Em vez de democratizar África, vamos africanizar a democracia

Mário Baptista, da agência Lusa


Lisboa, 13 jun 2025 (Lusa) – O antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África Carlos Lopes considera que Europa e África vivem numa ilusão, criticando os líderes africanos por se comportarem como crianças compradas com um chupa-chupa.

“Do ponto de vista prático, os europeus acham que altruísmo e fazer caridade é uma forma de ajudar e compensar [África] pelos males do passado e, portanto, praticam isso de uma forma quase automática; e os africanos pensam também que se vão desenvolver graças à ajuda ao desenvolvimento e, por isso, tanto uma como outra premissa são erradas, porque na realidade nós precisamos de transformação estrutural das economias”, explicou Carlos Lopes.

Em entrevista à Lusa a propósito do lançamento da versão portuguesa do livro “A armadilha do auto-engano – Uma visão crítica das relações entre África e a Europa”, o académico e antigo representante da União Africana para as negociações com a Europa e Caraíbas e Pacífico explicou que o título do livro tem a ver com a maneira como os europeus e os africanos olham uns para os outros na altura das negociações.

“O auto-engano é a demonstração de que não é possível explicar a complexidade das relações entre África e Europa apenas pela economia ou apenas pela ciência política e, portanto, quando se faz uma análise mais de fundo, tem que se recorrer à psicologia, porque uma boa parte dos problemas que nós estamos a enfrentar não são objeto de decisões racionais, mas sim de uma espécie de mentalidade dos dois lados que precisa de ser mudada, e que caracterizo como auto-engano, porque é uma espécie de adaptar a realidade à sua própria consideração e à sua própria leitura”, acrescentou o economista.

Na véspera da apresentação do livro na Feira do Livro, em Lisboa, Carlos Lopes argumentou que um dos problemas do lado africano é querer que a União Africana funcione como a União Europeia, quando os meios e a delegação de soberania por parte dos Estados é diferente.

“O livro aponta o dedo para os dois lados e mostra que os africanos deveriam exercer a sua soberania de uma forma mais inteligente e mais estratégica; acabam por minar qualquer tentativa de unificação das posições africanas quando se lhes oferece alguma coisa em troca. É como se fosse um rebuçado ou chupa-chupa que deixa a criança feliz, mas que depois estraga porque não tem em consideração os efeitos do açúcar. É um pouco esta metáfora de querer sempre aparecer em primeiro”, disse Carlos Lopes.

Segundo o economista, ao serem convidados bilateralmente para uma reunião, os líderes ficam “felizes de poderem, junto das suas populações, mostrar que são reconhecidos internacionalmente”.

O problema, apontou, é que, com esse comportamento, “minam imediatamente a unidade do continente, porque deveria ser a União Africana a determinar os diferentes tipos de engajamento, para que houvesse (…) uma certa concertação e uma certa coordenação”.

No livro, Carlos Lopes explica que os europeus, durante as negociações com África, tentaram propositadamente fragmentar a apresentação de uma proposta única por parte da União Africana, oferecendo acordos bilaterais a vários países, o que explica haver “13 acordos com África em vez de haver só um”.

Questionado sobre se os países africanos estão preparados para delegar uma boa parte da sua soberania na União Africana, Carlos Lopes respondeu: “Preparada não é a palavra exata que eu empregaria, mas vão ser obrigados a considerar esta possibilidade, porque, de facto, a erosão da ajuda ao desenvolvimento com os anúncios que têm sido feitos nos últimos meses é drástica e, portanto, o chupa-chupa está fora do balcão e cada vez fica mais difícil poder continuar a atuar com a ilusão que o altruísmo vai desenvolver [as economias], porque, de facto, a ajuda ao desenvolvimento está a desaparecer a grande velocidade”.

Ainda assim, concluiu, a mensagem é de esperança para o relacionamento entre os dois continentes: “é uma mensagem que tenta dar alento a uma relação nova entre a Europa e África, porque se África tiver no seu parceiro principal, que é a Europa, uma relação conforme com as necessidades do futuro e as ambições dos dois lados, nós vamos poder finalmente ter uma contribuição que tem um impacto mundial, não só em África e não só na Europa”.

MBA // MLL – Lusa/Fim

O professor Carlos Lopes, em entrevista à Lusa sobre o novo livro UE-Africa e sobre os 50 anos das independências, em Lisboa, 06 de junho de 2025. O antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África Carlos Lopes considera que Europa e África vivem numa ilusão, criticando os líderes africanos por se comportarem como crianças compradas com um chupa-chupa. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

PODCAST DO PÚBLICO 22 de Julho 25


Carlos Lopes tem um novo e interessante livro, editado em Portugal pela Tinta da China, intitulado A Armadilha do Auto-Engano: Uma Visão Crítica das Relações Entre África e a Europa.
Nesta obra, o antigo conselheiro político do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e alto-representante da União Africana para as relações com a Europa, reúne a sua vasta experiência para mostrar como é difícil desmontar os estigmas que condicionam a relação entre os dois continentes.
É para falar desse livro que o actual professor da Nelson Mandela School of Public Governance da Universidade da Cidade do Cabo vem ao podcast Na Terra dos Cacos. Uma oportunidade para saber que armadilha é essa que contribui para o paternalismo europeu e para a desunião africana — e o que será necessário para que os africanos assumam a responsabilidade de definir, por si próprios, os termos dessa relação. Como refere o antigo secretário executivo da Comissão Económica para África da ONU, se calhar, em vez de democratizar África, temos de africanizar a democracia.
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