Outorga do Doutoramento HONORIS CAUSA pela Universidade de Paris – Panthéon-Assas.

Madeirense José Eduardo Franco recebe o doutoramento Honoris Causa hoje em Paris

O historiador e investigador José Eduardo Franco, titular da Cátedra UNESCO/CIPSH de Estudos Globais e director do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta, é distinguido hoje pela Universidade de Paris com o doutoramento Honoris Causa.

O madeirene, natural de Machico, é mais jovem historiador a ser agraciado com as insígnias de doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Paris – Panthéon-Assas.

A cerimónia solene decorre esta tarde naquela Universidade francesa e juntamente com o historiador e investigador madeirense José Eduardo Franco serão agraciados outros seis personalidades com a mesma distinção; Oliver Hart, professor da Universidade de Harvard e Prémio Nobel da Economia (2016) e com outras personalidade académicas das mais prestigiadas universidades do mundo; a saber: Guido Alpa, professor emérito da Universidade de Roma La Sapienza, John Cartwright, professor emérito da Universidade de Oxford (Christ Church College), Richard Ned Lebow, professor emérito do King’s College London, Johannes MASING, professor da Universidade de Fribourg (Alemanha) e antigo juiz do Tribunal Constitucional alemão, e Laura Moscati, professora da Universidade de Roma La Sapienza.

Esta mais alta distinção académica foi aprovada a 5 de Março deste ano pela Universidade de Paris – Pantheon-Assas, a José Eduardo Franco fundamentada nos relevantes serviços prestados à cultura, à ciência e à universidade em Portugal e no âmbito da criação de instituições científicas, redes académicas e projectos de investigação em articulação com universidades europeias e de outros continentes.

Sendo o madeirense o mais jovem doutor Honoris Causa eleito para receber esta distinção, o seu trabalho intenso das últimas décadas e em vários quadrantes de actuação revela uma

“capacidade invulgar de concepção, constituição e coordenação de équipas vastas de investigação a nível nacional e internacional, que que têm levado a bom termo a preparação de projetos complexos e bem-sucedidos com ampla difusão. Tem investido com determinação e entusiasmo em projeto abrangentes de pesquisa e edição completas de fontes históricas fundamentais para a renovação do saber sobre as heranças culturais do mundo da língua portuguesa e da Europa (maxime Obras Completas), bem como em projetos ambiciosos de sistematização de conhecimento (dicionários e enciclopédias), procurando colmatar lacunas graves existentes onde há manifesta falta destes instrumentos de conhecimento. Pelos seus projetos e equipas de investigação já passaram mais de 5 mil investigadores, professores e especialistas das mais diversas áreas científicas de todos os continentes.

Entre as suas iniciativas científicas e académicas, são destacados o projeto Vieira Global – Obra Completa do Padre António Vieira em 30 volumes com a edição complementar da Obra Seleta do Imperador da Língua Portuguesa em curso em mais de 20 línguas, o projeto Obras Pioneiras da Cultural Portuguesa  em 30 volumes com 82 fontes escritas de 700 anos de história da construção da língua portuguesa, o projeto “Culturas em negativo” para desconstruir os mecanismos da intolerância e o seu inovador Dicionário dos Antis- A cultura portuguesa em negativo, matriz que está a ser desenvolvida noutros países, nomeadamente no Brasil que também já trouxe a lume seu Dicionário dos Antis – Cultura brasileira em negativo.

Relevo inovador é dado, com particular atenção, ao seu pioneiro trabalho de implantação, em Portugal em articulação com universidades de países lusófonos e francófonos, da área emergente dos Estudos Globais com a fundação do primeiro programa de doutoramento em Estudos Globais associado a uma Cátedra UNESCO/CIPSH de Estudos Globais, bem como um Centro de Investigação em Estudos Globais que já agrega mais de 3 centenas de investigadores de vários continentes. Neste quadro de inovação académica e concetual, tem desenvolvido reflexão epistemológica inovadora publicada, em particular o conceito de “Globalogia”, que começa a ser adotado internacionalmente. Neste novo ecossistema científico dos Estudos Globais, tem concebido linhas novas de investigação com realce para o projeto internacional das “Histórias Globais”, que tem já em preparação mais de 20 volumes temáticos.

Ao serviço da Madeira, cumpre destacar eventos científicos de grande dimensão internacional que concebeu e organizou, com destaque para o Congresso Internacional “Jardins do Mundo” (2007), o Congresso Internacional “Funchal, A Primeira Diocese Global” e recentemente o Congresso Global “Apresentação de Maria: Da Europa para a Madeira e da Madeira para o mundo”. Importa lembrar também alguns projetos de investigação, entre outros,  que  visam promover mundialmente o conhecimento sobre o Arquipélago da Madeira que coordena cientificamente com grandes equipas nacionais e internacionais como o “Aprender Madeira”: Aprender Madeira, Madeira Global – Grande Dicionário Enciclopédico da Madeira. Epopeias Madeirenses –  Obras Completas.



DISCURSO

do Doutor José Eduardo Franco

Saúdo o Senhor Presidente da Universidade Universidade de Paris – Panthéon-Assas e agradeço imenso esta distinção.

