Lisboa, 01 mar 2026 (Lusa) – Especialistas em linguística alertaram que a sobrevivência de crioulos e línguas minoritárias está sob ameaça devido à globalização, à falta de ferramentas tecnológicas e ao estigma social, defendendo a urgência de uma maior consciencialização sobre o valor destas línguas.
Em declarações à Lusa, a linguista Vera Ferreira, investigadora do Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS) e do Endangered Languages Archive de Berlim, afirmou que a manutenção destas línguas depende de um trabalho de base dos falantes, sublinhando que “um crioulo tem o mesmo valor que qualquer língua maioritária”.
Para a especialista, os crioulos resultam de um “desenvolvimento natural de línguas em contacto”, formados normalmente por “uma língua de origem, com elementos vocabulares de uma outra língua considerada maioritária”.
Vera Ferreira recordou que, no período da colonização portuguesa na Ásia, o contacto entre o português e as línguas locais criou inicialmente uma “mescla”, o chamado ‘pidgin’, que constitui a “fase inicial de um crioulo”.
“Não só as línguas minoritárias, mas também alguns dos crioulos têm a sua existência ameaçada pelo desenvolvimento global”, alertou Vera Ferreira.
Segundo a investigadora, não existe um fator único para o desaparecimento de uma língua, mas sim uma combinação de causas naturais e conflitos, que podem dizimar comunidades inteiras.
Além destes fatores, a pressão política e social também levam ao declínio do número de falantes, sendo que utilizações destas línguas “não são bem vistas” pela comunidade e são discriminadas como erros ou dialetos.
No mesmo sentido, Hugo Cardoso, especialista em crioulos de base portuguesa na Ásia e Pacífico, destacou a tensão histórica entre estas línguas e o português, que muitas vezes as remete para o estatuto de versões “contaminadas, inferiores ou não padronizadas”.
“O próprio termo crioulo, enquanto categoria de línguas, muitas vezes é posto em causa, porque temos de ter o cuidado de não dar a entender que estas línguas são, de alguma forma, diferentes, menores ou inferiores”, explicou Cardoso, notando que estas línguas enfrentam dificuldades em afirmar-se como “línguas de pleno direito”.
O investigador apontou ainda que fatores como a migração, a dispersão de comunidades e a quebra de tradições de endogamia (casamentos dentro da mesma comunidade) colocam em risco a transmissão geracional.
No Sri Lanka, por exemplo, o impacto da guerra civil e do tsunami de 2004 fragilizou grupos de falantes.
Em contraste com a situação crítica de crioulos no Malabar (Índia), onde restam poucos falantes idosos, os especialistas destacam a vitalidade do crioulo cabo-verdiano e da Guiné-Bissau.
Hugo Cardoso sublinhou que o cabo-verdiano é “estrutural para a identidade” e que, apesar de não ser a língua oficial do Estado, é a língua do dia-a-dia da população e da diáspora.
Já o linguista Tjerk Hagemeijer reforçou que a diversidade destas língua deriva de contactos históricos específicos, como no Golfo da Guiné, onde um protocrioulo inicial se ramificou em quatro línguas distintas – forro, lung’ie, angolar e fa d’ambô (fala do Ano-Bom).
Para o especialista, o rótulo crioulo é uma construção que muitas vezes mascara o facto de estas serem línguas novas e independentes, com estruturas gramaticais próprias e complexas.
Contudo, Hagemeijer alertou para um cenário de substituição linguística, onde as línguas minoritárias são colocadas “em risco iminente”.
Para travar este cenário, os especialistas convergem na ideia de que a revitalização é possível — citando o caso do hebraico como exemplo de sucesso —, mas advertem que o processo exige recursos económicos e uma vontade política que acompanhe o esforço dos falantes.
Defendem ainda que a valorização do património deve passar da teoria à prática através de políticas, como a inclusão de falantes idosos em creches e a padronização da escrita.
“Tem de haver esta consciencialização dos falantes e essa consciencialização só vem de um processo social um pouco maior”, concluiu Vera Ferreira.
Já Hagemeijer alertou que, sem uma ação urgente do Estado e da comunidade para renovar este “bilhete de identidade” linguístico, a transmissão entre gerações perder-se-á definitivamente.
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