Como já contei, o regresso ao hotel (uma antiga casa local no centro da aldeia transformado num bem simpático espaço de turismo de habitação) foi de táxi. No percurso, deixámos o Francisco junto do seu carro. Iríamos reencontrar-nos mais tarde para jantar.
Como não tinha dinheiro nenhum comigo, pedi ao taxista o favor numa caixa de Multibanco. Só há uma – disse ele. Era logo mais adiante. Todavia não consegui sacar nenhuma nota. Um aviso no ecrã mandava-me procurar noutra caixa pois o dinheiro naquela esgotara. Ora a mais próxima era em Arouca, a meia-hora dali.
Sabia que a empregada do hotel já tinha saído para casa e por isso não poderia socorrer-me. Não descortinava solução. O taxista (30 e tantos anos), que durante a viagem quase nos contara a sua vida toda, era uma simpatia de pessoa e acabou revelando-se ainda mais: Não se preocupe. Sei que o senhor me há-de pagar. Vá descansado e leve o meu cartão.
Fiquei parvo com semelhante gesto e ainda com mais vontade de inventar um estratagema. Mas ele insistia firme: Sei que me vai arranjar modo de me pagar mas nem haveria problema se ficasse assim.
De repente, ocorreu-me pedir-lhe o IBAN pois no hotel, pelo computador, faria uma transferência. Prontes! Do porta-luvas retirou um cheque seu e eu fotografei-lhe o número. O caso estava arrumado.
Mal chegado ao hotel, agarrei logo do computador. Fica-me mal a infantilidade de referir que paguei-lhe o dobro, porque aposto que no meu lugar qualquer um faria o mesmo.
Acrescento, porém, um registo: olhem que gente e gestos do género a Leonor e eu encontrámos um bom punhado nestes dias no interior, que pode estar deserto, mas ainda guarda muito do antigo Portugal.

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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providemce, Rhode Island (EUA). Nessa mesma universidade é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, e O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão, na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown, Pessoa Plural e e-Journal of Portuguese History bem como a uma série de livros sobre temática lusófona na Sussex Academic Press, no Reino Unido. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.

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