Díli, 17 ago 2025 (Lusa) – Em Timor-Leste o 25 de abril de 1974 chegou a um território isento em relação aos movimentos independentistas, mas um desorientado processo de descolonização precipitou um golpe, um contragolpe, uma declaração de independência e a ocupação pela Indonésia.
“Não obstante o cenário aparentemente pacífico, o 25 de Abril teve um impacto assinalável, patente na rapidez com que, no espaço de um mês, se formaram as três principais associações políticas timorenses, que polarizariam as opções em jogo nos meses vindouros”, refere a investigadora portuguesa Zélia Pereira no artigo “Da Chegada do 25 de abril a Timor: a controversa ação do major Arnao Metello”.
Logo após o 25 de abril, foram criadas a União Democrática Timorense (UDT), a Associação Social Democrática Timorense (ASDT) e a Associação Popular Democrática Timorense (APODETI).
A UDT e a ASDT (transformada em Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente – Fretilin) queriam ambas a independência, mas divergiam quanto à forma de a fazer, e a APODETI defendia a integração do território na Indonésia.
Em janeiro de 1975, com o apoio do último governador de Portugal no território, Mário Lemos Pires, a UDT e a Fretilin assinam um acordo de coligação e criaram um Governo provisório.
Mas, a rivalidade entre os dois partidos continuava a aumentar e a criar divisões, intensificadas com a intervenção da Austrália e da Indonésia, que passou a defender a integração de Timor-Leste, conhecida como o “Regresso à Pátria”.
Em maio de 1975, a UDT decide romper com a Fretilin, levando à queda da coligação.
A 11 de agosto, após ser informada pela Indonésia de que a Fretilin estaria a preparar um golpe de Estado, a UDT inicia um movimento armado, ocupando o quartel da polícia portuguesa, o aeroporto e a rádio.
A 20 de agosto, a Fretilin forma as Forças Armadas de Libertação de Timor-Leste (Falintil) e dá um contragolpe, assumindo o controlo do território em setembro, menos na zona da fronteira terrestre com a Indonésia, onde prosseguiam confrontos.
O período ficou marcado por confrontos entre timorenses e pelo fracasso das várias tentativas de Portugal para negociações.
Já sob a sombra da possibilidade da ocupação do território pela Indonésia, a Fretilin declara unilateralmente a independência a 28 de novembro de 1975.
“Portugal recusa-se a reconhecer o ‘fait accompli’. Praticamente nenhum país reconhece a nova república – facto curioso, que sinaliza o relativo isolamento deste caso em relação ao confronto entre blocos antagónicos a que chamamos Guerra Fria”, salientam os investigadores portugueses Zélia Pereira e Rui Feijó no “Connecting Portuguese History”.
Nove dias depois, a 07 de dezembro de 1975, a Indonésia inicia a ocupação de Timor-Leste.
“É apoiada internacionalmente pelos EUA, pela Austrália e por vários vizinhos da ASEAN [Associação das Nações do Sudeste Asiático], sem que o campo oposto seja capaz de mobilizar qualquer contestação”, acrescentam os investigadores.
Timor-Leste voltaria a declarar a independência a 20 de maio de 2002, após a realização em novembro de 1999 de um referendo pela autodeterminação, que pôs fim à ocupação indonésia.
“A invasão de Timor-Leste […] foi apenas uma nota de rodapé nos acontecimentos da Guerra Fria de 1975. Os milhares de timorenses que morreram nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram foram meras notas de rodapé do pós-Vietname e da Guerra Fria”, afirmou José Ramos-Horta, atual presidente timorense, no discurso proferido na cerimónia de entrega do prémio Nobel da Paz, que venceu em 1996, juntamente com o bispo Ximenes Belo.

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