Saúdo o Senhor Professor Fabrice d’Almeida pelo elogio, que muito agradeço e na, sua pessoa, às Colegas e aos Colegas do Departamento de Sciences de l’Information et de la Communication de l’Université Paris – Panthéon-Assas com quem tenho tido o gosto e honra de cooperar academicamente ao longo dos últimos anos.

Saúdo os meus Colegas Professores hoje aqui agraciados com esta mesma distinção, honrado em acompanhá-los neste ato solene.

Saúdo Colegas e Autoridades Políticas e Académicas do continente português e da minha querida Ilha da Madeira, cuja presença nesta cerimónia reveste-se de um significado particular e que agradeço de modo muito sentido.

Saúdo vivamente todos os presentes, de modo muito especial os meus compatriotas de Portugal, colegas e amigos de caminhada académica e de vida, cuja presença muito agradeço e muito me honra.

Recebo das suas mãos, Ilustríssimo Presidente desta muito prestigiada Universidade, este título de Doutor Honoris Causa, com razão e emoção nesta que é celebrada mundialmente como a Cidade da Luzes e um dos centros do mundo mais importantes da promoção do conhecimento assente no ideário historicamente afirmado da razão crítica e na ciência.

Recebo esta distinção emocionado com gratidão sentida por diferentes níveis de razões.

Por ser em Paris e em França reveste-se esta distinção de um significado especial pelos laços históricos que aproximam Portugal de França ao longo de quase um milénio de história.

Portugal e França têm um ADN comum. A meu país foi fundado há 900 anos sob a liderança de um jovem, Dom Afonso Henriques, nosso primeiro rei, filho de um pai francês, o conde Dom Henrique de Borgonha.

França, e Paris em especial, tem sido destino privilegiado da Peregrinatio academicaportuguesa, uma das nossas 7ª diásporas. Ao longo de séculos, muitos estudantes, professores, intelectuais e artistas portugueses encontraram nas universidades francesas lugar de alta qualificação, trazendo depois para Portugal ideias novas e ciência avançadapara favorecer o seu progresso político, social e cultural. Alguns celebrizaram-se nesta cidade como o humanista André de Gouveia, que foi Principal Colégio de Santa Barbara e depois Reitor da Universidade de Paris no século XVI. Também outros, no campo literário e artístico, como Eça de Queirós, António Soares dos Reis, Amadeu Souza-Cardoso, Almada Negreiros e Helena Vieira da Silva, só para referir alguns.

Em França, e em Paris em particular, encontraram refúgio e acolhimento a diáspora portuguesa dos exilados políticos expulsos de Portugal na sequência da queda e assunção de diferentes regimes políticos desde o século XIX até à ditadura do Estado Novo terminada pela ousada Revolução dos Cravos de 25 de abril 1974, que abriu caminho para a instauração da Democracia que hoje desfrutamos com já 50 anos e que temos dever de proteger e aperfeiçoar. Só a título de exemplo podemos lembrar Mário Soares, considerado um dos pais da nossa democracia.

No meu caso particular, contribui para o movimento da diáspora académica, tendo feito aqui, na Écoles des Hautes Études em Sciences Sociales, o meu doutoramento sob a direção do sábio Professor Bernard Vincent, a quem muito devo, a quem muito agradeço e que me dá a grande honra de estar presente nesta cerimónia.  Na sua pessoa agradeço a todos os meus professores e formadores que me modelaram ética e intelectualmente, a quem muito devo o que sou.

Aqui nesta Cidade da Luzes encontrei espaços de cooperação académica fecunda, não só na Escola de Altos Estudos onde me doutorei, mas de modo especial nesteUniversidade e com a equipa extraordinária de Professores com quem temos construído projetos pedagógicos e de investigação inovadores no campo epistemológico emergente dos Estudos Globais. Permitam-me destacar esta plataforma extraordinária de intercâmbio inspirador e promissor, agradecendo de modo especial ao Professor Fabriced’Almeida e às Professoras Valérie Dévillard e Cecile Meadel pelo imenso saber, competência e fraternidade académica.

À semelhança do que aconteceu com muitos antepassados meus que me antecederam na peregrinatio academica, nas minhas diversas viagens e estadias nesta magnífica cidade tenho encontrado ideias novas que alargaram os meus horizonte intelectuais estimuladospelo pensamento vasto dos académicos franceses e nas suas riquíssimas livrarias, que me tem inspirado de modo fundamental para conceber projeto de investigação e promover aprofundamento epistemológico de novos campos científicos que tenho procurado abrir, em particular as “Culturas em negativo” e o conceito de Globalogiacomo ciência da globalização.

Esta Cidade das Luzes tem sido, como canta a escritora Sophia de Mello Breyner Andreson que também foi homenageada aqui em Paris como uma das maiores poetasportuguesa de sempre, o meu lugar de inspiração, onde

“Sonhei com lúcidos delírios

À luz de um puro amanhecer

Numa planície onde crescem lírios

E há regatos cantantes a correr.”

