Lisboa, 12 out (Lusa) – O presidente da Assembleia da República defendeu hoje que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) “do futuro” deve honrar a “memória e a visão” da sua fundação, há 20 anos, enquanto aprofunda a cooperação, comércio e segurança.

“Saúdo a visão da geração de estadistas que há 20 anos souberam ultrapassar bloqueios anacrónicos e assim fundar a CPLP, uma nova comunidade no concerto das nações, que tem por base uma história e uma língua comum, uma profunda ligação entre povos e culturas, mas que se projeta cada vez mais como uma comunidade de cooperação, de comércio, de desenvolvimento económico e de segurança”, disse hoje Eduardo Ferro Rodrigues, na abertura da evocação dos XX anos da comunidade, no parlamento.

O presidente da Assembleia da República deixou um desafio: “Saibamos honrar a memória e a visão dos fundadores através da construção dessa CPLP do futuro”.

Ferro Rodrigues sustentou que a “condição europeia” de Portugal “não é incompatível” com as vocações atlântica e universal, da mesma forma que “a independência dos povos de língua portuguesa também não implica uma política de costas voltadas em relação a Portugal”.

“Saramos, sarámos e continuamos a sarar as feridas do colonialismo”, declarou.

“Em nome dos laços históricos e culturais que unem os povos de língua portuguesa, em nome interesses estratégicos comuns, Portugal reforça-se na Europa graças à sua vocação atlântica e universalista, e também no mundo, e os restantes países de língua portuguesa reforçam-se na relação com a Europa e com um Portugal democrático e europeu”, acrescentou Ferro Rodrigues.

Nas intervenções que se seguiram, deputados do PSD, Bloco de Esquerda e CDS destacaram que a comunidade é de todos e não tem proprietários.

“Importa que a nova visão estratégica seja aplicada partindo do princípio que a CPLP não tem nem terá proprietários”, defendeu o social-democrata José Cesário.

O deputado acrescentou: “Não podemos esquecer a importância da assunção global da intransigente defesa dos direitos do homem, da liberdade de expressão e da participação democrática, áreas em que importa aprofundar o diálogo diplomático e a concertação”.

Também o deputado do BE Pedro Filipe Soares sustentou que se exige que “não existam proprietários” na CPLP, mas “não pode deixar de ter valores”.

O líder parlamentar bloquista criticou a entrada da Guiné Equatorial, há dois anos, considerando que “demonstra que os princípios fundadores não estão a ser respeitados”, o que “envergonha a todos”.

“A CPLP não tem proprietários e respeitamos o direito de cada povo a que não exista uma ingerência na sua tutela interna, nos seus destinos, nas suas democracias”, mas a “democracia é uma exigência global e a CPLP não pode desistir de ser um fator de promoção pela positiva deste avanço civilizacional dos seus princípios fundadores, ou, de outra forma, não terá um grande futuro”, sublinhou o BE.

Pelo CDS-PP, Filipe Lobo d’Ávila afirmou que a CPLP se faz “com todos” e não “com um a indicar um determinado padrão, seja um padrão europeu ou africano ou qualquer outro”.

O futuro passa pelo aprofundamento da cidadania, de maior mobilidade dos cidadãos, empresários e estudantes e das relações empresariais, apontou.

Tal como o PSD e CDS-PP, o deputado do PS Paulo Pisco destacou a eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas como “uma vitória da lusofonia”.

“Decididamente, a CPLP veio para ficar, porque todos compreendem que aquilo que eventualmente nos poderá separar é insignificante em relação à força do que nos une: a língua comum e os afetos forjados ao longo de séculos, que nos permite afirmar, sem retóricas vazias, que somos povos irmãos”, acrescentou Pisco.

O PS apontou o “imenso potencial” da organização, particularmente na economia, na concertação político diplomática, na cooperação estratégica.

Pelo PCP, Carla Cruz referiu que o bloco lusófono não deve ser transformado “num qualquer acordo, área ou tratado de liberalização de comércio e serviços”, e deve preservar uma “originalidade própria, não mimetizando aspetos de um qualquer outro espaço, como a União Europeia”.

Portugal, referiu, “deve intervir no âmbito da CPLP pela afirmação dos princípios e valores que estiveram e devem continuar a estar” na base da existência desta uma comunidade, entre os quais a igualdade entre Estados, não-ingerência nos assuntos internos e promoção do desenvolvimento e cooperação.

Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista “Os Verdes”, identificou como desafios da organização a “intermobilidade de cidadãos” e a “intensificação do ensino, da cooperação e do ensino da língua portuguesa”, impondo-se “necessidades de respostas inclusivas e participadas, sempre pela dignificação dos povos”.

Pelo partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Silva sustentou que o progresso e bem-estar dos povos dos países da CPLP “não depende exclusivamente da dinamização e cooperação económica e empresarial” e advogou “uma mudança paradigmática, política e ideológica”.

JH // PJA – Lusa/fim
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