CPLP/30anos: “Continuamos a procurar os caminhos”

Lisboa, 27 jun 2026 (Lusa) – O ex-ministro da cultura de Cabo Verde Mário Lúcio Sousa saúda os 30 anos da CPLP “num mundo em desintegração”, e sugere que se olhe “o processo e a intenção”, para lá dos “resultados”.

“São 30 anos. 30 anos não significam nenhuma vírgula no cosmos da história, muito menos na história do cosmos. É um tempo para ainda se preparar, de nos conhecermos também, um tempo para nos conhecermos, nos projetarmos. O importante é que a instituição está ali a encontrar os seus caminhos, isso é importante”, afirma, em entrevista à Lusa.

O também músico e escritor cita Fernando Pessoa – “Tudo vale a pena / quando a alma não é pequena” -, para sublinhar a importância do diálogo proposto pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

“Neste mundo em desintegração, ter uma comunidade dos países de língua portuguesa é bonito, porque é uma comunidade que ainda tem uma relação, que tem traços muito recentes do colonizador e colonizado, tem traços recentes do escravizador e escravo, tem traços recentes de dominador e dominado, e dentro disso conseguir ter uma instituição de diálogo e de preservação do património comum é muito louvável”, considera.

Vê, por isso, “motivos de celebrações”, menos “pelos resultados, mas pelo processo e pela intenção”, concluindo que “vale a pena essa CPLP”.

Considera ainda que a presença da Guiné Equatorial não representa qualquer ameaça, antes a oportunidade de mudança.

“Acho importante assinalar que não foi o regime que entrou, foi o país. E muita gente desse país não quer esse regime, e muitas vezes não distinguimos isso”, observa, apontando a instituição até como “um lugar de pressão para que se respeite os direitos humanos, para que se respeite a democracia, etc.”.

Recorda a este propósito a figura de Amílcar Cabral, e um dos episódios que marcou a sua chegada à Guiné Conacri.

“Amílcar Cabral foi muito claro quando chegou à Guiné Conacri, em 1961, e chegou com sua mulher, Maria Helena, portuguesa. Um dos críticos era o presidente Sékou Touré, que dizia ‘como é que vem lutar contra os portugueses e traz uma mulher portuguesa?’. E ele dizia que não vinha lutar contra os portugueses, foi lutar contra o regime fascista e colonialista português”, lembra.

Autor de “Manifesto a Crioulização” (2022), ensaio que proclama a troca cultural e que defende a identidade crioula como lugar de encontro entre diferentes povos e culturas, transformando o dilema e a diferença em pontes de compreensão, Mário Lúcio Sousa reforça esta ideia também no que diz respeito à Guiné Equatorial.

“Não esqueçamos que a Guiné Equatorial é um dos países que falam crioulo, em Ano-Bom [ilha mais a sul do país]. E o crioulo é um crioulo de base lexical português. Então, essas razões ampliam também o universo (…), é muito importante que essas regiões estejam na comunidade, que têm a língua como unidade”, reforça.

“São todos bem-vindos, desde que não tragam os seus regimes para dentro da instituição”, conclui.

A CPLP, que assinala 30 anos em 17 de julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

TEYM // MLL – Lusa/Fim

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