Lisboa, 15 jul 2026 (Lusa) – O timorense Luís Cardoso começou a sua carreira nas letras a escrever composições para um colega a troco de pão com manteiga e depois enriqueceu-a com o muito que viveu, fundamental para se ter alguma coisa para contar.
“Para se ser um bom escritor é preciso viver muito. Já dizia o Gabriel [García Márquez], que há que viver para contá-la. Nós, quando contamos, tentamos ser honestos o máximo possível connosco e com as pessoas a quem contamos as histórias”, disse em entrevista à agência Lusa o escritor Luís Cardoso, que vai ser o autor homenageado do Escritaria 2026.
Para o mais aclamado escritor timorense da atualidade e uma das mais importantes vozes da literatura contemporânea de Timor-Leste, cada escritor só deveria escrever um único livro na vida.
“Como a vida é feita desses pequenos pedaços, vamos escrevendo livros. E, de facto, no livro anterior sentimos que não dissemos tudo e, então, tentamos sempre completar com o próximo livro”, explicou.
E acrescentou: “É isso que fazemos na vida. Tentamos sempre, para além de sermos boas pessoas, porque nós queremos ser boas pessoas, também queremos ser bons escritores”.
Luís Cardoso ficou surpreendido com a sua escolha para escritor homenageado nesta edição do festival literário Escritaria, que decorre em Penafiel entre 20 e 25 de outubro, até porque se considera adverso a homenagens, mas ficou satisfeito, até porque o evento já homenageou escritores que muito admira, como António Lobo Antunes, Manuel Alegre e Lídia Jorge.
O autor de “Hotel Timor” recorda o “grande sacrifício” que um livro implica, vendo nesta homenagem uma recompensa por um trabalho que, quando é feito com honestidade, “é uma grande alegria”.
Instado a eleger um acontecimento determinante para o caminho que seguiu, Luís Cardoso recorda a infância, quando fazia composições (na altura chamadas de redações) para um colega, a troco de pão com manteiga.
“A primeira vez que comi pão com manteiga na minha vida foi por causa de fazer a tal redação para o meu amigo, cujo pai tinha uma padaria”, contou.
Depois, o escritor começou a ganhar prazer pela escrita, a escrever sempre melhor e a fazer sempre as melhores redações.
Luís Cardoso começou a escrever na sua língua materna, o tétum, aprendendo depois a língua portuguesa “palavra a palavra, frase a frase, texto a texto e livro a livro”.
“Eu creio que a maioria dos escritores lusófonos, que ganham prémios, tem como língua materna o português. A minha língua materna não é portuguesa, é o tétum. Continuo a escrever em tétum na minha cabeça e sou eu o primeiro tradutor na minha cabeça para a língua portuguesa”, referiu.
Conhecido como “Takas”, Luís Cardoso nasceu em Kailako, no interior de Timor-Leste, em 1958, e chegou a Portugal em 1975, na sequência da ocupação indonésia do seu país.
Paralelamente ao seu percurso literário, desempenhou um papel relevante na luta pela autodeterminação timorense.
Em 2023, o Presidente timorense, José Ramos-Horta, condecorou-o com o Colar da Ordem de Timor-Leste, em reconhecimento pelo seu trabalho literário e pelo papel que teve durante a luta pela autodeterminação do país.
Entre as suas obras constam “Crónica de uma travessia” (1997), “Olhos de coruja, olhos de gato bravo” (2001/2002), “A última morte do coronel Santiago” (2003), “Requiem para o navegador solitário” (2007), “O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação” (2013), “Para onde vão os gatos quando morrem?” (2017), “O plantador de abóboras” (2020), romance vencedor do Prémio Oceanos, e “Hotel Timor” (2025).
Em Penafiel, o escritor vai celebrar a vida, até porque considera que as homenagens aos escritores costumam ser póstumas e defende que estes sejam celebrados em vida.
“Eu vou fazer agora o meu centenário, nas festas de Penafiel. Quero reunir os meus amigos, porque quando fizer os 100 anos, já não estarei cá e os meus amigos já não estarão cá”, disse.
A apresentação oficial de Luís Cardoso como autor homenageado do Escritaria 2026 vai realizar-se hoje, na Assembleia da República.
A cerimónia contará com a presença do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e do presidente da Câmara de Penafiel, Pedro Cepeda, além do escritor homenageado.
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