Chimoio, Moçambique, 22 fev 2022 (Lusa) – Um total de 1.600 camponeses estão envolvidos no plantio de 400 hectares de café orgânico em Chimanimani num projeto agroflorestal que é o maior cafezal de Moçambique.

O projeto da Agrotur arrancou em 2020 com o plantio de 100 mudas de café arábica num campo experimental da zona tampão do Parque Nacional de Chimanimani, o que rendeu na primeira colheita, em 2021, cerca de 550 quilos de café, explica à Lusa António Tomo, engenheiro florestal.

Em 2020, a empresa introduziu cinco variedades de sementes importadas do Brasil e Zimbabué, o que permitiu a produção de 1,2 milhões de mudas de café, que estão a ser distribuídas aos produtores desde final de 2021 para o plantio dos 400 hectares, e que se prevê venha a ser concluído em abril.

“Esperamos daqui a 10 anos atingir o pico da produção de café Chimanimani”, quando a empresa alcançar a meta de 3.000 camponeses e produzir em 3.500 hectares, sendo 500 de área da empresa, precisa António Tomo.

“Mesmo assim, este ano, seremos a empresa com a maior área de café plantada em Moçambique”, acrescenta.

Além da produção do café orgânico em sistema agroflorestal, que inclui o reflorestamento de áreas degradadas e desmatadas da reserva para a salvaguarda dos solos, flora e fauna, a empresa quer criar rendimento.

Com outros produtos de rendimentos, destacou António Tomo, os camponeses conseguiam comprar chapas de zinco usadas na cobertura de casas, bicicletas e chinelos, para deixarem de andar descalços, mas a mudança poderá ser mais visível com “uma produção melhor”, como a do café.

Daniel Machire, camponês de Tsetsera, cresceu a ver os seus pais a produzirem café nas ‘farmas’ (quintas agrícolas) do Zimbabué e hoje, com pouca escolaridade, entende que o esforço empreendido pelos seus pais de nada lhes valeu.

Assim, quer mudar o padrão de vida da sua família com os primeiros dois hectares de café, plantados ao virar de esquina das antigas plantações coloniais.

“Nós víamos os esforços que faziam os fazendeiros e notamos que, de facto, aquilo dá dinheiro, então pensámos nós mesmos em ser grandes produtores de café”, diz Machire à Lusa, entusiasmado com a primeira colheita a ser feita este ano.

Outro camponês, José Sabonete, 53 anos, trabalhou nos campos de produção de café no Zimbabué, com proprietários expulsos daquele país durante a reforma agrária de 2004 e agora usa os conhecimentos para abraçar a produção de café.

“Eu aprendi lá [no Zimbabué], todo o ciclo de produção, desde o plantio até ao processamento para o mercado. Agora estou a usar os meus conhecimentos para produzir individualmente e vou comercializar localmente através desta empresa [Agrotur] que está a fomentar o café”, afirma Sabonete, falando na língua shona.

O camponês adquiriu por iniciativa própria as mudas de café no Zimbabué, mas desde o ano passado passou a ser fornecido com mudas pela Agrotur para plantar em mais dois campos abertos para a produção de café.

Thaona Mudjariua, 38 anos, camponês de Tsetsera, está a repovoar com plantações de café o pasto do seu gado, que ficou deserto devido às mudanças climáticas e está animado com a perspetiva de ganhar dinheiro e colocar na universidade os seus dois filhos.

“Quando entrou esta empresa para produzir café, agregando o setor familiar, ficámos satisfeitos, porque sabíamos que podíamos ter ganhos, o que vai ajudar a colocar os nossos filhos no ensino, até na universidade”, diz à Lusa o camponês, que observa que a área onde vivem, com terras mananciais, estava atrasada devido à falta de projetos que impulsionassem a agricultura.

O café “é um produto de grande rendimento, vou ter dinheiro a cada colheita e é uma cultura de longa duração” enfatiza à Lusa Judite Mugare, uma camponesa de 43 anos, que quer pagar ensino para os filhos, ter uma casa e alimentar-se melhor.

A camponesa, que fez o primeiro plantio em 2020, fará a primeira colheita este ano e prevê atingir 200 quilos de café.

Inicialmente, a produção – que terá colheita manual e secagem ao sol – será canalizada para exportação do grão seco para as grandes torrefatoras, mas há planos para, dentro de dois anos, ser instalada uma fábrica em Tsetsera de maneira a preparar o grão para exportação e mais tarde processar totalmente o café no local.

Em termos de produção, a empresa, que emprega 15 colaboradores (20 sazonais na fase de plantio), prevê crescer de cinco toneladas este ano para quase duas mil toneladas no décimo ano de implementação.

As contas da empresa também são ambiciosas: os planos preveem que as receitas subam de cerca de 300 mil dólares (264 mil euros) para 42 milhões de dólares (37 milhões de euros) em 10 anos.

AYAC // VM – Lusa/Fim

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