isso é grave porque se coloca em causa a segurança do país”.

Para o ex-presidente, o “importante é dar confiança aos cidadãos”: “Como dar confiança aos cidadãos? É garantir a sua segurança física, mas é garantir a sua segurança jurídica também, estar em condições de defender e proteger os seus direitos”.

A Guiné-Bissau é um dos países mais pobres do mundo, com cerca de dois terços dos 1,8 milhões de habitantes a viverem com menos de um dólar por dia, segundo a ONU.

Desde a declaração unilateral da sua independência de Portugal, em 1973, sofreu quatro golpes de Estado e várias outras tentativas que afetaram o desenvolvimento do país

PVJ (MSE) // VM – Lusa/Fim

O ex- Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, fala durante uma entrevista à agência Lusa, na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde, 10 de fevereiro de 2022. O antigo Presidente cabo-verdiano Pedro Pires defendeu à Lusa que a comunidade internacional não deve abster-se de questionar a Guiné-Bissau sobre a segurança no país, após a recente tentativa de golpe de Estado, atuando preventivamente. ELTON MONTEIRO/LUSA

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