Mindelo, Cabo Verde, 01 fev 2022 (Lusa) – Érico Fortes, engenheiro cabo-verdiano de 32 anos, constrói drones para ajudar a resolver os problemas da agricultura e reflorestação em Cabo Verde, mas o próximo passo é garantir entregas entre ilhas ou comunidades afastadas.

“Temos um problema de transporte para as ilhas e para as comunidades mais isoladas, sendo que a ilha de Santo Antão é a minha prioridade. Queremos apostar, nomeadamente, no transporte de medicamentos e outros bens essenciais”, explica à Lusa, no Mindelo, ilha de São Vicente.

“Mesmo dentro das ilhas, para as comunidades mais afastadas, poderemos usar drones nestas situações, para fazer esta conexão e aceder às populações isoladas”, refere, sobre o novo projeto para os drones que produz em São Vicente, em fase de testes.

A ligação deste licenciado em Engenharia Informática com a vizinha ilha de Santo Antão está relacionada com as suas origens. Nascido na cidade do Porto Novo, mudou-se para São Vicente para tirar o curso superior na universidade pública cabo-verdiana e em 2014 participou num concurso de bolsas de mestrado em Ciências da Computação, nos Estados Unidos da América (EUA).

“Tive a oportunidade de estudar robótica e no meu projeto de final de curso desenvolvi o plano de elaboração de drones para fins agrícolas e florestais”, recorda.

Dos cursos ao dia-a-dia, criou em julho de 2018 a empresa Primebotics – Soluções Robóticas, pensando especificamente na produção de drones para agricultura e reflorestação. Neste momento há já dois drones produzidos e em funcionamento.

“Foram feitos com apoio do Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento [PNUD]. Um ficou na ilha do Maio, para apoiar na vertente de pulverização de desinfetantes. São drones modulares com capacidade para pulverização, lançamento de sementes e está a ser testado e em processo de aprimoramento o módulo de entrega de pacotes”, explica.

Com o apoio do PNUD, conseguiu produzir um terceiro drone, maior, colocado na ilha de Santiago, com testes feitos na Serra Malagueta e Achada Leite, em lançamento de sementes.

Com poucos recursos à disposição no mercado local, Érico Fortes explica que vai procurando outras soluções para fazer face aos desafios da produção dos drones.

“No drone temos a parte de ‘software’ e ‘hardware’. Então, no ‘software’ de controlo, consigo fazer a programação, e na parte ‘hardware’ acabo por criar grande parte das peças através da minha impressora 3D, o que muito me facilita. Há peças que por vezes projetamos, mas que não encontramos no mercado por não existirem e por isso recorremos à tecnologia 3D”, diz.

Conseguiu ainda otimizar os seus recursos através da formação no ensino secundário, quando estudou eletricidade e eletrónica na escola técnica do Mindelo, e foi investindo no seu projeto.

“Tenho adquirido algumas impressoras e com o passar do tempo tento comprar as mais avançadas para melhorar a qualidade de impressão, mas não contabilizei os gastos. O valor é considerável, visto que o projeto existe desde 2015, antes mesmo de participar do programa internacional de 2019 e sobreviveu desde aquele momento das minhas poupanças”, recorda.

Érico Fortes participou em 2019 no programa de empreendedorismo internacional, a nível de África, da Tony Elumelu Foundation, e conseguiu o financiamento e o capital que precisava para criar a empresa e investir na tecnologia.

“Já tive possibilidade de melhorar em termos de materiais, porque inicialmente usava plástico e agora uso outros tipos de componentes, incluindo fibra de carbono, que é um material muito mais resistente e leve, o que melhora no consumo de energia e ajuda na aerodinâmica do equipamento”, explica.

Com um quarto drone em fase de acabamento, que será direcionado para a ilha de Santo Antão, também para aplicar em entregas – Santo Antão e São Vicente são duas ilhas ligadas apenas por via marítima -, este empreendedor dá um passo no seu objetivo de colocar um equipamento em cada ilha, para dar apoio aos agricultores e ajudar na reflorestação, entre outras atividades.

Conhecida como a ‘ilha das montanhas’, a ilha de Santo Antão tem algumas comunidades afastadas, onde não se consegue chegar de carro, pelo que, quando chove, muitas delas ficam isoladas, realidade que levou Érico Fortes a querer dar outro objetivo ao projeto dos drones.

“Numa conversa com um dos meus tios, que trabalha na agricultura, percebemos que um drone o ajudaria muito no trabalho, porque conseguiria fazer a sementeira, monitorizar os seus terrenos de cultivos, porque ficavam numa área bem afastada da sua residência”, recorda.

Quanto à paixão pelos drones, admite que começou cedo, antes mesmo de partir para os EUA: “Assistia a vídeos no Youtube e sempre tive vontade de ter um drone. E na altura, em termos financeiros, não conseguia, porque eram caros. Como iria para os EUA, pensei em comprar um por lá quando houvesse baixa de preços, porém um dos meus professores produzia drones e pedi-lhe que me ensinasse a fazer também e aceitou”.

A ideia inicial era apenas ter um destes equipamentos, mas decidiu levar o conceito para o seu projeto de final de curso, porque queria fazer algo que trouxesse mais-valia e que levaria para a vida.

Com a empresa que criou, dedica-se ainda à produção de pequenos robôs para fins educacionais e impressão 3D e conta que pretende potenciar a agricultura e criação de gado em Cabo Verde.

SYN // VM – Lusa/Fim

Partilhar