São João da Madeira, Aveiro, 17 mai 2023 (Lusa) – O Município de São João da Madeira atribuiu hoje o Prémio Literário João da Silva Correia ao escritor e professor brasileiro Osvaldo Copertino Duarte, distinguindo-o pela “coragem verbal e imagética” da poesia que vem escrevendo na Amazónia.

À presente edição do prémio – cujo nome evoca o autor sanjoanense do romance “Unhas Negras” – concorreram 79 escritores lusófonos que, radicados em Portugal, em França e no Brasil, disputaram assim o direito a ver a sua obra publicada pela editora Âncora, num investimento até 3.000 euros suportado pela referida autarquia do distrito de Aveiro.

A análise das obras candidatas coube a um júri que, integrando o ex-ministro da Cultura Luís Castro Mendes, o poeta José Fanha e o editor António Baptista Lopes, selecionou “À sombra do escondido” pela “pela sua coragem verbal e imagética, e pela rica densidade do seu mundo poético”.

“’À sombra do escondido’ é um livro que nos faz acreditar na força da poesia”, defende Castro Mendes. Inicia-se com “um exercício de contemplação do abismo”, mas demonstra que, apesar do “pacto de inconforto” entre o escritor e a sua educação cristã, “o poeta aguenta essa prova” e “a palavra final é de esperança”.

Natural de Lutécia, onde nasceu em 1960, Osvaldo Copertino Duarte é licenciado em Letras, mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, e doutorado em Teoria da Literatura. Atualmente, concilia a criação literária com a docência na Universidade Federal de Rondónia, sendo que parte da sua atividade académica tem sido dedicada ao estudo das migrações, especialmente na região amazónica.

Em entrevista à Lusa, o escritor e professor brasileiro diz que vencer o prémio resulta da porção de “sorte” que elevou o seu livro acima do “valor das demais obras concorrentes”, mas confessa que, mesmo perante “alguma coisa de acaso e de imponderável”, a vitória lhe deu “muita felicidade”.

“O prémio significa o reconhecimento público por um trabalho de muitos anos. É o coroamento de uma das razões da minha existência. Escrever é como respirar, é um exercício prazeroso e, também, um ato solitário. O prémio põe a minha escrita à mostra, oferece-a ao debate público”, afirma.

Já várias vezes distinguido em concursos literários portugueses, Osvaldo Duarte admite que a Amazónia exerce especial influência na sua obra, sobretudo dado o contraste que proporciona com a experiência de vários anos a viver em território paulista.

“São Paulo vem há anos se repetindo na riqueza e na avareza. Tem as principais universidades, os principais centros culturais, é o coração económico do país e, ao mesmo tempo, o laboratório nacional das desigualdades sociais, dos preconceitos e do ódio político. É a própria face da desfaçatez”, defende o poeta.

Viver na Amazónia é, nessa perspetiva, uma atitude de resistência: “É tentar construir o oposto, ainda que sejamos vítimas dos exploradores, que, em alguma medida, representam esse ódio e essa desfaçatez. Em vez de explorador, quero ser construtor. Quero ser irmão dos indígenas, irmão das árvores, irmão dos bichos”.

Essa sensibilidade explica que Osvaldo Duarte receie “a morte de tudo e de todos” na maior floresta tropical do planeta. “Preocupa-me a morte dos humanos e não humanos, dos viventes daqui e daqueles que pensam que a Amazónia é apenas um lugar distante. Não importa onde cada um de nós esteja, precisamos mais dela do que de nós mesmos”, argumenta.

Mesmo nesse contexto tão específico, a poesia assume-se como algo vital, já que o escritor a considera “central na vida de todas as pessoas”, quer elas tenham ou não consciência disso.

“O facto de não sabermos [dessa presença] diz apenas que a poesia trabalha de forma subliminar, silenciosa e vívida. Todos os seres humanos têm necessidade de ficção e fantasia, como escreveu o grande crítico literário António Cândido. A poesia está presente em todas as fases da nossa vida e em todas as esferas da vida pública e cultural. Na medida em que nos comunicamos e nos definimos como seres de afeto, não há como escapar à sedução da palavra”, justifica.

Face ao poder dessa forma de expressão, as convenções impostas por acordos ortográficos assinados entre governos de diferentes países são aspetos menores e daí Osvaldo Duarte garantir: “Não me importo com o Acordo [de 1990]”.

Referindo que no livro “À sombra do escondido” optou por separar sílabas no final dos versos e por riscar palavras como se as corrigisse, o vencedor do Prémio João da Silva Correia declara: “A língua é dinâmica e as posições pró ou contra são diques que cedo ou tarde se rompem. Como escritor, meu destino é transgredir e, por isso, sou avesso a certos tipos de controle. Não sou eu quem dita as regras, mas o próprio texto”.

AYC // MAG – Lusa/Fim

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