Um estudo recente publicado por um ‘think-tank’ britânico, Instituto Legatum, desenvolve o conceito de “globoesferas”, para ajudar a entender a natureza da ordem global do século XXI.

O autor, John Kotkin, identifica três “globoesferas”, a dominante, a “angloesfera”, e duas com um peso económico crescente, a “sinoesfera” e a “indoesfera”.

Do estudo, sobressai imediatamente uma distinção, com raízes históricas. De um lado, a “sinoesfera” e a “indoesfera” têm a seu centro em duas potências emergentes, a China e a Índia, e beneficiam do seu respectivo peso demográfico. Apoiam-se ambas nas suas diásporas, (nos dois casos, cerca de 40 milhões de pessoas) espalhadas por todo o mundo. Do outro lado, a “angloesfera”, constitui uma herança de um antigo império europeu, o império britânico, e é constituída pelos nativos dos países de língua inglesa.

Apesar das diferenças, estas “tribos globalizadas” têm um elemento fundamental comum: as ligações linguísticas e culturais reforçam as relações políticas e económicas no interior de cada “esfera globalizada”. O estudo mostra a importância das remessas monetárias das diásporas chinesa e indiana para as economias dos seus países de origem. Em 2009, em todo o mundo, a diáspora indiana foi a que mais dinheiro enviou para o seu país (49 biliões de dólares), logo seguida da diáspora chinesa (47 biliões de dólares). O estudo revela ainda como as diásporas contribuem para reforçar os investimentos e as relações comerciais entre os países de acolhimento e, respectivamente, a China e a Índia. Do mesmo modo, no caso da “angloesfera”, a partilha da língua e de afinidades culturais facilitam as ligações políticas e económicas, como mostram as várias “relações especiais” entre Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O estudo não trata de outra “esfera globalizada”, cada vez mais importante, a “lusoesfera”. Os países de língua portuguesa estão espalhados por quatro continentes, África, América, Ásia e Europa. Um deles é uma das maiores economias emergentes, o Brasil. Outro, Angola, é uma das potências regionais de África. E Portugal pertence ao maior bloco económico e comercial do mundo, a União Europeia, e à aliança militar mais importante em termos mundiais, a Aliança Atlântica. Aliás, a participação de Portugal na UE e na NATO constitui uma ligação vital entre a “lusoesfera” e a “angloesfera”. E as heranças históricas de Goa e de Macau são uma ligação às “indoesfera” e “sinoesfera”.

Tal como a “angloesfera”, a “lusoesfera” constitui uma herança colonial. Mas as semelhanças não terminam aqui. As relações políticas e culturais têm claramente uma natureza pós-colonial, onde o peso político e económico das antigas colónias é superior à da antiga potência colonizadora, e onde as relações se definem pelo princípio da igualdade racial e cultural.

A “lusoesfera” e a UE são neste momento os dois pilares centrais da política externa portuguesa. Para Portugal, é indispensável desenvolver uma estratégia para reforçar a ligação entre as duas.

João Marques de Almeida, Professor UniversitárioJoão Marques de Almeida

 

 

FONTE: Económico

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