Um adeus a Álvaro Laborinho Lúcio

  • Uma “nota bárbara” com Post-scriptum

Acabo de saber que faleceu Álvaro Laborinho Lúcio, figura nacional que os açorianos estimam particularmente pois foi aqui Ministro da República (2003-2006). Fui apanhado de surpresa. A última vez que estive com ele foi em fevereiro, nas Correntes d’Escritas, onde nos últimos anos era ator protagonista de uma magnífica encenação sobre Manuel Lopes, um famoso e saudoso bibliotecário da Póvoa de Varzim. Era uma espécie de visita guiada à casa do bibliotecário, e Laborinho Lúcio, co-autor do texto, conduzia-a desempenhando um papel como se profissional de palco fosse.

Um orador e conversador fora de série, a sua fluência e elegância de verbo, além de eloquente, prendiam os auditórios.

Fomos eleitos ao mesmo tempo para a Academia Internacional de Cultura Portuguesa e, na sessão de tomada de posse na Sociedade de Geografia de Lisboa, aconteceu algo curioso, não planeado. No seu discurso, ele versou a cultura açoriana através da sua literatura. Eu escolhi falar da ciência no período dos descobrimentos. Ficou bem mais interessante ser ele, continental, a perorar com entusiasmo sobre os Açores do que se fosse eu a fazê-lo.

Ontem, numa entrevista, perguntavam-me se fico triste. Se fosse hoje, teria dado esta notícia como exemplo do que me causa tristeza.

Também faleceu Francisco Pinto Balsemão, mas nesse caso não houve surpresa, além de que o nosso relacionamento, por culpa minha não cultivado (ele bem que insistia para eu o procurar em Lisboa como ele havia feito em Providence quando por lá passou) era apenas cordial, graças à sua finura de trato, de autêntico gentleman.

Post-Scriptum

Foram muitos os e-mails de reação à notícia da inesperada morte de A. Laborinho Lúcio referida na minha nota. Um deles, sem o explicitar, corrigia-me. Veio do escritor Pedro Almeida Maia. Na verdade, a última vez que estive (estivemos, porque o Pedro esteve também) com ele não foi nas Correntes d’Escritas, em fevereiro (aí foi a penúltima), mas em maio, no Festival Literário do Douro, em S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, onde ele fez uma conferência de abertura ao seu estilo de grande classe.

Dos e-mails recebidos, para não abusar, apenas transcrevo dois. O primeiro vem de Zagreb, Croácia, do lusófilo Zelimir Brala:

Meu caro,

Laborinho Lúcio era Ministro da República para os Açores quando eu estive em Lisboa como Embaixador. Conhecemos-nos numa ocasião oficial a que fomos convidados e encontrávamo-nos também em ocasiões oficiais. A conversar com ele sentia-se bem que o interlocutor não era um político cinzento, como os que dominavam essa camada social, mas um intelectual de primeira categoria e homem com carisma, com quem era um real prazer trocar algumas impressões, infelizmente não muitas, devido às circunstâncias. Não sabia que se tornou também escritor. 

Laborinho Lúcio é uma das raras pessoas desses círculos oficiais de que me vivamente lembro, apesar uma vintena de anos passados. 

Mutatis mutandis, também me lembro bem de Francisco Pinto Balsemão, na época já “apenas” dono da Impresa, mas com ele não tive o privilégio de conversar muito. 

Abraço, Ž

O segundo vem de Évora, do Artur Goulart, que nos últimos dois anos não falha às Correntes d’Escritas onde não perde uma única sessão:

Foto (creio que da Isabel Fernandes)

Fiquei triste com a partida do Laborinho Lúcio. Fiquei a conhecê-lo melhor nas Correntes d’Escritas. Li vários livros dele, admirei-o como actor, e o texto dele numa das sessões era cheio de fino humor. Já contei num comentário no Facebook que, num almoço no restaurante à frente do auditório, apanhei-o sozinho numa mesa. Pedi licença e sentei-me a fazer-lhe companhia. Foi uma agradável conversa que não mais esqueço.

.

 

Para encerrar, vai uma troca de e-mails em verso com o velho amigo José Francisco Costa, que acabo de ir levar ao aeroporto, pois tem de regressar a Rhode Island (EUA) mais a sua Lourdes. O Zé não está no seu melhor estado de espírito por razões de saúde. Há dias enviou-me esta quadra mórbida (temos esse hábito antigo de trocar quadras entre nós, uma tradição muito açoriana):

Vai a vida se acabando

E tudo virando em pó…

Olha: vê se não te esqueces

Que o teu nome começa em “O”.

Tínhamos um colega de curso chamado Octávio que já faleceu. Então respondi-lhe assim:

“Octávio” também é “O”

E já se nos foi. Correto?

A morte nunca tem dó,

Nem liga ao alfabeto.

A resposta do Zé apanhou em viagens e sem ocasião para lhe responder. Veio assim:

Tuas palavras são certas.

Eu penso que estou correto:

Se a morte fosse p’las letras,

Era tudo analfabeto.

Onésimo Teotónio Almeida

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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providence, Rhode Island (EUA). Professor Emérito dessa mesma universidade, foi Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da expansão e Diálogos Lusitanos , na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown e Pessoa Plural, bem como quatro séries de livros sobre temática lusófona em várias editoras. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro e Universidade Lusófona. A Brown Universitiu concedeu-lhe uma cátedra de mérito, a Royce Family Professorship in Teching Excellence.
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