Assim, seguindo os “Navegadores do Olhar” do passado e do presente, como bem escreve o poeta português aqui presente, que também encontrou em França a sua segunda pátria, José Luís de Almeida, aqui em Paris ampliei os meus horizontes, trazendo novas luzes para a cultura do meu país:

“Quando captares

a impalpável sabedoria

e venceres a tua sofreguidão,

o teu dia chegará

à infinita paciência.”

Mas este reconhecimento académico também se reveste de um significado relevante a outro nível, na medida em que recebo esta distinção não só em meu nome, talvez muito mais do que em meu nome, em nome do meu país, Portugal, e de modo particular em nome da minha equipa mais especial de investigação do meu Centro e Cátedra UNESCO/CIPSH de Estudos Globais da Universidade Aberta, um grupo extraordinário de investigadoras e investigadores, professores e professoras, que comigo têm trabalho com lealdade, “engenho e arte” como cantava o nosso poeta maior Luís de Camões n’Os Lusíadas, nos projetos que tenho concebido e liderado.

Represento, pois, aqui não só eu próprio, mas um povo de investigadoras e investigadores que, como evocou n sua Mensagem o poeta Fernando Pessoa, na figura simbólica do timoneiro português perante o Mostrengo que representava os rochedos(os obstáculos da impossibilidade, intransponíveis do Cabo das Tormentas no extremo sul de África até à viagem de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama), preponderando sobre os abismos do mar na passagem do oceano Atlântico para o Índico. Esses navegadores de há 5 séculos mudaram este nome do Medo para o nome da Coragem – Cabo da Boa Esperança. Assim canta o Pessoa:

“O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tetos negros do fim do mundo?»

(…)

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que minh alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

Nunca como hoje, os projetos de ciência e de ensino com relevância académica e com impacto social fazem-se em equipa coesas e dinâmicas. Tive o privilégio de ter ao meu lado pessoas competentes e dedicadas que realizaram comigo projetos originais e bemsucedidos. Por estas justas razões, esta distinção que hoje recebo é também para todos eles, a quem agradeço com toda a minha razão e o meu coração, esperando que sirva para valorizar e alavancar muitos projetos que temos em mão e queremos continuar a promover juntos para bem da ciência, da cultura e ao serviço da construção de um mundo melhor.

Com efeito, fazer investigação e trabalho académico em Portugal implica muito denodo e algum hersmo para as gerações mais jovens, quer no plano de trabalho individual quer em equipa, devida às condições de precariedade a que muitos investigadores sãosujeitos durante décadas até conseguirem alcançar um porto seguro o mundo académico. Por isso, nesta cerimónia solene, recordo todos esses meus colegas de ofício que no meu país trabalham com denodo e risco ao serviço do progresso da ciência e da cultura.

A nossa literatura e a hinologia portuguesa faz eco dessa condição de urgência, ousadia e trabalho esforçado que implica muitas tarefas nossas enquanto povo, que exige vontade férrea, homenageando os portugueses como “Heróis do mar” e, em particular,os meus conterrâneos da Madeira, como “Heróis do trabalho”. Aqui hoje recordo-os e homenageio-os com esta distinção que humildemente recebo das suas mãos, Senhor Presidente desta distinta universidade, e perante vós Senhoras e Senhores convidados.

Por fim, quero recordar e agradecer à minha família, esposa Fátima, filhos e irmão, que me tem sido sempre o meu suporte afetivo e porto seguro na caminhada, muitas vezes atribulada, da existência.  E do mesmo modo também recordo agradecido os meus pais e avós e, de entre eles, de modo especial a minha querida Mãe, de saudosa memória a quem dedico também particularmente esta distinção. Minha Mãe Maria, que deu a vida pelos seus filhos e os incentivo sempre a estudar sem desânimo, pois acreditava que a educação, a cultura e a ciência eram a caminho da libertação humana. Ela que foi uma mulher de trabalho persistente, ensinou que o sentido da vida passa pela ação certa e construtora de uma humanidade melhor como recordava o Imperador da Língua Portuguesa, Padre António Vieira e com as suas palavras, que é o meu ideário de vida,termino este discurso de agradecimento:

“… nem todos os anos, que se passam, se vivem: uma coisa contar os anos, outra vivê-los; uma coisa viver, outra durar. Também os cadáveres debaixo da terra; também os ossos nas sepulturas acompanham os cursos dos tempos, e ninguém dirá que vivem. As nossas ações são os nossos dias: por eles se contam os anos, por eles se mede a vida: enquanto obramos racionalmente, vivemos; o demais tempo duramos.”

José Eduardo Franco

Cátedra UNESCO/CIPSH de Estudos Globais-Centro de Estudos Globais

Universidade Aberta de Portugal


𝗨𝗻𝗶𝘃𝗲𝗿𝘀𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗣𝗮𝗿𝗶𝘀 𝗮𝘁𝗿𝗶𝗯𝘂𝗶 𝗛𝗼𝗻𝗼𝗿𝗶𝘀 𝗖𝗮𝘂𝘀𝗮 𝗮 𝗝𝗼𝘀é 𝗘𝗱𝘂𝗮𝗿𝗱𝗼 𝗙𝗿𝗮𝗻𝗰𝗼

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