Especialistas refletem sobre os rumos da Língua Portuguesa no marco dos 30 anos da CPLP

Patrisia Ciancio


A internet fala cada vez mais brasileiro

 Patrisia Ciancio e Fabiano Houaiss

 A Língua Portuguesa pertence a um universo de 300 milhões de habitantes, dos quais mais de 214 milhões vivem no Brasil, representando cerca de 71% da população lusófona mundial. Pesquisa promovida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que, em 2025, mais de 90% da população brasileira acessou a internet. Com base nesse cenário, é possível constatar que a produção e o consumo de conteúdo em Língua Portuguesa em canais digitais têm predomínio da variante brasileira do idioma, o que se comporta como uma tendência progressiva na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPL), entidade que em 2026 completa 30 anos.

A natureza tecnológica da variante brasileira está no topo da produção digital em língua portuguesa: nas redes sociais, streaming e plataformas online. Nesse contexto, especialistas no tema têm refletido sobre os rumos do idioma e do português europeu e africano. “O ´Brasileiro´ pode se tornar, ainda no médio prazo, pela força numérica de lusofalantes, a língua dominante no mundo lusófono. Eu diria, a única em todo o espaço da Lusofonia. O português de Portugal está em extinção. Tenderá a ser um dialeto circunscrito a um determinado território”, disse Orlando Castro, jornalista, escritor e poeta angolano-português.


Influência na matriz africana do idioma: união na diversidade 

Sobre a influência da variante brasileira na matriz africana do idioma, Castro defendeu que “nos ditos Palop, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, fala-se e escreve-se cada vez mais em ´Brasileiro´, misturando-o com algumas palavras locais. E é inevitável que assim seja. Talvez seja, quem sabe, uma espécie de união na diversidade”.

Orlando Castro

“As línguas maternas em África serão mais uma vez colonizadas pela língua mais poderosa. Terão um papel recordado nos museus da língua. As línguas maternas africanas são apenas conhecidas de forma consuetudinária, o que constitui um obstáculo à sua valorização como patrimônio identitário”, enfatizou Castro.

Na opinião de Valnora Leister, doutora em Direito Internacional e editora do livro “Brasil e a Emergência da Esfera Lusófona Digital” (Lexington, 2018), a Língua Portuguesa, ou línguas de origem portuguesa, têm de ser vivas e incorporar as realidades locais. “No continente africano existem ao redor de 2 mil línguas. Em Moçambique e Angola, por exemplo, a Língua Portuguesa convive com dezenas de línguas locais. As línguas africanas são usadas em casa e na comunidade, e a Língua Portuguesa é usada na escola, governo e comércio, como idioma oficial. Em decorrência, a variante africana incorpora visões do mundo africano”, detalhou.

 

Variante brasileira: polo de inovação cultural

Em uma análise fora do espaço exclusivo da Lusofonia, Valnora apontou que “na era digital, a maioria dos jovens se comunica através da internet na língua materna, misturando inglês, gíria, emojis, memes e abreviações. Podemos dizer que a variante brasileira funciona como um polo de inovação cultural da Língua Portuguesa, pelo seu dinamismo e por conta do contexto diverso dos seus regionalismos”.

Valnora Leister

O terreno flutuante e descontínuo da Lusofonia é um convite para refletir a Língua Portuguesa como um veículo de inserção para os povos lusófonos, tendo os meios digitais como novas oportunidades de interação. “O idioma comum pode ser um veículo identitário que se assume como o cimento que une geografias separadas, sociologias diversificadas, mas que pode potenciar interesses econômicos, financeiros e de equidade semelhantes”, sublinhou Castro.


Uma língua sem presença tecnológica perde relevância global

O Português é língua oficial em nove países: Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor Leste. E convive, sobretudo na África, com as línguas maternas, que precisam ser preservadas como riqueza cultural e ancestral. Para Valnora, “com a presença digital brasileira na África e devido ao potencial demográfico africano, a Língua Portuguesa tem muitas probabilidades de crescimento”, estando hoje entre a 5ª e a 6ª língua mais falada no mundo.

De acordo ainda com a acadêmica, alguns governos defendem um idioma comum no espaço digital investindo em Inteligência Artificial (IA) em língua nacional, tradução automática, software educacional e produção de conteúdo online. “Entende-se que uma língua sem presença tecnológica pode perder sua relevância global. Por outro lado, entidades como a Organização das Nações Unidas para a Ciência e Cultura, a Unesco, defendem a proteção de línguas maternas. O ideal seria ter uma língua internacional de comunicação sem a eliminação das línguas maternas”, concluiu.


Ícone cultural, Antonio Houaiss foi um dos precursores da visão holística do idioma   

No Brasil, o intelectual, diplomata, filólogo e lexicólogo, Antonio Houaiss, acreditava que a Língua Portuguesa teria grande futuro internacional e defendia a expansão da educação do idioma integrando as variantes africana, brasileira e europeia. Sua visão encontrou forte ressonância no estabelecimento da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), sediada no Ceará, Nordeste brasileiro. 

“A Unilab, assim como Houaiss, considera a Língua Portuguesa como língua de integração entre diferentes povos e continentes, um espaço de encontro entre diferenças, e não como instrumento de uniformização. Em síntese, a visão de Houaiss sobre o futuro internacional da Língua Portuguesa permanece, mas foi ampliada pela Unilab, por debates contemporâneos sobre diversidade, desigualdade e colonialidade”, refletiu Valnora.


O que diria o filólogo sobre o futuro da Língua Portuguesa


Para falar de futuro, o publicitário Fabiano Houaiss, sobrinho-neto de Antonio Houaiss, relembrou o projeto do Dicionário Houaiss, que incorporou etimologia, evolução dos significados e mecanismos de formação de novas palavras.

“Ao fazer um experimento perguntando para a IA sobre o que Antonio Houaiss diria sobre o futuro da Língua Portuguesa, nos deparamos com a visão de um futuro plural do idioma. Em síntese, a IA responde que a Língua Portuguesa precisa estar preparada para as transformações tecnológicas, sem deixar de contemplar a realidade social das variedades do Português”, resumiu.

Antonio Houaiss

Para Houaiss, Brasil, Portugal e os países africanos e asiáticos de língua portuguesa poderiam preservar uma comunidade linguística sem precisar falar exatamente da mesma maneira. A Língua Portuguesa do futuro provavelmente será menos uma língua única e mais uma grande rede de variedades conectadas. Houaiss provavelmente faria um alerta: que não basta mudar a língua, mas é preciso garantir acesso à língua.

“A pergunta que devemos fazer é se estamos produzindo conhecimento em Português, de forma quantitativa e qualitativa, para garantir no futuro a representatividade do nosso idioma e preservar a diversidade linguística dos povos lusófonos. Dependemos também dessa capacidade de acompanhar a expansão do conhecimento. Precisamos criar esse futuro e adaptá-lo às novas realidades”, disse Fabiano Houaiss.

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